Nele é possível encontrar muito pontos quentes da crise económica: os efeitos das decisões das agências de rating, as dificuldades dum País com uma dívida pública fora de controle, a incapacidade da classe política em lidar com a actual situação.
E a presença duma esperança de fundo: a retoma, este Santo Graal tantas vezes invocado mas ainda fora do nosso alcance.
O que é dito aqui vale em Espanha, claro; mas este artigo poderia ter sido escrito em Português, Italiano e quem sabe em quantas outras línguas ainda num futuro bastante próximo.
Já o título diz muito:
Uma espiral perversa
O fraco crescimento e a ausência dum pacto político explicam a nova baixa da dívida
Quase na mesma altura em que o Prémio Nobel de Economia Joseph Stiglitz pedia para liquidar a autoridade das agências de rating, tendo sido incapazes de prever a fraude nos mercados e por causa da atitude delas que agrava as crises e intensifica as euforias financeiras, Fitch reduziu o rating da dívida espanhola de AAA para AA +, com perspectiva estável. Foi o segundo rebaixamento produzido este ano, após o de Standard & Poor's, e terá consequências para a economia espanhola. Por um lado, retira eficácia ao plano de redução dos custos aprovado pelo Governo, uma vez que pode aumentar o custo da dívida, e também prevê uma maior deterioração dos activo espanhóis desde segunda-feira.
A opinião da Fitch entende que a taxa de crescimento do PIB é insuficiente para satisfazer a dívida total (pública e privada) e indica de forma inequívoca a contradição, aparentemente insuperável,em que se encontra a economia espanhola, uma das mais débeis da zona euro. Para manter a solvência da dívida, a Espanha precisa implementar um ajuste das despesas públicas: este corte diminui as chances de recuperação e esta fragilidade torna-se uma fonte de maior desconfiança nos mercados. A própria baixa na classificação prejudicará um pouco mais as chances de recuperação.
Mesmo ontem, o Governo, num exercício de realismo louvável, adequou o próprio quadro macroeconómico ao impacto do ajuste dos gastos públicos e dos aumentos de impostos. Baixou as projeções de crescimento para 2011 de cinco décimos e quatro décimos em 2012 e 2013 e aumentou as taxas de desemprego previstas para estes anos, de forma que para este ano será de cinco décimas acima do esperado (até 19,4%) e no próximo ano aumentará de quatro décimas em respeito à próxima previsão, até 18,9%. São projecções que confirmam um período prolongado de fraco crescimento antes da recuperação.
Mas não convém enganar-se. Fitch afirmou na sua decisão o medo dos investidores para a desordem política espanhola e a incapacidade do governo e da oposição para chegar a um acordo sobre as linhas básicas de acção para superar a recessão. Parece inconcebível que o primeiro partido da oposição não aceite que Espanha perdeu uma parte importante da sua fortuna na crise que eclodiu em 2007, que esta perda requer um ajuste geral e que a gravidade do momento obriga a abandonar as tentativas para alcançar o governo passando por cima de qualquer outra consideração; parece insensato que os governos regionais oponham-se sistemática ao ajustamento , recusem apoiar politicamente a posição do governo e arrastem os pés para bloquear a reforma das cajas de ahorros em nome de reivindicações provincianas; e parece louco atiçar a ameaça de uma greve geral, se for aprovada uma reforma laboral por decreto se os parceiros sociais forem incapazes de concorda-la.
A situação da económica espanhola agrava-se, é verdade, mas a falência política também é avaliada nos mercados. PP (Partido Popular), CiU (Convergéncia i Unió) e PNV (Partido Nacionalista Vasco) são responsáveis pela deterioração da credibilidade das finanças públicas e do governo. O caminho desta espiral destrutiva só pode ser quebrado se os planos de ajuste da despesa são mantidos, se aprova-se (com ou sem acordo) uma reforma laboral que sustente a recuperação económica com emprego estável e não contratos precários, se será procura-do a médio prazo um reforço da estrutura das receitas do Estado e se será possível contar, por uma vez, com o apoio político da oposição para a austeridade.
Fonte: El País

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