30 maio 2010

Quem cria o dinheiro?

Quem cria o dinheiro?

Os bancos só são os intermediários entre o Estado e o cliente?

A função deles é só guardar o dinheiro das contas, aconselhar acerca dos investimentos e distribuir cartões de credito?

Talvez o papel destas instituições financeiras seja mais do que isso.
Muito mais.
Infelizmente.

Começamos com o dizer que os bancos não são intermediários, pois criam moeda de maneira totalmente independente dos depósitos ou reservas que têm, de facto não é o Estado que cria o dinheiro hoje, mas os bancos.

Surpresos? Pois.

Este mecanismo perverso é a raiz das bolhas especulativas, seguidas pelas recessões periódicas, é o factor que criou a Grande Depressão dos anos '30 e que precipita agora todos numa nova Depressão.

O sistema não é normal, embora assim seja dito, é um mecanismo recente e controverso, que enriquece uma elite em detrimento da maioria, e após a Depressão que se aproxima, talvez possa ser abolido.
Após a Grande Depressão dos anos '30, perante o desastre que tinha criado, o mecanismo apertado com um conjunto de regras muito rígidas sobre a actividade bancária, mas a partir dos anos '70 e até os '90 estas regras foram removidas e isso fez com que os bancos se tornassem "armas de destruição em massa". Ou seja, com o actual sistema de criação de dinheiro os bancos, se não ficarem vinculados de maneira sempre muito apertada, periodicamente criam uma sequência de bolhas especulativas - crack - recessões que beneficiam apenas a elite financeira e devastam a economia real.
Tendo deixado por 20 anos as mãos dos bancos totalmente livres, provavelmente arriscamos uma outra Grande Depressão.

Uma vez o Estado criava o dinheiro, em 1700 ou no tempo dos romanos; hoje os bancos criam o dinheiro, mas ninguém o sabe porque nas universidades ensinam que antes o banco central (ou seja, o Estado) fornece as reservas aos bancos, e a seguir estes "multiplicam-nas".

Aqueles que estudaram a economia ouviram esta explicação: depois do Estado ter decido entregar uma certa quantidade de reservas, os bancos emprestam o dinheiro aos clientes, o cliente utiliza o dinheiro e este circula; a seguir chega outro cliente que deposita em vez de levantar, por isso temos o "multiplicador bancário" baseado nas reservas que em origem o banco entrega.

Mas é errado: a explicação correcta da criação de crédito é a do dinheiro "endógeno" em que primeiro os bancos concedem empréstimos e, em seguida, o banco central imprime a moeda e proporciona-a como "reservas bancárias".
Este é um resultado testado também empiricamente por Kydland e Prescott, que ganharam o Nobel e mostraram estatisticamente que ANTES os bancos criam o crédito e DEPOIS o banco central entrega as reservas.
Mas o facto de quase todos os especialistas acreditarem na teoria errada tem consequências enormes, deixando a criação de crédito nas mãos dos bancos, fazendo acreditar que seja controlado pelo banco central, isto é, pelo governo.

É por isso que quando os bancos hoje têm dificuldade toda a economia pára também, porque são os bancos quem decidem se aumentar ou diminuir o dinheiro na economia. Simplesmente, se os bancos não concedem créditos, o Estado não imprime dinheiro; e se os bancos concedem muito crédito o Estado imprime muito dinheiro.

O que pode ser lido no site da Bundesbank.
4.4 criação de dinheiro pelos bancos
[...] Ambos os bancos, central do Estado
e bancos comerciais privados, podem criar dinheiro. No sistema do euro
o dinheiro é criado principalmente através da concessão de empréstimos.

A criação de dinheiro hoje depende do crédito bancário, se os bancos entram em falência o crédito desaparece, e uma vez que 80% do dinheiro é criado pelos bancos sob forma de crédito, a economia cai em recessão ou mesmo em depressão. A causa da maioria das recessões sempre foi um excesso de crédito bancário, o que cria uma bolha de algum tipo, seguidos pelo pânico, colapso e contracção súbita da moeda em circulação. Ou um excesso de crédito bancário, que é reprimido pelo Banco Central: aumenta as taxas e aumenta as exigências de reserva, criando uma brusca contracção da moeda em circulação.

Algumas frases e testemunhos podem ajudar na compreensão da amplitude do discurso.
[Os bancos] realmente não pagam os empréstimos do dinheiro que recebem como depósitos. Se fizessem isso, nenhum dinheiro adicional seria criado. Quando fazem empréstimos aceitam notas promissórias em troca de créditos nas contas dos devedores de transacção.
Federal Reserve Bank, "Modern Money Mechanics", 1960
O processo pelo qual os bancos criam dinheiro é tão simples que a mente é repelida.
John Kenneth Galbraith, economista
Quando um banco faz um empréstimo, simplesmente adiciona à conta do cliente o montante do empréstimo. O dinheiro não é retirado de qualquer outro depósito, não foi pago ao banco por ninguém . É dinheiro novo, criado pelo banco para a utilização do cliente.
Robert B. Anderson, secretário do Tesouro sob Eisenhower, numa entrevista do dia 31 de Agosto de 1959
Embora os bancos já não tenham o direito de emitir notas, podem criar dinheiro sob a forma de depósitos bancários, quando emprestam dinheiro às empresas [...]
A coisa importante a lembrar é que quando os bancos emprestam dinheiro não necessitam de retira-lo de ninguém para emprestar. Assim, o criam.
Congressista Patman Wright,  Money Facts (House Committee on Banking and Currency, 1964)
O sistema bancário moderno fabrica dinheiro do nada. O processo é talvez a peça de prestidigitação mais surpreendente que alguma vez foi inventada.
Sir Josiah Stamp, presidente do Banco da Inglaterra e segundo homem mais rico da Grã-Bretanha na década de 1920.
Os bancos criam dinheiro. É por isso que existem.... O processo de fabricação consiste em tornar o dinheiro numa entrada dum livro [contabilístico]. Isso é tudo. Cada vez que um banco faz um empréstimo um novo credito bancário é criado: dinheiro novo.
Graham Towers, o governador do Banco do Canada 1935-1955.

No processo First National Bank v. Daly (muitas vezes referido como o caso "Credit River"), o tribunal considerou que o banco criou o dinheiro "do ar":
[O presidente do First National Bank of Montgomery] admitiu que todo o dinheiro ou o crédito que foi tomado em consideração [para o empréstimo entregue] foi criado a partir dos livros, que esta era a prática bancária normal exercida pelo banco em conjunto com a Federal Reserve Bank of Minneaopolis, um outro banco privado, ainda que soubesse que nenhum estatuto ou lei dos Estados Unidos tinha conferido a autoridade para faze-lo.
E Robert H. Hemphill, gerente de crédito da Federal Reserve Bank de Atlanta, disse:
Se todos os empréstimos bancários fossem pagos, ninguém poderia ter um depósito bancário, e não haveria um dólar de metal ou nota em circulação. É um pensamento desconcertante. Nós estamos completamente dependentes dos bancos comerciais. Alguém tem de pedir cada dólar que temos em circulação, em dinheiro ou crédito. Se os bancos criam muito dinheiro sintético somos prósperos, se não vamos morrer de fome. Estamos absolutamente sem um sistema monetário estável. Quando alguém consegue uma imagem clara da realidade, a trágica absurdidade da nossa posição desesperada é quase inacreditável, mas assim é.
É o mais importante assunto acerca do qual pessoas inteligentes podem investigar e reflectir.
É tão importante que a nossa civilização pode entrar em colapso a menos que se torne amplamente compreendido e os defeitos sanados em breve.
E seria possível continuar.


As pessoas comuns e empresas trabalham como antes, mas de repente a economia está em recessão e não se entende o porquê destes colapsos.
Porquê?
Repetimos: o Banco Central imprime dinheiro somente DEPOIS dos bancos terem concedido o crédito a alguém; em primeiro lugar há bancos que fornecem crédito e só em seguida há o Estado a imprimir dinheiro. Isto é independente do facto de ter depósitos ou capital suficiente: os bancos criam dinheiro.

Porque na década dos anos '30 o PIB  dos EUA de repente colapsou de -30% entre 1930 e 1934 e o País, com as outras nações ocidentais, manteve-se deprimido até 1940, com desemprego de 20-25% ao longo de uma década?
A explicação amplamente aceite é que, além dos aumentos dos impostos, da regulamentação pesada e da intervenção do Governo,  foi basicamente o colapso do sistema bancário que acabou com 30% da moeda, dos meios de pagamento disponíveis, criando uma deflação geral dos preços de terrenos, edifícios, actividades, bens, produtos agrícolas, com falências de empresas que levaram à falência de bancos e liquidação de fazendas e empresas etc.

Não há outra explicação racional para a queda de -30% em cinco anos do produto nacional de um País como os Estados Unidos. E em qualquer caso, para todas as outras crises seguidas por depressões menos pesadas (1837, 1873, 1907, 1923), a explicação é sempre ligada ao crédito e à moeda, isso é, os bancos faliam de repente porque tinham emprestado muito mais dinheiro de quanto possuído; criava-se assim o pânico, as pessoas corriam para retirar o dinheiro e de repente desaparecia 20 ou 30% da moeda e a economia afundava.

O nosso actual sistema de bancos com reservas fraccionárias com dinheiro de papel é uma instituição recente e muito controversa, ao longo de todo o '800 tem sido encarada com desconfiança, especialmente nos Estados Unidos, onde há um século houve uma luta violenta para impedir que pudesse provocar estas crises.

Mas se os bancos emprestassem só o dinheiro que recebem em depósito pelos clientes não aconteceria.
A razão para as bolhas especulativas, seguidas pelo colapso e a depressão, é que os bancos criam o dinheiro independentemente dos próprios bens e cedo ou tarde exageram, levando consigo a economia também.

Cada ano, no entanto, com o crescimento da população, da produção e da inflação, num país como os EUA, Itália, China ou Venezuela é preciso aumentar a moeda; se o desejo for um aumento nominal do PIB de 4%, por exemplo (2% real + 2% inflação), a moeda deve aumentar 4%, pelo menos.
Se ao contrário cair - 30% também o PIB cairá -30%. Bom, então seria suficiente que o Estado imprimisse moeda por cerca de 4% e usasse o dinheiro com taxa zero para financiar-se, reduzindo assim um pouco os impostos!

Qual é a necessidade de imprimir dinheiro e entrega-lo quase de graça aos bancos que, em seguida, sem qualquer dificuldade o emprestam a famílias e empresas com o 5% ou 6 % de interesse?
A criação do dinheiro fisiologicamente necessário para a economia anual deveria ser feita pelo Estado; o que evitaria subidas de impostos. Mas com o sistema que é imposto hoje são os bancos os criadores de dinheiro a quase custo zero. O que cria também os pressupostos para futuras crises.

É um sistema demencial que só beneficia quem especula , em detrimento daqueles que trabalham e produzem.

Ipse dixit.

Fonte:Cobraf

2 comentários:

  1. Da mesma maneira que o Estado soberano pode emitir quanta moeda quiser sob sua jurisdição, ele deve ser capaz de retirá-la de circulação para evitar sua desvalorização e o consequente colapso das relações de troca. Portanto, o Estado soberano deve taxar. Mas não é isso que ele ele faz? Sim. Mas como já foi dito alhures, para benefício, ao fim e ao cabo, dos "magos do dinheiro". Então nada melhor do que criar dinheiro e retirar dinheiro para benefício da maioria esmagadora da sociedade. Só um porém, precisamos acreditar nisso.

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  2. Nesse sentido talvez seja interessante a concepção de bancos estatais. Fugir da lógica atual é algo muito difícil devido as grandes pressões da mídia e do próprio sistema em si, mas o governo ao manter sob suas rédeas alguns bancos é algo interessante. Gostaria de conhecer mais a fundo e saber qual o impacto disso no Brasil por exemplo, que apresenta dois grandes bancos públicos, ou a China onde a maioria de seu sistema financeiro também o é público.

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