18 de Junho de 2010

Os piratas modernos

Um fenomeno que de vez em quando merece as manchetes dos jornais para depois desaparecer ao longo de meses.

Falamos da pirataria.

Esqueçam Jack Sparrow: a realidade aqui é muito menos romântica e encontra as próprias origens nas pobreza e no desespero, em jovens sem futuro, nos Países africanos ainda à procura da própria identidade..

Alfonso Arpaia trabalha no Middlebury College, EUA, e dedicou o seguinte artigo ao tema.

Pirataria e geopolítica
Desde alguns anos existe um fenómeno perigoso que está a crescer a nível mundial e que afecta várias regiões do mundo, incluindo o litoral ocidental e oriental da África, o continente com o qual o fenómeno em questão está intimamente ligado. Falamos da pirataria, uma realidade de origens antigas que sempre tem a ver com o mar mas agora encontra as suas raízes em outros lugares: segundo o professor de Direito de Navegação e Transportes, Nicoló Carnimeo, a pirataria moderna é um fenómeno terrestre (nasce da instabilidade dos Países de origem) e não marítimo, e, portanto, deve ser combatido (ou resolvido) no chão e no mar. A pirataria da costa leste de África também é filha duma Somália sob o domínio do caos há quase duas décadas. As costas da Somália totalizam mais de duas mil milhas náuticas e, juntamente com as da África Ocidental, formam um cenário favorável para o aparecimento de ataques contínuos dos piratas africanos.

Em termos jurídicos, o conceito de pirataria refere-se às acções realizadas em alto mar, fora da jurisdição de qualquer Estado: acções criminosas executadas dentro das águas territoriais, ao invés, são classificados como assaltos à mão armada no mar.

Na Somália, os jovens sabem que podem perder a vidas em qualquer momento, sentem que não têm nada a perder e certamente muito a ganhar em acções de roubo contra navios mercantis. A situação de pobreza crónica, juntamente com o sentimento generalizado entre o povo somali de que as condições de vida nunca vão melhorar, são factores que estimulam o suficiente para tornar-se parte do cada vez maior "exército" de saqueadores do mar. Se ao nível estritamente social este é um terreno fértil para a alimentação do fenómeno, a nível político e institucional os piratas dos mares Africano podem beneficiar, no caso da Somália, dum contexto local sem uma forma eficaz de governo estável; um tal vazio institucional é contagioso para a mesma economia doméstica, terreno fértil para um mercado que favorece a colocação fácil dos despojos dos piratas modernos. Em outras palavras, existe uma osmose perfeita e interdependência entre a pirataria e Estados sem governos, entre criminalidade marítima e instabilidade institucional: e não podemos esquecer as organizações terroristas.

Actualmente, os actos de pirataria não ocorrem apenas na costa da Somália, mas também ao longo da costa entre a Arábia Saudita e o Paquistão; na África Ocidental; na paisagem imensa e complexa do Sudeste asiático; e até nas Caraíbas e nas costas do Pacífico da América Latina. Hoje o Golfo de Aden é parte do mundo mais afectada pelos ataques dos piratas, seguida pelas costas da Nigéria e da Indonésia. Em última instância são os mares africanos que sofrem particularmente o problema da pirataria. As costas entre Iémen, Somália, Djibuti e Eritreia oferecem uma conformação muito favorável aos ataques dos piratas, porque constituem um insidioso estreito que abranda a navegação.

Zonas de actuação da pirataria somali

As fronteiras marítimas da Europa (o chamado "Mediterrâneo alargado", que se estende muito além de Gibraltar, Grécia, expandindo-se a partir da costa senegalesa até o Corno de África) é cada vez mais no centro da PESC, a Política Externa e de Segurança da União Europeia. Tanto a NATO quanto a UE têm mexeram-se em termos militares para tratar dum alarmante aumento do fenómeno criminal. Os ataques dos piratas modernos são prejudiciais ao comércio marítimo mundial e europeu: as rotas marítimas são mesmo mais caras também em termos de protecção, porque a pirataria não tem como consequência o custo para libertar os reféns, mas também os desembolsos decorrentes do desvio das rotas marítimas comerciais e os custos das seguradoras. Ao mesmo tempo, este tipo de actividade criminosa fornece capitais que muitas vezes os senhores da guerra reinvestem no sector imobiliário do Quénia e da Etiópia.

O contexto somali faz com que as redes de pirataria desenvolvam fortes laços com o terrorismo fundamentalista do Iêmen e da mesma Somália, sendo, em muitos casos, verdadeiras organizações terroristas que estão envolvidas nos ataques a navios mercantis no mar.

Não é difícil entender quanto estratégicas sejam as águas entre o Canal de Suez e o Golfo de Aden, onde transita o tráfego comercial de todo o planeta e onde os Países envolvidos, em termos de interesses económicos e comerciais, pertencem a diferentes esferas geopolítica, desde Hong Kong até os Estados Unidos, através da Ucrânia e da China, esta última com problemas de pirataria a serem enfrentados mesmo nas águas ao redor das próprias costas.

Mais, parece que a pirataria é até prejudicial para o ecossistema do mar: os piratas, de facto, muitas vezes atingem com armas pesadas os tanques de petróleo que caem nas suas garras.

Sem mencionar o perigo que os ataques constituem para a ajuda humanitária das Nações Unidas, em falta da qual a Somália poderia enfrentar uma catástrofe.

Além disso, temos que ter presente que a pirataria no Corno de África é uma ameaça para a segurança do abastecimento energético da Europa. Por seu lado, os Países ocidentais têm feito muitos passos para dar segurança ao trânsito de mercadorias com destino os próprios mercados, incluindo o transporte de petróleo.

Grande atenção deve ser dada pela Europa e os EUA aos problemas internos da Somália, onde a ala fundamentalista islâmica, que já impôs a lei islâmica no País, opõe-se aos bandos dos piratas. É verdade que a presença de formações fundamentalista estabelecidas no território somali pode não necessariamente ser garantia de um desenvolvimento frutífero nos relacionamentos internacionais de Mogadiscio, considerando também que o vizinho Iêmen é atormentado por problemas de terrorismo e também o governo fundamentalista do Sudão, com ambíguas ligações internacionais, poderia fomentar iniciativas anti-ocidentais ao longo do Corno de África: a Somália, em suma, poderia ficar fechada numa perigosa trama entre o Oriente e o Ocidente das suas fronteiras.

Não devemos esquecer que as acções contínuas dos sequestradores nos mares africanos, precisamente devido ao facto deste fenómeno ser um veículo para actividades criminosas, financeiras e não, já comportaram uma mudança na geopolítica das principais potências ocidentais e, em particular, de toda a União Europeia.

Como dizer: os piratas dos mar, na tentativa de fugir à pobreza do próprios País, arriscam ver pioradas ainda mais as próprias miseráveis condições.


Fonte: Eurasia

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