28 setembro 2010

Irlanda, Portugal, o trigo dos Russos e dos Chineses

Muitos no mundo da Finança perguntam: depois da Grécia, agora Irlanda e Portugal?
E depois?
A Polónia e, então, a seguir?

É o medo do efeito domino, outra vez (nota: a crise acabou!).
A Comissão Europeia propôs sanções mais severas contra os Países que violam as regras da UE.

Reparem: não soluções, mas sanções.

Como interpretar estas sanções? Duas as maneiras possíveis:

nº 1 versão sádica:
A tua economia não funciona? Toma lá uma multa!

nº 2: versão ainda mais sádica:
Ainda não conseguiste sugar mais dinheiro dos contribuintes?
Tomas lá uma multa!

Interessante.

A turbulência financeira da periferia da zona Euro pode acabar por ameaçar o sistema bancário europeu e até mesmo a frágil (muuuuito frágil) retoma. Escreve a bíblia financeira americana, o Wall Street Journal, que as preocupações são aumentadas após a Moody's ter cortado a avaliação do banco irlandês Anglo Irish Bank de três níveis, até Baa3.

O colapso do mercado imobiliário irlandês, realça o jornal, paralisou o sistema bancário, forçando o governo a intervir com uma operação de resgate que custou 33 bilhões de Euros, representando um quinto do PIB.

Entretanto, o Ministro das Finanças Português empurra para que o governo insista com os planos de corte do deficit. A incerteza sobre a capacidade de Portugal em tomar novas medidas fiscais fazem "saltar" os rendimentos em relação à dívida do País, um sinal da preocupação crescente dos investidores.

Há um facto que impressiona: a diferença entre os rendimentos das obrigações a dez anos na Alemanha e em Portugal aumentou 4,2 pontos percentuais.

Mas não há crise pois a OCDE, Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico, já tem a receita para curar Lisboa: Portugal deve ser "pronto para aumentar os impostos, com ênfase naqueles que menos distorcem o crescimento, como o IVA".

Simples.

Resgate? Acabou.

Algo de preocupante está a mexer-se.

O Comissário europeu para os assuntos económicos, Olli Rehn, sentiu-se obrigado a reiterar que "entre os Países do Euro não haverá nenhum caso de incumprimento nos pagamentos. Os custos potenciais, em termos económicos e políticos dum evento desse tipo, seriam tão devastadores para a área do Euro e da União Europeia que faremos o que for necessário para impedi-lo. E tenho certeza que vamos evita-lo. Não haverá reestruturação da dívida na Grécia, nem em qualquer País da área do Euro", disse.

As tensões ressurgiram nestes dias nos Títulos de Estado da Irlanda e Portugal, dois Países desde muito considerados "em risco": tensões desencadeadas pelos dados decepcionantes sobre as actividades das empresas da Zona Euro, em Setembro no nível mais baixo dos últimos sete meses (a crise acabou!). Resta uma pergunta: onde virá a UE buscar o dinheiro para evitar uma reestruturação da dívida, em outras palavras, para não mandar ninguém à falência?

Poucos meses e Olli Rehn poderá dar uma resposta. Tardia. E a razão é óbvia: o produto interno bruto de Portugal no segundo trimestre de 2010 diminuiu 1,2% em relação ao período anterior, com um valor agregado que mostra o declínio de 1,8% numa base anual. E a agência Bloomberg reporta a surpresa dos especialista: esperavam na Irlanda uma repetição do desempenho positivo do primeiro trimestre do ano e, pelo contrário, tiveram que encarar a queda do PIB. De novo numa espiral descendente.

Como já tivemos modo de afirmar, o tempo dos resgates passou. Portugal e Irlanda terão de encontrar sozinhos a maneira de sair desta situação. Caso contrário será o mergulho. Ou a intervenção do Fundo Monetário Internacional.  Uma coisa do tipo "venha o diabo e escolha".


Na Rússia, entretanto...

O Banco de Moscou Uralsib advertiu em termos inequívocos que metade da colheita de batatas de toda a Rússia foi perdido e que a crise do grão que atingiu a área do mar Negro (o celeiro que abastece um quarto do total das exportações) por causa dos incêndios devastadores deste último Verão virá continuar por mais um ano. Resumindo: um desastre.
O preço do trigo já subiu 70% entre Junho e hoje, chegando aos 7,30 Dólares por bushel (o bushel é a medida de capacidade para sólidos e líquidos utilizada no Reino Unido e para sólidos secos nos EUA e Canadá. Nos EUA, por convenção, um bush de trigo é equivalente a 27,216  quilogramas) e Abdolreza Abbassanian, responsável pelo sector de grãos da FAO, afirma: 
A esperança era de ter a situação normalizada em Setembro, mas não foi o caso e, certamente, muitos outros produtos estão a beira de ver os próprios preços subir

Por enquanto, os níveis da crise de 2008 ainda estão longe (na altura o bushel atingiu 13 Dólares) e os estoques mundiais ainda estão seguros a 22%, mas a situação está a piorar. Alerta Abbassanian:
Ainda não estamos numa crise real, mas o equilíbrio é precário. Se a Rússia e a Ucrânia tivessem de enfrentar mais um ano negativo, então sim, seria preciso pegar nos os estoques

A perspectiva futura é ainda mais sombrio segundo Chris Weafer, economista-chefe do Uralsib, pelo qual a colheita de trigo da Rússia este ano alcançará cerca de 60 milhões de toneladas contra um consumo de 75 milhões, e estoques de emergência de 9,5 milhões:
Pensamos que a Rússia necessitará de 17 milhões de toneladas de trigo e terá que importa-los. 
E esse é o lado negativo: ninguém contava com risco duma Rússia transformada num grande importador.

Luke Chandler da Rabobank confirma as previsões negativas:
Neste momento não podemos falar duma recuperação das culturas na Rússia, porque os incêndios prejudicaram o solo de modo a tornar impossível a sêmea no Inverno.
Mas também o milho emite sinais pouco felizes: os estoques globais estão no nível mais baixo em 37 anos: um nível muito baixo, quase limite, principalmente porque os Estados Unidos poderiam gastar 36% da colheita para produzir combustível.
Conduz-se, mas com estômago meio vazio.


Na China, entretanto...

O preço do milho subiu 40% em Junho, atingindo 5 Dólares por bushel: alguém tinha apostado no mau tempo que, de facto, danificou as culturas nos EUA. E afinal foi descoberto que a China tinha importado um recorde de 432 mil toneladas em Agosto. O problema, neste caso, é estrutural: a China está a transformar-se num importador de milho por causa duma mudança estrutural dos hábitos alimentares das massas. Comem mais carne e, portanto, precisam de mais milho para criar e alimentar os animais: 70% do milho chinês é usado para este fim e são precisos cerca de sete quilos de milho para "produzir" um quilo de carne.

A Federal Reserve afirmou esta semana: há um risco descendente (downside risk) para a inflação.
O mundo muda e a transformação de dois gigantes como Rússia e China pode criar grandes choques estruturais, especialmente neste contexto de fraqueza global persistente. Chegamos a um ponto focal da evolução geopolítica e económica e Pequim sabe disso.
O premier Wen Jiabao, em visita a Nova York, respondeu desta forma ao pedido americano para uma valorização do Yuan:
Um aumento de 20% do valor da nossa moeda poderia causar graves perdas de empregos e instabilidade social, deixando o País numa perspectiva duma batalha legal com os EUA sobre as reivindicações monetárias. Na verdade, não podemos sequer imaginar quantas empresas chinesas ficariam falidas, quantos trabalhadores chineses iriam perder o próprio trabalho e quantos trabalhadores migrantes deixariam a cidade para voltar para o campo: se aceitarmos o pedido EUA de valorização do Yuan entre 20% e 40% as consequências cena sociais seriam devastadoras.
E sabemos que Pequim gosta mais das guerras de nervos do que as guerras civis. Até o momento, o Yuan valorizou-se em cerca de 2% frente ao Dólar desde 19 de Junho, dia em que o Banco Central da China tem dado luz verde a uma taxa de câmbio mais flexível com o Dólar, após um câmbio semi-fixo nos dois últimos anos. Acrescenta Glenn Maguire, economista do Société Générale em Hong Kong:
Pedir uma valorização daquele nível é sintoma duma total falta de fundamentos no mercado de câmbio, não é possível e não pode ser gerido um tal choque num prazo tão curto

Respondendo às acusações de os EUA, Wen deixou claro que:
a principal causa do deficit comercial dos EUA não é a taxa de câmbio com a moeda chinesa, mas a estrutura dos investimentos e das poupanças.
A China, na metade deste ano, já tinha um saldo activo na balança comercial com os Estados Unidos de 119 bilhões de Dólares, e pode fechar 2010 com um número ainda maior aos 227 bilhões de 2009: um problema para Obama, forçado a enfrentam uma taxa de desemprego (oficial) de 9% e as eleições intercalares em Novembro.

Para entender o nível do debate, acrescentamos que Wen falou numa conferência organizada pela Goldman Sachs (sempre eles...) e que contou com a presença do administrador delegado da Pepsi Inc. Indra Nooyi, do ex-secretários do Tesouro, Henry Paulson, e Robert Rubin e que tinha como moderador nada mais nada menos que Henry Kissinger, o homem que conseguiu reconstruir as linhas de diálogo com Pequim durante a administração Nixon.

"As diferenças entre nós e os EUA são muito fácil de resolver quando comparadas com os desafios enfrentados na época pelo Dr. Kissinger" realçou perfidamente Wen. Como dizer, façam um passo na nossa direcção ou será guerra: monetária, mas também em termos de gestão da dívida. Em suma: jogos de guerra. Global.

Ipse dixit.


Fonte: Il Sussidiario , Blitz

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