17 outubro 2010

A arca



Mário Nunes, no seu bem conhecido Kafe Kultura, publica um artigo muito interessante.
O que não é novidade.

O assunto parte da construção do banco mundial de Svalbard, na Noruega, uma espécie de Arca de Noé; e prossegue com uma pergunta: haverá alguma "Arca de Noé" para a cultura?


Li algures que foi construída uma biblioteca, no fundo duma mina de sal.
Contudo, não existe nada na rede sobre o assunto, se havia foi simplesmente apagado.
Será verdade?
Será mentira?
Custa-me ver desaparecer todo o conhecimento humano contemporâneo, nos seus mais diversos aspectos no mundo das artes, na ciência, técnica e letras, quer ainda os maravilhosos livros, filmes e música.
Uma coisa é certa, nada é eterno…
Tudo é efémero.
Será que esta questão já alguma vez foi colocada?
Todos sabemos da importância do contributo do legado greco-romano, para a civilização ocidental e a importância dos árabes na sua preservação.[...]
Sabemos o que ocorreu após a queda de Roma. A Europa mergulhou nas trevas e na ignorância e só se recompôs com o Renascimento e as Descobertas. Só então, a Europa acordou para o Mundo.
Ou será que tudo desaparecerá como há 12.000 anos atrás?
Eis o que distingue um bom post dum post qualquer: o bom post faz pensar.

Estava para replicar nos comentários, mas afinal percebi que a minha resposta teria ocupado um espaço despropositado. Então respondo aqui.

Também eu não sei se existe um arca para a cultura. Mas a minha pergunta é: seria justo?

O mundo é um lugar maravilhoso e algumas das coisas boas foram feitas pelo Homem. Mas qual o custo?

Vivemos numa sociedade à beira duma guerra: que será apenas uma entre as inúmeras guerras que a nossa espécie provocou.
Construímos armas letais que podem levar  ao desaparecimento da vida do planeta. E, não satisfeitos, enviámos estas armas também para o espaço.

Para construir e manter estas armas gastamos quantias inimagináveis de dinheiro: e, ao fazer isso, desviamos fundos que poderiam acabar com a fome e as doenças dos Países mais pobres.

Entretanto descobrimos a maneira de extinguir outras espécies, poluir os rios, os mares, o ar. Até a chuva é ácida. 

Criámos novas doenças e difundimos as que antigamente representavam mais uma excepção do que a regra. O câncer, por exemplo.

Após milhares de anos de "evolução" entregámos as nossas vidas a uma elite que tem um único objectivo: o dinheiro. Tudo o resto é secundário, incluídos nós.

Confiamos numa Ciência arrogante que destrói os que foram os alicerces da civilização ao longo de milénios. O resultado é que estamos cada vez mais afastados daquela que é a nossa verdadeira Mãe, a Natureza.

É importante, que o actual conhecimento humano, não se perca mais uma vez na noite dos tempos, pois poderá ser bastante útil para o Homem de amanhã.

Pois, é mesmo este o problema. Perante o nosso desgraçado estado, o que podemos apresentar como resultados? Uma Gioconda de Leonardo? Um David de Donatello? Ou uma poesia de Garcia Lorca?
Será isso suficiente para compensar o que de negativo conseguimos fazer?

O actual conhecimento. Quem deveria escolher isso? Quais obras incluir e quais não?

A Bíblia. Uma obra incontornável, com imenso valor histórico e espiritual. Mas em nome da qual foram cometidos tantos assassinatos ao confronto dos quais Hitler foi nada mais do que um aprendiz. O mesmo podemos dizer do Alcorão.

O Capital de Carl Marx. Uma excelente análise histórico-económica na época da publicação, também um livro incontornável. Mas um livro que teve como frutos dezenas de milhões de mortos em nome duma ideologia. O mesmo aconteceu com Riqueza das Nações de Adam Smith.

Imaginemos agora de fechar numa hipotética arca todas as melhores obras do intelecto humano.
Passam os milhares de anos e, após as Trevas, eis que a arca é descoberta.
Os nossos  descendentes levantam a tampa e ficam maravilhados com o sorriso enigmático da Gioconda. Poderão traduzir uma poesia de Lorca e ficar encantados. Ligarão um antigo computador e ficarão extasiados ao ler Informação Incorrecta (!), pois infelizmente Kafe Kultura terá sido apagado por engano (!!!).

Depois alguém começará a ler o Capital, enquanto outro fará o mesmo com Riqueza das Nações.
E as sementes da discórdia estarão plantadas outra vez.

Temos o direito de fazer isso? Temos o direito de preservar e passar para a posteridade os nossos erros?
Podemos supor que os nosso descendentes serão mais inteligentes do que nós de forma a evitar os erros já cometidos?
E porquê? Se assim fosse, nós deveríamos ser mais inteligentes do que os nossos antepassados, o que não parece ser verdade: temos mais conhecimentos, mas não mais inteligência.

Infelizmente não tenho uma resposta para as perguntas de Mário. Tenho dúvidas, o que não é muito.
Talvez uma sugestão. Em vez que preservar o nosso conhecimento, porque não enviar para a posteridade uma lista de coisas a não fazer?

Tipo:
1. Não façam guerras porque não levam para lado nenhum
2. Não poluam o planeta pois é o único que temos
3. Não permitam o empréstimo de dinheiro com juros
4. Respeitem os ciclos da Natureza
5. Não rezem a um Deus que permita injustiças
6. Não torçam pelo Sporting, melhor o Benfica
7. ...

Tal como afirmei: esta não é uma resposta e não é minha intenção contradizer o óptimo post de Kafe Kultura. São só dúvidas.

Ipse dixit.

Fonte: Kafe Kultura

2 comentários:

  1. Infelizmente não posso estar de acordo com as tuas palavras Max, tanto a Grécia como Roma deixaram-nos um importante legado cultural e civilizacional nos mais diversos campos, desde a Filosofia, à Geografia, à Farmácia, à Medicina, passando pela Biologia, o Teatro, o Direito, a Arquitectura e a Engenharia.
    Esse legado foi um empurrão decisivo para a Europa de Quinhentos, que tardava a libertar-se do obscurantismo religioso pregado pelo Cristianismo.
    Contudo, devemos à civilização árabe, tolerante e sem conflitos de autoridade com a ciência, a manutenção e recuperação de todo o saber de outra forma perdido em orgias de fé cristã, guardado em numerosas bibliotecas na forma de preciosos manuscritos gregos, traduções em árabe para além de livros da ciência árabe. Bibliotecas acessíveis a todos, vulgar cidadão, professor ou estudante. Cada cidade tinha a sua própria biblioteca onde todos podiam consultar os livros ou mesmo requisitá-los. A biblioteca de Córdoba, fundada em 965, constituiu a terceira biblioteca do mundo islâmico. E foi a semente para a recuperação da ciência proscrita e para o despertar da Europa das longas trevas intelectuais impostas pelo cristianismo.
    Os árabes tiveram pois um papel inestimável na história da ciência, já que traduziram, fielmente e sem interpolações, os clássicos gregos (Apolónio, Arquimedes, Euclides, Pitágoras, Ptolomeu e outros). Estes clássicos estariam perdidos sem os árabes, não só devido ao encerramento da escola de Atenas, último reduto do paganismo, pelo imperador romano do Oriente Justiniano (483-565) cujo lema era «Um Estado, uma Lei, uma Igreja», como também à posterior destruição das obras consideradas heréticas de alguns destes pensadores.
    Eventualmente tudo seria diferente se Roma não tivesse caído na Decadência.
    Este mundo estaria muito diferente para melhor, desde que nos libertássemos da nossa tendência auto-destrutiva e suicida e provavelmente a esta hora estaríamos a conquistar os mundos do nosso Sistema Solar. E provavelmente teríamos outra capacidade de resposta como espécie face a 2012.
    Tal como Roma, caminhamos para a Decadência e os sinais estão todos aí, em vez duma cultura de Trabalho e de Criatividade, favorecemos a ociosidade e a mediocridade, sucumbimos ao Dinheiro e ao Materialismo.
    Os Romanos passaram pelo mesmo, com pão, jogos e circo foram incapazes de se defender dos Bárbaros que estavam às portas do Império.
    Aonde eu quero chegar é muito mais longe imaginemos uma simples catástrofe global provocada pelo Sol - tempestades solares, projecção de massa coronal em excesso, alterações no campo magnético terrestre, etc.
    Poderemos imaginar o que se seguirá a um tal evento, imaginemos que ficamos por exemplo sem electricidade durante um ano.
    Poderás imaginar as consequências ao final duma semana?
    Seguir-se-ão por certo o caos, a fome e a guerra.
    Por certo Marte, levará milhões de almas para o outro mundo.
    Para não falarmos de todas as infra-estruturas destruídas, tais como por exemplo Hospitais e Telecomunicações…
    Já pensastes o que aconteceria sem uma rede de frio e sem transportes o que acontecerá a seguir?
    O que eu queria dizer era que o melhor que nós temos do nosso conhecimento por certo que será útil aos sobreviventes para não terem de partir novamente do zero quase absoluto!
    Situação que não está documentada, mas que aconteceu por certo à 12.000 anos atrás…

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  2. Olá Mário!

    Respondo no teu blog!

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