07 outubro 2010

Como anjos da guarda

As grandes instituições não se cansam de pensar em nós.
E isso assusta.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) afirma hoje que baixar as reformas não é uma má ideia. Mas, acrescenta, melhor ainda seria aumentar a idade da reforma.

Síntese: para o FMI o ideal seria baixar as reformas e aumentar a idade para aposentar-se. Mas ainda não conseguiram encontrar a coragem para apresentar as duas medidas em conjunto. Por isso, tendo de escolher, melhor fazer subir a idade.

Afirma o relatório:
Um aumento de dois anos na idade legal da reforma será suficiente para estabilizar as despesas com as reformas expressas em parte do PIB, ao seu nível 2010, nas duas próximas décadas
Dois anos? Não será pouco?
Não, não é preciso mais, diz o FMI que explica:
Este aumento é mais ou menos o equivalente a uma redução das prestações em 15% e produz efeitos orçamentais semelhantes a um aumento de dois pontos percentuais nas contribuições
Com certeza.



Este, meus senhores, é o FMI.
Cujo relatório não explica:
  1. qual o custo para os desempregados que desta forma terão ainda menos possibilidades de encontrar um trabalho (pois quem já trabalha ocupará o seu lugar ao longo de mais dois anos)
  2. quais os custos das empresas, que terão de manter no activo trabalhadores que, com 67 anos, não podem ter a mesma produtividade de jovens
  3. quais os custos da Segurança Social, pois o aumento dos acidentes de trabalho será fisiológico
O relatório, como afirmado, não contempla estas dúvidas: mas podemos avançar com as que parecem ser as respostas implícitas.
  1. os desempregados já estão habituados a não trabalhar, nem irão notar a diferença
  2. podem sempre pôr os mais velhos a desenvolver funções mais simples: limpeza das casas de banho, do estabelecimento, etc.
  3. Segurança Social? Vocês ainda têm uma Segurança Social???
Infelizmente o FMI não é o único a pensar em nós. A União Europeia também está a esforçar-se para complicar a vida dos próprio cidadãos. Com um certo sucesso, temos de reconhecer.

Agora Bruxelas pretende fixar uma nova taxa.


 A União e as mudanças climáticas
Notícia de hoje:
A Comissão Europeia pretende fixar uma taxa sobre as actividades financeiras que incidia nos lucros e nas remunerações das instituições.

A criação de um imposto sobre as actividades financeiras (IAF) foi hoje proposta, em Bruxelas, em simultâneo com o apoio à fixação de outra taxa sobre as operações financeiras (IOF), que, no entender da Comissão Europeia, poderia ajudar a financiar a resposta aos “grandes desafios mundiais, como o desenvolvimento ou as mudanças climáticas”.
Desenvolvimento? Mudanças climáticas? Eheheheheheh...
Na opinião do executivo comunitário, o IOF tributaria cada operação com base no seu valor, produzindo receitas substanciais.

A Comissão considera, em comunicado de imprensa, que um imposto desta natureza “bem implementado e aplicado internacionalmente poderia constituir uma solução interessante para gerar os fundos necessários ao financiamento de importantes objectivos políticos”.
"Importantes objectivos políticos"? Ah, pois: o desenvolvimento, o clima. Com certeza.
Bruxelas defende que “há boas razões” para a introdução dos impostos que agora propõe.
Disso não temos dúvidas.
Em primeiro lugar, o sector financeiro foi um dos principais responsáveis pela crise financeira, tendo recebido substancial apoio estatal nos últimos anos.

“Deve pois agora contribuir de forma adequada para os custos da reconstrução das economias europeias e do relançamento das finanças públicas”, sublinha o executivo europeu.

Em segundo lugar, a introdução de uma taxa bancária corretora poderia completar as medidas reguladoras (incluindo a taxa bancária e o fundo de resolução) concebidas para reforçar a eficiência dos mercados financeiros e reduzir a sua volatilidade.

Por fim, uma vez que o sector financeiro beneficia de isenção de IVA na UE, um imposto desta natureza garantiria que este sector não está a ser subtributado em relação aos outros.

“Um novo imposto poderia ajudar a garantir que o sector financeiro contribui de forma mais justa e mais substancial para as finanças públicas, proporcionando fontes de receitas adicionais e propiciando uma maior estabilidade e eficiência do sector”, sustenta Bruxelas.
Digam a verdade: não ficaram comovidos? "Reforçar a eficiência", "mais justa", "mais substancial", para não falar do "desenvolvimento" ou das "mudanças climáticas".

As Mentes Pensantes de Bruxelas afinal têm um coração. E é graças a isso que irão taxar os malvados bancos.

Ou se calhar não.

Dia 1 de Outubro, fala o presidente da Caixa Geral de Depósitos (entidade portuguesa) acerca dum imposto que o governo de Lisboa quer introduzir nas contas dos pobres bancos:
É evidente que os custos têm de ser repercutidos. Neste momento, estamos com uma taxa de juro sobre a dívida pública muito elevada e isso é uma referência, pelo que as condições de 'funding' [obter fundos] sobre as instituições estão a ser fortemente penalizadas, por isso os custos terão que ser repercutidos
É evidente. Pois.

Agora, com um pequeno esforço vamos imaginar este discurso nas bocas dos vários presidentes de instituições bancárias europeias.

Resultado?
O resultado é o seguinte: a União Europeia está a criar um novo imposto que será pago indirectamente pelos cidadãos. Bruxelas salva a cara ("vamos taxar os bancos, os malandros!") e fica com a caixa ("epá, o desenvolvimento, o clima, sabem como é..").

Ou temos que pensar que ninguém entre as Mentes Pensantes tenha previsto que os bancos iriam "descarregar" a nova taxa nas contas dos clientes?

Observem o comunicado da UE e reparem: o que falta? Falta a referência a formas de controle implementadas pela UE sobre os bancos, para ficar certos que os mesmos não irão fazer pagar a nova taxa aos clientes.

Curioso, não é?

Ipse dixit.


Fonte: Expresso, Público, Diário de Notícias

4 comentários:

  1. Qualquer dia taxam-nos o ar que respiramos e fazem-nos sentir mal, por estarmos vivos!

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  2. NunoSav8.10.10

    @Mário Nunes

    Ainda não te sentes mal por estares vivo? Alguém precisa de ir ver o filme do Al Gore!!! hehe

    Vai ser lindo quando estas medidas tomarem efeito e a inflação subir, aqueles com dividas aos bancos vão ser chupados e os restantes também mas menos violentamente.

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  3. Cada dia uma gota.

    As medidas de austeridade.
    A nova taxa da UE.
    As novas multas da UE (ainda não escrevi acerca disso).
    O anuncio de uma provável recessão.

    Devagar, conseguimos engolir tudo. E o nível de vida baixa.

    Há um plano atrás disso? Ou, simplesmente, estamos nas mãos de incapazes?

    Esta é a dúvida.

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  4. Isto é concertado, tudo concertado, tudo montado.
    Bem dirigido pela elite, tem-nos nas mãos.
    Depois segue-se a ditadura, emprego para poucos, guerra e extermínio para a maioria.
    Vale a pena reler Simon du Fleuve de Auclair, lá encontramos tudo...

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