29 outubro 2010

Da Democracia - Parte II

A Democracia é hoje vendida como uma necessidade.

As antigas ditaduras falharam: falar ainda de fascismo ou de comunismo é um anacronismo. Hoje em dia o controle pode ser efectuado com armas mais eficazes.

Com o fim de melhor dominar as massas, é preciso convence-las de ser livres, de poder decidir o próprio destino.
A farsa do voto democrático é simplesmente isto: formar uma espécie de governo, expressão da vontade popular, que possa implementar as decisões tomadas por outras forças além daquelas representadas no parlamento.

Hoje somos chamados a escolher entre duas posições aparentemente diferentes, eleger pessoas que afirmam representar "o novo" enquanto são perfeitamente integradas no sistema, muitas vezes há décadas.

As políticas que são realizadas são sempre as mesmas, funcionais aos grandes centros de poder financeiro, centros de poder que preferem aqueles movimentos que se apresentam como "progressistas": porque é evidente que certas medidas que afectam o cidadão são mais facilmente implementadas por aqueles que pretendem fazê-lo "em defesa das camadas mais desfavorecidas da sociedade".

Os governos de esquerda são, de facto, os que podem mais facilmente implementar os programas de "direita", como as mais recentes experiências em terras portuguesas mostram claramente.

A propaganda do "sagrado direito e dever de votar" fez o resto, e o sistema democrático provou ser o mais funcional para os objectivos das oligarcas, que continuam a governar imperturbáveis enquanto os "eleitores" estão demasiado ocupados a discutir se for melhor o partido verde ou o amarelo.

Mas, no fundo, palavras como esquerda e direita são chamarizes sem sentido.
Somos chamados a expressar uma preferência entre os dois "lados", mas não é uma verdadeira escolha.
Como preferem ser torturados? Com a electrocussão ou com um alicate?
Direita ou esquerda?

O importante é que as pessoas não possam reparar na operação, e fiquem assim calmas na convicção de manter o poder.

Como já realçámos no artigo O Pior Inimigo, este é um sistema genial.
Reprimir as vozes dissidentes afinal é contraproducente, muito melhor deixa-las desabafar na indiferença geral.

O actual sistema joga com os medos atávicos das pessoas.
E um em particular: o medo do desconhecido.

Afirma Henry Kissinger:
O que cada homem teme é o desconhecido. Quando essa situação ocorre, abdicamos voluntariamente dos nosso direitos individuais para garantir o bem-estar garantido pelo governo mundial
Sem um poder central, o que impediria aos homens de matar-se uns aos outros?

A segurança pessoal é a principal razão pela qual ao longo dos séculos os seres humanos aceitaram a autoridade.
É um dar para receber, os cidadãos oferecem algumas das suas liberdades em troca da "segurança".

Consideramos isto: numa sociedade sem um governo central, nem polícia, os homens realmente matariam os seus similares? O mundo ficaria transformado numa espécie de inferno?

Todos, alguns mais do que outros, tendemos a acreditar nisso, mas esta não pode ser apenas propaganda, espalhada pelos governantes para justificar o próprio domínio?

A ideia que os poderes, ao longo de milhares de anos, têm difundido é que os homens são cruéis animais selvagens quando deixados livres; e por isso é necessário um governo autoritário, que proteja os próprios súbditos (tal como Hobbes ensina).

A ideia básica é "o Homem não é capaz de ser livre."

Os resultados:
  • Aqueles que assumiram a tarefa de "domar" os homens (as "bestas selvagens") foram os maiores criminosos da história, os promotores de todas as guerras e de todos os genocídios.
  • Ao alimentar esta teoria e ao dar os piores exemplos, têm aproximado os homens a esse ideal (negativo) que eles próprios tinham criado.
Fomos vítimas da propaganda ao longo dos tempos?

É esta uma degeneração do sistema democrático?

Depende do ponto de vista. Na óptica da classe dominante a resposta é "não". a democracia esta a funcionar nos melhores dos modos.

Será este o inevitável desfecho de qualquer regime democrático?

Provavelmente sim. A democracia favorece os políticos, os burocratas, os conciliadores. Numa palavra: os medíocres. As pessoas com fortes convicções são muitas vezes vistos como fanáticos, extremistas, e a tendência é de uniformizar as várias componentes da sociedade democrática.

Mas permanece uma pergunta fundamental: pode existir uma alternativa?

5 comentários:

  1. NunoSav29.10.10

    "Mas permanece uma pergunta fundamental: pode existir uma alternativa? "

    Eu perguntaria antes se existe esperança.

    Ler o post fez-me lembrar de todas as vezes que eu falei com amigos, família e conhecidos sobre o que se passa hoje, o que possivelmente se irá passar (economicamente não antevejo grandes surpresas, noutras áreas não dá para ter tanta certeza) e, na minha opinião, a(s) causa(s) do(s) problema(s).

    Como é óbvio para os leitores deste blog fui ridicularizado, principalmente no que toca a previsões do que está para vir, sempre fundamentado com o rumo a que a politica seguida presentemente nos leva (ou seja causas).

    Como Arthur Schopenhauer disse "All truth passes through three stages. First, it is ridiculed. Second, it is violently opposed. Third, it is accepted as being self-evident.".

    Tendo assistido às 3 fases pessoalmente é o que a mim me faz continuar a trazer tópicos de conversa quando saiu, podem não concordar e rir do que eu digo mas a "semente é plantada" dando-me alguma esperança no que a gente faz quando discutimos estes tópicos!

    O que é que isto tudo tem a ver com o post? Bem.. vivemos em tempos de grande tribulação (sem querer insinuar a vinda de Jesus Cristo :P) e com os desafios que nos esperam a todos no mundo grande oportunidade se apresenta!

    Abraço.

    ResponderEliminar
  2. Boa noite,


    Gostei do seu texto e decidi deixar a minha opinião.

    A segurança é de facto a principal razão, pela qual os seres humanos foram aceitando a autoridade ao longo dos séculos. E porque não o fariam? A segurança é o elemento basilar do nosso desenvolvimento. Penso porém que agora lidamos com mais do que a satisfação de uma necessidade. Um mundo organizado proporciona a satisfação das necessidades colectivas.

    O Homem é capaz de ser livre. O ente colectivo que é a sociedade é que não consegue funcionar sem estar apoiada numa estrutura. Não se trata de domar os Homens, trata-se de organizá-los em torno do bem comum, com vista o seu próprio desenvolvimento. A polícia, os bancos, o comércio, a educação, os hospitais, o saneamento básico, etc., não existiriam sem uma estrutura, ou sem estabilidade. O ritmo de desenvolvimento seria com certeza afectado.

    O Estado proporciona essa estrutura. Eis que surge o poder. Deverá estar onde? Com quem? Estas perguntas só por si são geradoras de conflitos. O que acontece à estabilidade que tanto prezamos quando o conflito a ameaça? Daí a Democracia. O poder está no povo (discutível eu sei), e a democracia é a gestão de conflitos. O conflito armado é agora o combate político e as eleições o período revolucionário. O povo decide sem golpes de Estado.

    Outra questão será o funcionamento da nossa democracia. No nosso caso vivemos numa “partidocracia” na qual a obtenção de votos é o motor da maior parte da acção política. Penso que as ideologias que sustentam a esquerda e a direita diluem-se perante a realidade dos factos. O factor relevante é quem gera os factos que suscitam relevância política. Desta perspectiva o preocupante é estarmos a perder independência em relação a outros centros de poder. Note-se que nada disto justifica o caminho seguido pelo governo no OE2011, nem fá-lo o único disponível. Também muito se pode dizer sobre a qualidade dos nossos políticos e dos nossos partidos mas isso seria outra conversa.

    Cumprimentos,

    ResponderEliminar
  3. Caro Nuno,

    acho que a situação que descreves é bem nota aos leitores deste como de outros blogs.
    De facto, é difícil poder tratar destes assuntos sem ter como resposta um olhar que podemos traduzir com "Coitado...". É normal.

    É normal porque não é normal pôr em discussão as bases da sociedade onde vivemos.
    Podemos criticar a classe política ("São todos iguais", "gatunos!"), mas ai a crítica tem que parar, não sendo admissível passar para o nível sucessivo.

    E o nível sucessivo é ter a coragem de olhar além de óbvio que nós rodeia.

    Existe neste sentido uma espécie de tabu, o que demonstra até a que ponto o condicionamento funciona.

    O Estado democrático é visto como a máxima conquista e não pode ser posto em causa; por isso é fácil reconhecer que políticos possam explorar o sistema para fins pessoais, mas é difícil admitir que o mesmo sistema possa falhar ou até ser utilizado para objectivos desconhecidos.

    Mas concordo contigo, as sementes existem.
    Acho ser natural: existem limites além dos quais qualquer organismo reage à procura dum novo equilíbrio. Talvez demore, mas é um processo que não pode ser parado.

    ResponderEliminar
  4. Caro Miguel,

    em primeiro lugar muito obrigado por participar na discussão.

    Ao reler o que escrevi neste último post, tenho de reconhecer: parece quase apontar para uma solução anárquica, sendo maioritariamente uma crítica ao conceito de "Estado".

    Mas eu não sou anárquico.
    Não ponho em discussão a ideia de Estado qual organização que regulamente a vida social dos homens. As vantagens compensam, e de que maneira, as concessões individuais.

    E acrescento: não consigo indicar um modelo que possa actualmente substituir o democrático.

    Todavia acho a Democracia ter em si as razões da própria degeneração.

    Miguel fala, e bem, em "partitocracia".
    Mas aqui surge a minha dúvida: dada a difusão deste modelo degenerado, será a partitocracia o natural desfecho de qualquer democracia?

    A minha resposta é "sim", por isso a procura (sem êxito) dum novo modelo.

    Cada vez estou mais convencido que o modelo democrático funcione em escala reduzida: numa pequena comunidade (muito pequena) encontra na democracia uma eficaz forma de solucionar os próprios conflitos.
    Mas numa escala maior surgem maiores problemas.

    Disso vou tratar em "Da Democracia - Parte III", fica a promessa.

    Abraço!

    ResponderEliminar
  5. Boas tardes,

    Deixo só duas notas.

    A difusão da "partidocracia" é um facto, mas nem sempre uma desilusão. Sem sair da Europa podemos encontrar exemplos de partidos que servem o propósito nacional quando é preciso sem desvirtuar a democracia. Estão mais abertos ao consenso democraticamente legitimado (em principio tendo em conta o número de votos de cada um), e menos preocupados com tricas partidárias e retóricas balofas. De qualquer maneira mantenho-me optimista que dentro do modelo democrático seja possível atingir um equilíbrio saudável entre os partidos e independentes. Ou mesmo uma maior e mais assertiva participação da sociedade civil no processo de tomada de decisão em qualquer uma das suas etapas.


    A diminuição da escala permite o uso de uma democracia directa, que para todos os efeitos é a forma ideal de democracia. É a grande escala que faz com que seja necessária a representação. A partir daqui surgem os maiores problemas. Infelizmente um modelo de democracia directa em grande escala ainda não é viável. Talvez no futuro com as novas tecnologias, com uma população mais informada, e mecanismos adequados venha a ser uma realidade.

    Fico a aguardar pela “parte III”

    Cumprimentos,

    ResponderEliminar

Printfriendly

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...