18 outubro 2010

Lágrimas ibéricas

Foi apresentado o polémico Orçamento de Estado português. Um documento divertido, acerca do qual voltaremos a falar.

No entanto podemos observar o destino dos vizinhos Espanhóis, também afectados por pesadas medidas de austeridade.
Antes um discreto artigo de Ignacio Ramonet, editor de "Le Monde Diplomatique en Español", e a seguir algumas breves reflexões.
Espanha às cordas

Os dias de paz social são apenas uma memória. A greve geral de 29 de Setembro, contra a reforma do trabalho do governo Zapatero, marca o início do que promete ser um período de agitação social.

O governo decidiu apresentar ao Congresso, ainda este ano, um projecto de lei que iria aumentar a idade mínima para a reforma de 65 para 67 anos, e aumentaria também o número mínimo dos anos de contribuições: já não 15 mas 20.



Juntamente com a reforma do trabalho, e o decreto do passado Maio que reduziu os salários dos funcionários públicos, congelou pensões e cortou os gastos públicos, o presente projecto de lei tem provocado a reacção dos trabalhadores organizados e duma parte importante dos trabalhadores empregados.

Zapatero disse que a decisão é irrevogável: "O dia depois da greve geral, continuaremos a seguir a mesma direcção", disse em Tóquio, no dia 01 de Setembro. Isso levou os sindicatos a planear novos protestos.

Com a própria intransigência, o líder espanhol está a seguir os passos dos outros governos europeus: em França, apesar dos protestos de massa contra a recente reforma das pensões, o presidente Sarkozy reiterou que não vai mudar a lei; na Grécia, seis greves gerais contra as medidas de austeridade não tiveram efeito sobre o primeiro-ministro Yorgos Papandreou.

Partindo do princípio de que, numa democracia, a política é do parlamento, não das ruas, esses líderes têm ignorado o descontentamento de segmentos significativos da população, forçada a participar em greves e protestos nas ruas para fazer ouvir as próprias vozes.

Mas a reacção dos líderes é um erro: eles pensam que a legitimidade eleitoral supera as outras formas de legitimidade, em particular a democracia social. Na verdade, a inflexibilidade só poderia alimentar o descontentamento, incentivando as pessoas a rejeitar qualquer fase de diálogo e escolher o choque frontal.

Desde Maio, desde o anúncio dum cruel plano de reforma, é crescente o desgosto duma grande percentagem da população espanhola.

Os quase 5 milhões de desempregados, trabalhadores precários, jovens desempregados, mulheres trabalhadoras, funcionários públicos de baixo escalão, e todas as famílias deles concordam que o governo está a sacrifica-los. 

Ao mesmo tempo, através do fundo de resgate para os bancos, o governo transferiu 90.000.000.000 € (isso mesmo: 90 biliões de Euros) para bancos e instituições de poupança: os mesmos responsáveis pela bolha imobiliária.

Não pensou em aumentar os impostos para os escalões com renda mais elevada, na introdução de impostos sobre os grandes ganhos, na redução dos custos da Defesa (que equivalem a 8 biliões de Euros por ano), da Igreja Católica (6 biliões) ou até da família real (pelo menos 9 milhões de Euros).

O que é repugnante para os cidadãos é a certeza do governo ter tomado medidas repressivas contra os trabalhadores, não por escolha própria, mas para atender às ordens da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional; e para satisfazer as pressões dos mercados financeiros que, com a ameaça de não investir em Espanha, exigiram salários mais baixos e padrões de vida reduzidos.

O próprio Zapatero afirmou, falando para um grupo de investidores japoneses:
 "Estamos a trabalhar em reformas que interessam os investidores internacionais" e repetiu aos gerentes dos maiores bancos comerciais e fundos de investimento dos EUA que as reformas visam "fazer apreciar aos mercados e investidores a minha determinação em tornar Espanha economicamente competitiva".

A reforma do trabalho não tem nada a ver com a redução do deficit ou a redução das despesas orçamentais, que são os requisitos básicos para os mercados financeiros. Mas como o governo não pode desvalorizar a moeda para estimular as exportações, decidiu diminuir os salários para aumentar a competitividade.

O pior é que estas medidas não têm qualquer garantia de sucesso. Os dados do emprego de Agosto mostram que 93,4% dos novos contratos são de natureza temporária. Em outras palavras, o mercado do trabalho continua a ser muito precário. A única diferença é que as empresas terão menos custos ao despedir os empregados.

Depois da crise dos anos 90, ocorreram três anos para que o desemprego regressasse aos níveis europeus, e isto num período de crescimento, quando a Espanha estava ainda a receber ajudas da UE. Hoje, com esta reforma e com o fraco crescimento que continuará ainda por muito tempo, o emprego na Espanha, de acordo com a economista americana Carmen Reinhart, não atingirá os níveis de 2007 antes de 2017.

Assim, perdido o apoio dos eleitores, este governo provavelmente irá perder o poder que acabará nas mãos da oposição conservadora e populista. No geral, é isso que acontece quando os partidos de esquerda esquecem os próprios valores, optando descaradamente por políticas de direita, como aconteceu na Alemanha, no Reino Unido e mais recentemente na Suécia.

E em Portugal também, podemos acrescentar agora.


Breves reflexões.

O bom Ignacio Ramonet tem razão em muitos aspectos mas, como muitas vezes acontece com os comentadores de esquerda, perde totalmente de vista a realidade económica na qual vivemos.

Que podemos não gostar, verdade, mas que foi aquela que votámos e escolhemos como nossa: porque não é possível ficar calados quando as coisas vão bem e queixar-se quando o vento muda de direcção.

No caso da Espanha (mas o discurso poderia ser o mesmo para os outro Países em crise): onde estava Ramonet quando Madrid recebia o dinheiro de Bruxelas?
Quando Espanha apresentava o maior crescimento do Velho Continente?
Quando as exportações voavam assim como faziam os ordenados, públicos e privados?

Naquela precisa altura já estavam a ser implementadas as bases da sucessiva queda, com uma politica económica suicida, bancos fora de controle, investimentos reais em áreas fictícias.

O que está a fazer Zapatero agora, ao atrair os investimentos estrangeiros, é a tentativa de extrair sangue a partir duma beterraba. Mas não é diferente do que Zapatero e os seus antecessores tinham feito antes: a única diferença é que antes a beterraba tinha o nome de União Europeia e o sangue era criado a partir do nada.

Como pensa a esquerda de justificar o assustador (no sentido positivo) crescimento espanhol dos anos passados, os serviços públicos, os investimentos estatais, sem ter em conta o dinheiro sem valor introduzido pela União? E o dinheiro "fácil" dos bancos, qual era a sua origem?

Onde vivia Ramonet com os seus colegas da esquerda na altura?

Há uma frase no artigo que é a chave para perceber o que se passa:
o governo não pode desvalorizar a moeda para estimular as exportações 

Aqui está a explicação, não é preciso mais nada.

Mas não foi a esquerda que apoiou a entrada na UE de Espanha, assim como aconteceu nos outros Países também? Porque na altura ninguém parou para pensar nas terríveis consequências desta decisão? Porque ninguém explicou o verdadeiro sentido duma escolha como esta?

Os únicos contrários, verdade seja dita, foram os Comunistas. Mas é verdade também que estes são contrários a tudo.

A grande culpa de Zapatero e dos seus colegas europeus é a de fazer recair os custos da crise nos ombros dos mais fragilizados, isso sim.
Mas um governo que desafie os bancos e os grandes grupos económicos deve ainda nascer.

Ipse dixit.


Fonte: Global Research

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