21 outubro 2010

Nato: um futuro difícil

No próximo dia 20 de Novembro, em Lisboa, haverá um encontro crucial para a Aliança Atlântica: 28 chefes de Estado irão reunir-se para aprovar o novo Strategic Concept, o terceiro desde o fim da Guerra Fria.

Na capital Português a tentativa será a duma redefinição da identidade duma aliança que tem sido capaz de navegar na fase geopolítica marcada por tensões entre o Oriente e o Ocidente, mas que agora parece ter dificuldades.

Um sério "renascimento" da Nato não é uma opção tão realista. 

Uma questão de idade

A síntese da reunião em Lisboa, provavelmente, irá realçar as incompatibilidades entre as diferentes posições: dum lado as dos EUA e daqueles que afirmar que Washington tem de ditar os rumos da Aliança (Reino Unido, Holanda e Dinamarca), do outro as defendidas pelas principais potências da "velha Europa" (França e Alemanha) e, finalmente, a linha seguida pelo clube dos Países da "nova Europa", com posições decididamente anti-Rússia.



Claro, já houve divisões entre os Estados Unidos e a Europa Ocidental durante a Guerra Fria. No entanto, nunca até hoje tinha sido posta em causa a identidade da Aliança, tal como concebida em 1949. 

O espírito de aliança político-militar sobrevivida ao inimigo soviético poderia ser radicalmente alterada pelas dinâmicas exógenas, quais as tendências demográficas dos EUA e da Europa, capazes de afetar a médio e longo prazo as orientações estratégicas dos Países membros da Nato.

De fato, a população dos EUA até atingir quase  400 milhões em 2050 (em 2000 ultrapassou 283 milhões), com média de idade de 36,2 anos, enquanto a Europa vai viver uma tendência contrária, dado o gradual envelhecimento da população.

A população europeia, que hoje é de cerca de 728 milhões de pessoas, segundo estimativas da ONU em 2050 ficará abaixo dos 650 milhões, com uma idade média de 47,0 anos.

Isto só pode levar a uma redução na disponibilidade dos Países europeus para modernizar os próprios exércitos: com os custos crescentes do welfare necessário para atender às necessidades duma população envelhecida, não será possível dedicar recursos suficientes para as forças armadas. Uma tendência que deverá consolidar-se, dada também a baixa prioridade dada à defesa pelos governos do continente no que diz respeito à segurança interna.

Enquanto Washington decidiu aumentos substanciais nos gastos de defesa, criando o Departamento de Segurança Nacional após o 11 de setembro, o governo de Madrid, por exemplo, na sequência dos atentados de 2004 não só não quis envolver a Nato mas também aumentou o orçamento do Ministério do Interior, deixando inalterados os gastos militares (1,2% do Produto Interno Bruto).

Não é por acaso que, durante a preparação do novo Strategic Concept, há um óbvio interesse dos Europeus para preservar a liberdade de cortar os recursos para a defesa e, por outro lado, os EUA afirmam um compromisso mais firme na frente dos gastos na defesa


O Islão, a América Latina e a Ásia 

Ao contrário do que se poderia esperar, a pressão migratória sobre a Europa, que poderia compensar o declínio da população, só vai agravar o fosso com os EUA, com graves conseqüências para a manutenção da relação transatlântica: a entrar no Velho Continente são em maioria imigrantes do Oriente Médio, Norte da África e da Turquia e a  imigração muçulmana na Europa pode alterar a composição demográfica da sociedade, considerada as taxas de fecundidade de três vezes superiores dos não-muçulmanos.

A Nato na Europa
Por outro lado, os Estados Unidos irão absorver predominantemente imigrantes hispânicos e asiáticos, que em 2050 podem constituir 38% da população dos EUA (o que é impressionante quando comparado com o 4,1% da década dos anos '60).

Fácil, portanto, imaginar a diferente percepção das questões islâmicas e as consequências na coesão estratégica e política da comunidade euro-atlântica: a "velha Europa" tenderá a tratar cada vez mais da própria segurança interna e das ramificações do fenómeno do terrorismo, enquanto os Estados Unidos apostarão nos cenários da Ásia e da América Latina. A China representa já agora um temível adversário que desafia a supremacia americana no Pacífico Ocidental.

Isso explica porque a posição dos EUA é de orientar a Aliança cada vez mais em não-europeus teatros de operação não europeus de fontes não tradicionais de ameaça (como a cybersecurity).


E os Russos?

A percepção do risco dos novos membros da NATO, neste contexto, complicar ainda mais o quadro, definindo os contornos duma Europa que fica longe de estar unida.

O alargamento da NATO para os Países bálticos e as revoluções "coloridas" na Geórgia e na Ucrânia levaram a um reposicionamento geopolítico da Rússia e, por isso, a uma radical alteração estratégica dos Países da Europeia Central.

A intervenção de tropas de Moscovo na Geórgia, em Agosto de 2008, só aumentaram os temores e a desconfiança acerca das intenções russas para a região. Por isso muitos dos novos membros querem um compromisso concreto no teatro europeu, desenhado para colocá-los longe das ameaças mais convencional.
Uma posição em contraste com as aspirações de Washington, como vimos, e com as de alguns Países europeus, como Alemanha e Italia, que reforçaram os relacionamento com a Rússia.

Em substância: as tendências demográficas e a divisão política da Europa são susceptíveis de acelerar a marginalização da Aliança Atlântica. E o próximo encontro em Lisboa não parece estinado a solucionar estes problemas.



Fonte: Limes
Tradução e adaptação: Informação Incorrecta

3 comentários:

  1. NunoSav21.10.10

    Gostava muito de ir a Lisboa em Novembro, não me admiro que tenhamos uma segurança nas linhas do G20 em Toronto.

    Pode ser que os Tugas gravem tudo e espalhem na Internet para vermos a vergonha.

    Algo interessante é que o Obama vem a Portugal e vai ficar na embaixada, que de luxo não tem nada mas oferece boas condições de segurança. Como se tem falado muito da manipulação de futuros eventos para começar um novo conflito no Médio Oriente... Uma pessoa especula sempre. Se não me engano ele vai cá ficar uns dias adicionais a convite do Cavaco para visitar o país ou outra qualquer razão que eu não me lembro.

    A data da conferência certamente vem numa data interessante e por isso é que tenho tanta pena de não ir. É da maneira que não inauguro o meu cadastro! ^^

    Abraço.

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  2. Estas coisas causam sempre grandes transtornos: transito desviado, filas...e se houver manifestações é ainda pior. Mas enfim: é a Nato, é Obama.
    Se chegar também a esposa deste estamos feitos: em Espanha transformaram uma pequena aldeia numa espécie de Fort Alamo.

    Estas visitas nas províncias do Império são sempre uma chatice.

    Justo que o Presidente Cavaco tenha convidado Obama ao longo dalguns dias: poderá tratar das condições para a completa submissão de Portugal ao FMI, parece-me bem.

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  3. Sim...
    Dia 19 é dia de feriado em Lisboa.
    Dia 24 o dia da Greve Geral em que todos os caminhos vão dar à capital vamos repetir 1383-1385 ou 1640?

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