14 outubro 2010

No nevoeiro de Pyongyang

Ao longo de anos, a Coreia do Norte manteve-se silenciosa e isolada do mundo: ninguém sabia nada sobre a vida política interna e apenas ocasionalmente Pyongyang mostrava sinais de vida  ao testar alguns mísseis, o que provocava polémica e preocupação dos vizinhos. 

Houve também duas explosões nucleares, em 2006 e 2009: quanto ao resto, nada passava a cortina do hermético sultanato da Coreia do Norte. 

No entanto, os líderes de Pyongyang estão agora no centro duma exposição mediática impressionante. Na sequência do naufrágio da corveta da Coreia do Sul, em Março de 2010, a Coreia do Norte apareceu com mais frequência nos jornais, chegando mesmo ao YouTube e Twitter. 

Os acontecimentos dos últimos dias parecem explicar a razão desta súbita "aceleração mediática", depois de anos de inacção e sigilo. 



Algumas semanas atrás houve o Congresso do Partido (um evento extraordinário, a anterior tinha ocorrido 30 anos atrás) em que a irmã de Kim Jong Il e o jovem Kim Jong-Un foram nomeados generais. E no passado 11 de Outubro, em ocasião das manifestações para comemorar os sessenta e cinco anos do partido, ao lado de Kim Jong-Il fez a sua aparição oficial Kim Jong-Un, filho e sucessor designado do "querido líder". 

Os rituais e a simbologia política em Pyongyang são pilares básicos do regime. O "culto da personalidade", que atingiu níveis grotescos, é uma poderosa ferramenta de propaganda para a nomenklatura norte-coreana.

Portanto, após a importante nomeação no topo do partido, o pequeno Kim Jong-Un (não sabe exactamente quantos anos tem) "tem" que "aparecer" na cena do poder num processo gradual, mas constante. Só desta forma, o doente e frágil Kim Jong Il pode tentar transferir o poder familiar para a terceira geração.

Inicialmente, foi difundida uma imagem actualizada de Kim Jong Un, sentado no centro duma fotografia oficial dos líderes do partido. A seguir, o pequeno Kim, sentado ao lado do pai e os líderes militares em Pyongyang, participou nas comemorações do partido num fato não militar mas com uma visível "pin" vermelho no casaco. ntão, sempre vestido de cor escura (enquanto Kim Jong-Il usa o verde militar) participou ao desfile militar que teve lugar na capital. 

Além disso, caso estranho, foi permitido que muitos correspondentes estrangeiros participassem, para garantir aos dois Kim uma cobertura mediática mundial. 

O significado de tudo isso? Em primeiro lugar, a saúde de Kim Jong-Il é frágil, e a sua magreza é cada vez mais evidente. 

Mesmo o perigo dum repentino colapso do líder é a razão para as aparições de Kim Jong-Un: a nomeação para o Congresso, a participação na festa e no desfile militar, são fases dum único cursus honorum que deve legitimar o novo herdeiro. 

Por enquanto, parece que o "querido líder" está a conseguir o próprio objectivo: nenhuma voz negativa levantada contra a terceira geração dos Kim.  Mas as elites de Pyongyang sabem de estar sob os olhos do mundo, e entendem que qualquer passo falso pode arruinar o demasiado perfeito "rito de passagem."


Uma figura misteriosa

Mas quem é Kim-Jong-Un?

A figura do jovem Kim é um mistério até para os crípticos padrões norte-coreanos, perfeita metáfora enigmática do halo de mistério sombrio em torno do regime cruel. É suposto Jong-Un estar quase na casa dos trinta, estudou na Suíça e é fluente em Inglês, Francês e Alemão.
 
Parece ter começado a preparar a sucessão durante o ano passado, quando Jang Song-thaek, marido da sua irmã mais nova, foi nomeado vice-director da poderosa Comissão de Defesa Nacional, com a tarefa, ao que parece, de transportar o jovem cunhado para o poder. Durante este período, o herdeiro começou a "treinar" para o novo papel de liderança orientando a omnipresente polícia secreta e ao estudar os relatos da intelligence, antes destinados exclusivamente o pai. 

Mas há dúvidas acerca da sua estatura intelectual e política e, finalmente, das suas habilidades de liderança. O seu conhecimento do aparelho do poder norte-coreano é muito menor do que o do pai, primeiro sucessor de Kim il Sung (pai do País, além do actual líder), que tinha gasto mais de 20 anos nas fileiras do partido e no establishment nacional. 

Alguns, como o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, acredita que foi o inexperiente Jong-Un a ordenar o naufrágio, em Março, da corveta Cheonan (da Coreia do Sul): um gesto que desencadeou precipitou uma das crises mais graves nos últimos anos entre as duas Coreia. Outros acreditam que o jovem, também por causa da idade, podem não ter a força do carácter e das conexões políticas internas necessárias para acionar o sistema após o desaparecimento de seu pai.

Mas são só suposições. E não são compartilhadas por todos, pois alguns acreditam que o jovem Jong-un pode já ter uma posição bastante forte. 

A mesma opinião parece ter a China, que tem dado o consentimento à sucessão desde Agosto passado, durante uma curta visita de Kim Jong-Il em Pequim. No entanto, a transição é muito delicada e as incertezas são muito maiores do que certezas.

Fontes: Lime

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