27 outubro 2010

O pior inimigo

It doesn't matter if we all die
Ambition in the back of a black car
In a high building there is so much to do
Going home time, a story on the radio
(The Cure, One Hundred Years)

Entre os bons e idos jornalistas deste cada vez mais Velho Continente, Indro Montanelli ocupa um dos melhores lugares. 
Ele costumava ter uma foto de Stalin na própria mesa de trabalho. Quando perguntado acerca do porquê, ele respondia que sentia falta dos tempos em que havia um homem contra quem lutar. 



Independentemente da opinião sobre a figura e as ideias do ditador russo, as palavras do jornalista escondiam uma grande verdade.
O século XX foi o século do implacável e opressor totalitarismo, regimes que basearam a hegemonia no uso do terror. 
Após a Segunda Guerra Mundial, a Europa foi dividida em dois blocos e, depois da queda do Muro de Berlim, as democracias triunfaram no continente.

Hoje, o poder já não precisa de sangue e repressão para sustentar-se.

Os métodos do século XX pertencem ao passado, os sistemas actuais mostram um rosto humano, uma face democrática.
No século XXI, as potências mais desenvolvidas deixaram o bastão para apostar tudo em tornar os cidadãos estúpidos.
E funciona. 

Não é um ideia original: Aldous Huxley, no seu livro Brave New World (Admirável Mundo Novo, como o nome do blog de Flávio Conceição, não acaso) já havia descrito com perfeição o mecanismo. 

O cidadão agora vive sob um feitiço. 
Ocupado com a pantomima democrática, desempenhada por marionetas sem dignidade, está convencido de que ele, com o seu voto, é o arquitecto do seu destino.

Admitimos: um golpe de génio. Desta forma a culpa das condições nas quais o cidadão vive recaem sobre a vítima. Os males da sociedade, as escolhas insensatas dos bonecos políticos, tudo isso aparece como responsabilidade de quem assim escolheu, com o próprio voto.
O cidadão, além de ser explorado e oprimido, está convencido de que a causa do próprio estado é ele mesmo: com a escolha democrática criou esta sociedade, na qual é obrigado a viver. 

Sem dúvida uma jogada extremamente inteligente. 
No século XXI, mais do que nunca, o verdadeiro poder está escondido. Está escondido porque é sempre visível. Parece um paradoxo, mas na realidade é o disfarce perfeito.

O poder está à esquina da nossa rua, e tem o nome de "banco".
Está nos supermercados, e tem o nome de "produto".
Está nas nossas casas e tem o nome de "televisão".
Está também no parlamento, tem o nome de "político", mas não é esta a parte mais importante.

O poder está entre nós e não conseguimos vê-lo. 

A verdade é que estamos paralisados: sentimos o mau cheiro, mas não podemos identificar de onde vem. Temos a ilusão de ser livres, mas inconscientemente percebemos a nossa escravidão: nos nossos trabalhos precários e mal pagos, nas contas para pagar, cada vez que enchemos o depósito, ao pagar as taxas ou com o simples facto de ler um jornal.
Estamos presos, mas numa cadeia transparente e com correntes invisíveis. E, aparentemente, nem temos alternativas: como pode o leão nascido no zoo imaginar a vastidão das savanas africanas?
 
Na Alemanha de Hitler ou na Rússia de Stalin, o homem livre tinha uma última chance de salvar a própria dignidade, ao lutar contra o regime até o derradeiro sacrifício. E nas memorias dos sobreviventes ficava o acto, o ideal, o ensino.


Nós nem isso podemos fazer e desaparecemos lentamente. 
Uma morte que acontece devagar, feita de milhares de inúteis diversões: o iPod, a Play Station, o Turbo Diesel Injecção Directa Common Rail, o telemóvel 3G. 
Uma morte cerebral antes, física apenas no fim.

O poder finalmente conseguiu o objectivo: encontrámos o nosso pior inimigo, e ele somos nós.

Não é altura para heróis.


Ipse dixit.

2 comentários:

  1. Max,
    Decretas novamente o Fim da História, amigo?
    Sempre há resistência, sempre há reação. Você é parte da resistência. Talvez um novo mundo demore a chegar, e, talvez, não a tempo de milhões de outros, como eu e você, possam desfrutá-lo.
    Bela peça de resistência.
    Abraços.

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  2. Fim da História?
    Não, apenas a fotografia duma triste fase de transição.
    Nada é definitivo: talvez seja tarde para nós e para a próxima geração, mas cedo ou tarde vai haver mais luz (o que não é difícil).
    É por isso que temos de trabalhar.

    Um dia, alguns estudantes poderão ler do nosso tempo e saber que num mundo em plena decadência havia, apesar de tudo, pessoas que trabalhavam para ultrapassar esta fase e alcançar algo de melhor. Isso é o nosso dever.

    Um abraço!

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