26 outubro 2010

O salto

Passei a minha adolescência sem o telemóvel e não lembro quando enviei o meu primeiro sms, mas com certeza tinha mais de 18 anos.

Entre os meus pares, na altura, fui entre os últimos a adquirir o "precioso" aparelho: a idéia de ser rastreado em cada momento do dia parecia perturbadora, além de incómoda. 

Para aqueles que nasceram na segunda metade da década de 80, pode parecer difícil de conceber, mas ainda 10-12 anos atrás havia muitas pessoas poucos entusiastas com esta nova tecnologia.
Afinal sempre tinha sido possível viver sem telemóveis, e não era nada impossível imaginar a vida sem eles.


Sabemos, no entanto, que desde que o mundo existe as diferentes gerações colidem, e os costumes dos jovens são vistos com os olhos da crítica pela maioria dos adultos: acontece hoje assim como acontecia durante o Império Romano.

A frase "no meu tempo" ecoa no discurso dos "idosos" desde que nasceu a Humanidade, acompanhada pelo tédio dos adolescentes, fartos de ouvir sempre o mesmo sermão.
No entanto, a impressão é de que no nosso tempo, os saltos entre gerações sejam muito mais pronunciados do que nas gerações de qualquer momento no passado.
Na minha experiência pessoal, semelhante à de muitas outras pessoas com a mesma idade, este "salto" teve contornos bem definidos.

Enquanto criança, costumava passar as tardes jogando futebol ou "policias e ladrões" nas ruas do bairro, e todas as noites voltava para casa transpirado e sujo, especialmente no outono e no inverno, quando as ruas estavam cheias de poças.

Na altura a oferta televisiva era reduzida, poucos canais, que transmitiam programas para crianças só em determinadas faixas horárias.

Os jogos da minha infância, portanto, não eram muito diferentes dos do meu pai ou dos meus avós.
E,ao voltar atrás no tempo, é sempre possível encontrar crianças que brincam e correm um atrás do outro ao ar livre, mais ou menos sujos de terra e lama.


Acho que podemos dizer sem exageração que a minha geração foi uma das últimas (se calhar a penúltima), no mundo ocidental, a passar tanto tempo ao ar livre.

E neste caso não é apenas para realçar os diferentes hábitos duma geração e das seguintes: o que foi perdido é uma tradição compartilhada pelas crianças desde a noite dos tempos.
Televisão e vídeo-jogos, no processo de formação do mundo das crianças, realmente produziram uma ruptura com o que foi a experiência das décadas, dos séculos, dos milênios anteriores.

Claro, não estamos aqui para fazer um discurso nostálgico sobre os bons velhos tempos.
É útil, pelo contrário, tentar refletir acerca da evolução que podem ter mudanças tão repentinas.
De facto, estamos realmente a viver tempos exponenciais , e não é fácil de prever as tendências futuras dos processos em jogo.

E o universo da Internet é emblemático nesse sentido.
Os sites online aumentaram desde milhares para milhões em poucos anos, e de milhões para biliões num período ainda mais curto.
A informação disponível multiplica-se com um ritmo que até rende impossível estudar a extensão deste desenvolvimento, uma vez que cada inquérito já está ultrapassado quando concluído.

E isso é realmente algo que nunca havia ocorrido em épocas anteriores.
É um fluxo constante, ininterrupto; é como estar a cavalgar uma hipérbole. E fazer previsões é cada vez mais difícil. 
Vivemos em tempos assustadores mas interessantes, de facto.
Ipse dixit. 

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