28 outubro 2010

Saldos de Outono



Mas como?
Mora em Portugal e nem fala da crise orçamental? E das consequências?
Mas afinal que raio de blog é este?

Opá, meus senhores, em verdade não aconteceu nada de especial, ainda não foram tomadas decisões definitivas. Juro!
Mesmo assim, vamos fazer um breve resumo para quem não mora neste cantinho do mundo. E que os leitores não Portugueses tenham paciência, este artigo tratará de "crónica local".




O ponto da situação

José Sócrates, PS
Portugal está mal, muito mal mesmo.
Gasta um balúrdio e produz quase nada. E quando numa casa se gasta imenso e ganha-se pouco, então é evidente que algo não corre bem.
Num Estado é a mesma coisa: as receitas têm que compensar (no mínimo) as despesas. Caso contrário há problemas. Graves problemas.

Em Portugal a situação é exactamente esta.
Em verdade não é novidade nenhuma: já há muito tempo a maior parte dos Países ocidentais produz pouco (as indústrias fecharam ou foram transferidas para a Ásia), enquanto as despesas não diminuem ou até aumentam (população mais velha, mais reformas, mais cuidados de saúde, etc.).

Até hoje estes Países tinham sobrevivido com a dívida e com malabarismos económico-financeiros.
Só que, após o começo da crise, vender a própria dívida é cada vez mais difícil e os malabarismos dão mais nas vistas.

Foi assim que "explodiu" a Grécia. Sem a crise iniciada em 2008 não teria existido um "caso grego".
Mas as condições mudaram: Atenas foi vendida ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e agora é a vez de Portugal. E algo me diz que não será este o último caso.

Poucos hoje querem comprar a dívida de Portugal. Porquê?

Pedro Passos Coelho, PSD
Simples: eu faço um investimento (aquisição da dívida sob forma de Títulos de Estado) se tenho a razoável certeza de que o País ainda estará em pé na altura de obter o lucro. Mas se sei que o País hoje existe e amanhã pode estar falido ( e eu perco o que investi), o meu risco aumenta: então quero juros mais altos para compensar o risco acrescido.

Estes são conceitos com os quais os leitores de Informação Incorrecta já familiarizaram. E esta é a condição de Portugal: oferecer juros mais elevados para vender os próprios Títulos de Estado, isso é, para ter dinheiro.

Os mercados sabem que a economia deste País é uma piada e esperam que o próximo orçamento do Estado (o orçamento 2011) possa pôr um pouco de ordem.

O partido de governo, o Partido Socialista, apresentou um orçamento com cortes brutais. Falámos disso no post Situação grave mas não séria.
Como o governo não tem maioria, é obrigado a convencer os outros partidos em votar neste orçamento; principalmente um partido, o PSD (Partido Social Democrata), que é o segundo do País em ordem de importância.

Nos últimos dias representantes dos dois partidos reuniram-se e...nada. Não foi encontrado um acordo.

Orçamento chumbado?
Ainda não sabemos. O PSD tomará uma decisão na altura da votação no Parlamento.

Este é o resumo.


Ocasião: País bem posicionado, vista mar, preço reduzido

Tenho de admitir: fiquei surpreendido, pois estava à espera dum acordo, por várias razões.
Em primeiro lugar porque o orçamento é preciso, caso contrário vender a dívida portuguesa será impossível e o País ficará em breve sem dinheiro.
Depois porque o PSD, ao não viabilizar o orçamento, arrisca-se a ser visto como o "mau da fita", papel muito bem desenvolvido até agora pelo Partido Socialista.

Por isso agora é só esperar para o dia da votação e ver o que irá acontecer.

Uma boa análise de João Vieira Pereira, director-adjunto do Expresso, no Jornal de Economia da SIC:
  




No entanto, não podemos deixar de realçar que com esta não decisão os juros voltaram a subir. O que é um sério prejuízo para o País.

E gostaria também de sublinhar um título do Diário de Notícias de hoje:

Portugal a um passo do FMI com ou sem OE

Sem Orçamento aprovado, Portugal terá de pedir ajuda ao fundo de estabilização  do euro, abrindo a porta ao FMI. Silva Lopes e Nogueira Leite dizem que cenário é inevitável. E, mesmo com viabilização, a hipótese é provável em cenário de eleições antecipadas.
E mais: é interessante notar como também o Diário Económico (tradicionalmente perto do PSD) tenta convencer os Portugueses de como, afinal, o FMI é bom, muito bom: 
FMI "até é melhor" para o país 
"Caso não haja entendimento para a viabilização do Orçamento, não me assusta nada a vinda do FMI [Fundo Monetário Internacional], até é melhor para os consumidores e para o país que pagará taxas de juro mais baixas", disse o presidente do Fórum para a Competitividade

Intervenção do FMI em Portugal "não é o fim do mundo" 

"No caso de Portugal não conseguir assegurar a sustentabilidade orçamental e estiver em problemas, o FMI estará lá. Penso que é claro que o Governo preferia evitar essa intervenção, mas não é o fim do mundo se acontecer", disse hoje aos jornalistas o professor da Universidade de Harvard.
Seria para rir se a situação não fosse assim trágica. Mas enfim, os Grandes Saldos começaram.
E não é difícil descobrir afinal quem quer vender o País.


Culpados?

Os culpados para esta situação? Não vale a pena, acreditem. 
  • É culpado o Partido Socialista, que cometeu muitos erros imperdoáveis ao longo dos últimos anos e não só.
  • É culpado o Partido Social Democrata e o resto da oposição por não ter feito o que uma oposição séria deveria ter feito ao longo das passadas décadas.
  • É culpada a Europa, pois se agora está a subir o tom da voz, é verdade que até hoje tolerou situações como esta fechando não um olho mas escondendo directamente a cabeça debaixo da areia.
  • E, afinal, somos culpados todos nós que continuamos a ir às urnas para entregar os nosso destinos nas mãos de pessoas que nunca pensaram no bem estar dos nossos Países.

Ipse dixit.


Fonte: Diário de Notícias, Diário Económico

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