12 outubro 2010

Sunset Boulevard

O mundo lusófono focaliza a própria atenção nas próximas eleições presidências do Brasil. Dilma ou Serra?

Justo que assim seja. Mas não podemos esquecer que em Novembro terá lugar outro teste eleitoral importante: as mid-term election nos Estados Unidos.

A eleição de Barack Obama foi a apoteose da mudança, ou melhor, da esperada tal. 

Democrático após a traumática experiência de Bush Junior, primeiro presidente negro, muitas boas palavras, entre as quais as já históricas "Yes, We Can"; um prémio Nobel da Paz conferido por razões ainda não claras (qual paz? A do Afeganistão?) e, na frente interna, uma situação quase única: Barack Obama encontrou-se com uma maioria democrata na Câmara e no Senado, e poderia ter forçado o ritmo em muitas leis importantes, deixando os republicanos com a única arma da oposição, o chamado filibuster (obstrução).

Claro que ninguém esperava ver uma revolução dum dia para outro na América liberal: não é simples mudar o percurso da nação (ainda) mais poderosa do mundo.  

Mas algumas mudanças eram esperadas. 
Afinal Yes, We Can.

Infelizmente, Obama não fez mudanças.  

Na verdade, cometeu um erro de imediato após o início, na ilusão de ser capaz de convencer os Republicanos a trabalhar com ele em algumas reformas importantes, mais uma vez em troca de compromissos, embora sempre na perspectiva progressista.

Mas Washington não é Chicago, e o precário equilíbrio que havia trazido a súbita popularidade para o jovem senador de Illinois não funcionou na capital.


Tinha sido avisado: é perfeitamente inútil pensar em ter qualquer tipo de cooperação dos Republicanos, mesmo oferecendo-lhes benefícios substanciais durante as negociações. Eles preferem ver a morte de Sansão com os Filisteus ao invés de permitir que o adversário possa reivindicar qualquer sucesso a nível nacional.
Especialmente se Sansão tem a pele escura.


E de facto assim foi: Obama perdeu quase um ano antes de perceber que deveria fazer passar as próprias  ideias apenas com os votos democratas, assim como aconteceu com a reforma dos cuidados de saúde, que continua a ser o único verdadeiro sucesso de sua administração até à data.  


Reforma parcial e incompleta, na verdade; mas Obama conseguiu fazer o que nenhum outro presidente democrata tinha sido capaz de fazer, depois Delano Roosevelt. Jimmy Carter tinha falhado miseravelmente, com a ajuda maligna de Ted Kennedy, assim como faliram Bill e Hillary Clinton. John Kennedy não tinha tido tempo para tratar do assunto, enquanto Johnson, exausto pela luta por direitos civis, ele não tinha sequer tentado.

Todavia, para atingir este objectivo Obama teve de sacrificar toda a energia disponível na frente doméstica, negligenciando de modo imperdoável o plano económico e o mundo do trabalho, que terão agora de pagar um preço pesado. 


Os Estados Unidos ficaram sem dinheiro o que pode prejudicar até as recém introduzidas reformas na saúde, especialmente no caso em que o próximo presidente venha a ser um Republicano. 

A pouco mais de um mês das eleições intercalares, já é implícita uma vitória esmagadora dos Republicanos, que quase certamente vão retomar o controle da Câmara e, talvez, até mesmo do Senado. Mas seria suficiente, no entanto, só a Câmara para bloquear as oportunidade de ver o nascimento de qualquer legislação significativa nos próximos dois anos.


Em outras palavras, a presidência Barack Obama já acabou.  

Os próximos dois anos serão gastos numa clássica situação de "impasse": impasse mútua, entre o parlamento e presidência, devido a vetos. 

Entretanto Obama continuará a perder popularidade, que já nos últimos tempos atingiu os valores mais baixos da sua presidência. O que pode pôr em causa uma futura reeleição.
 
Assim, Barack Obama, que declarava poder criar uma "nova América" centrista e moderada, para substituir os anos sombrios dos neoconservadores, acabou com decepcionar todos.


Estão descontentes os Democratas moderados, que obtiveram muito pouco na vã tentativa de chegar a um acordo com os Republicanos. 

Estão insatisfeitos com os moderados Republicanos, que viram minimizar os poucos privilégios fiscais que ainda restavam da era de George W. Bush.
Estão insatisfeitos os Democratas liberais que sentem-se traídos por um presidente que mostrou ser "belicista" (mas não tinha ganho o Nobel da Paz?), e, é claro, estão mais que insatisfeitos os Republicanos de extrema direita, que agora fazem abertamente do racismo a nova bandeira eleitoral (de recente, Newt Gingrich, importante membro da direita republicana, falou da "cultura do Quénia" e de "espírito anti-colonialista" a propósito de Barack Obama).

Também não estará satisfeito Barack Obama, que acabou por trair, e provavelmente a decepcionar, o mesmo Barack Obama.


Ipse dixit.


Fonte: Luogo Comune

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