04 novembro 2010

A China e o censo

"O censo é no interesse de todos", "A harmonia é fundamental para uma sociedade harmoniosa", "A população é a prioridade do censo". Há meses cartazes coloridos em Pequim, e não apenas vermelhos como a da propaganda, lembram aos cidadãos o dever.
 
Mas a desconfiança e o cepticismo reina entre os chineses. O gigante da Ásia tem a necessidade de fotografar-se para conhecer-se, para dar provas de ser uma potência, para definir as políticas e as estratégias na óptica do desenvolvimento sustentável e para conter as tensões sociais.
 
O censo sexto da história da República Popular da China, segunda potência económica do mundo, começou no dia 1 de Novembro.



As minorias 
(clicar para ampliar)

 
Nas palavras da jovem Hui, é "uma inútil empresa colossal". Sentada num canto de Wangfujing, com nas
mãos o envelope da última loja na moda de Pequim e uma baguete para o jantar com os amigos, Hui resumiu o pensamento de muitos compatriotas.

"A população cresce com um ritmo rapidíssimo e o governo não conseguirá saber quantos somos na realidade. E depois há muitos problemas." A desconfiança de muitos Chineses será o principal obstáculo do exército de mais de seis milhões de pessoas contratadas para lidar com o Império do Meio, batendo de porta em porta.

1 bilião e 334 milhões de pessoas. Por enquanto. 
 
Ran garante que não vai abrir aos "desconhecidos". E a senhora Mu fala de "privacy".

Desde o último censo, que remonta a dez anos atrás, os Chineses estão mais conscientes dos próprios direitos, da dinâmica interna, da possibilidade de retaliação. 
E do facto que a operação poderia ser uma nova ferramenta para aumentar o controle sobre a população.

Do alto de um dos arranha-céus de Xangai, o Sr. Feng observa a multidão de Chineses e diz estar convencido de que em qualquer caso, "o governo nunca vai deixar saber o verdadeiro resultado do censo."

Pelo contrário, ajeitará os dados. O censo é estratégico também porque o futuro da China depende do XII Plano Quinquenal e das suas directrizes para o desenvolvimento económico e social entre 2011 e 2015.

Em 1949, 542 milhões de pessoas viviam na China. Quatro anos mais tarde, o primeiro recenseamento contou 594 milhões de Chineses. Estimativas do final de 2009 falam de uma população de um bilião e 334 milhões de pessoas.

O sexto censo contará, pela primeira vez, a população de Hong Kong, Macau, Taiwan e os estrangeiros residentes na República Popular da China.

A outra novidade é que os trabalhadores imigrantes, o rosto da China que constrói prédios e infra-estruturas, serão contados no lugar em que eles estavam no momento do inquérito, com base no "hukou" (autorização de residência).

Até agora os cidadãos que se deslocaram do campo para a cidade ficaram registrados nos lugares de origem, vendo na realidade limitado o direito de acesso aos serviços, como o de saúde. Uma fotografia da sociedade chinesa de 2008 fala de cerca de 607 milhões de pessoas que vivem em áreas urbanas e 721 milhões em áreas rurais.

As crianças fantasmas 

Outro obstáculo para a empresa colossal do censo será o caso dos milhões de crianças "fantasmas" não registadas, com o fim de fugir à lei do filho único.

Assim o governo está a fazer propaganda na tentativa de tranquilizar as famílias, preocupadas com as pesadas multas para aqueles que violaram a lei, responsável pelo aborto forçado e o desequilíbrio entre os sexos (em 2008 existiam 684 milhões de homens contra 644 milhões de mulheres ).

A promessa para aqueles que declararem as "crianças fantasmas" é que as sanções serão mais leves e pode até mesmo ser "em prestações".

Após três décadas de lei do filho único, os resultados do censo também servirão para delinear as novas políticas da família do gigante da Ásia.

As mudanças demográficas têm sempre um impacto no desenvolvimento económico, social e na estabilidade política. O problema que surge na China, e que provavelmente irá surgir a partir dos resultados do censo, é o aumento da idade média da população. No gigante da Ásia vivem mais de 133 milhões de pessoas acima de 65 anos, em 2050 serão cerca de 300 milhões.

O novo desafio já emerge fortemente em Xangai, onde as autoridades decidiram flexibilizar as medidas da lei do filho único. O jogo de ha
ilidade consiste no manter o crescimento do produto interno bruto, enquanto ao mesmo tempo são satisfeitas as necessidades dum número crescente de pessoas idosas que podem contar com apenas um filho.

As questões sociais serão talvez as mais difíceis para a quinta geração de líderes chineses, depois que, em 2012, Hu Jintao e Wen Jiabao sairão cena. E para os novos líderes o censo poderá revelar-se uma ferramenta valiosa.

Fonte: Limes
Gráfico: Limes
Tradução e adaptação: Informação Incorrecta

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