20 novembro 2010

Crianças e televisão: opinião e conselhos dum profissional

Ontem falámos de publicidade, de crianças, do anúncio de Beyoncé. E prometemos a opinião de alguém que conhece, e bem, o assunto.

Ana Margarida Barreiros colabora "nos bastidores" com Informação Incorrecta, corrigindo, às vezes, as tolices gramaticais que o humilde blogueiro inventa ao escrever num idioma que não é o seu.
Eu defendo o uso de neologismos, de novas formas de expressão, mas neste sentido Ana é bastante tradicionalista e afirma que as regras do Português valem para mim também. Pontos de vista.



Mas o que aqui interessa é que Ana é educadora de infância há 17 anos; docente numa IPSS (Instituição Particular de Solidariedade Social): conhece os problemas das crianças e dos pais, aprendeu e continua a aprender isso "no campo", dia após dia. 

Eis o ponto de vista dela.
A escolha é imensa: canal Panda, Cartoon Network, Baby Tv...desenhos animados 24 horas por dia, para quem tem TV por cabo. 
Os poucos que não têm, terão de cingir-se aos quatro canais nacionais com programação infantil de manhã cedo, ao acordar, durante a tarde e ao início da noite. A esta juntam-se as séries ditas juvenis e, claro, servem também as novelas...
A escolha é notável...

Não sou uma puritana nem defendo as casas sem televisão, bem longe disso. 
O que eu critico é a forma como os pais usam este aparelho como principal aliado na educação dos filhos. 

Compreendo que criar uma criança numa sociedade em que ambos os pais têm uma carreira profissional a defender e as horas que “sobram” para estar em família sejam poucas e atribuladas tenham a grande tentação de encontrar o conforto de uma “baby-sitter” em forma de caixote que lhes traga alguns momentos de paz, mesmo que seja para os afazeres domésticos...eu compreendo...mas pergunto: não existem outras opções?

Quem disse que educar um filho é fácil? 
Se alguém ainda acredita nisso vive num mundo irreal. 

Quando a escolha é “Vamos aumentar a família” tudo muda, inclusivamente a forma como se lida com as várias dificuldades que vão surgindo. Estamos numa sociedade em que se tenta facilitar. Compensar as crianças do pouco tempo que se passa com elas fazendo tudo aquilo que querem. Uma birra ao nascer do Sol é complicada, ao fim do dia é de fugir. E então, entra-se no espírito do Não Consigo! 

E é aqui que entra a baby-sitter: Tv ao pequeno-almoço, Tv ao chegar a casa e também ao deitar...obviamente no próprio quarto da criança. 
Esquecemos o “ajuda-me a pôr a mesa”, “vai brincar com os teus brinquedos”, “vamos fazer um jogo”, “vou-te contar uma história para dormires melhor” ou, finalmente, “vamos sentar-nos e ver um pouco de tv em conjunto”. 

Não sou contra a televisão. Sou ABSOLUTAMENTE contra a televisão no quarto. 
Para mim, este é um objecto que se partilha, que se “negoceia” que existe mas não é o centro do universo familiar. 

Penso que é tudo uma questão de ESCOLHAS. E alternativas. 

E até à maioridade as escolhas são dos Pais. As birras vão existir sempre, fazem parte da necessidade de afirmação, do processo de crescimento. 
Quando servem para atingir bons resultados então são consideradas arma eficaz e utilizadas com maior frequência. Não podem ser desculpa para carregar no botão e deixar a criança entregue a um aparelho que nem sempre fornece aquilo que é melhor para a saúde mental e física dos mais pequenos.

Adoro desenhos animados. Há-os de grande qualidade. 
Mas também os há, quanto a mim, de péssimo gosto. 

A vaga de “heróis” que tudo resolvem a troco de lutas, feitiços e relógios especiais transfere os mais novos para um mundo de violência que, por analogia, leva a brincadeiras violentas. 
Afirmo com convicção que as crianças estão mais agressivas nas suas brincadeiras, no seu contacto com os companheiros. 
Estão a perder a inocência, a perder a capacidade de acreditar na magia, no faz-de-conta. Se pensarmos que a Criatividade nasce da capacidade que todos temos de imaginar, de criar, de encontrar soluções para as dificuldades...

E depois temos a publicidade. 
Onde estão aqueles que censuram os desenhos animados mais violentos, ou a publicidade obscena a alimentos e guloseimas nada saudáveis num momento em que tanto se fala da luta fundamental contra a obesidade infantil? 
Quantos minutos de anúncios são apresentados nos principais canais de televisão durante os blocos de programação infantil? Estamos a chegar ao Natal e o apelo ao consumismo é atroz...mesmo no espaço dedicado aos mais novos. 

É demais! Não devemos entregar as nossas crianças a uma baby-sitter como esta e, muito menos, sem o controlo parental.

Repito, mais uma vez, que não sou contra a televisão. As crianças podem vê-la, há boa programação, com valores, divertida, educativa. O que eu não compreendo é o excesso de televisão. 

Por isso, o meu conselho é, em primeiro lugar, nunca pôr uma televisão no quarto da criança. Depois, deixem a criança participar e colaborar em algumas tarefas domésticas. 

Permitam que esteja perto da família a fazer um desenho, um jogo, uma brincadeira de plasticina ou, como fazia eu com a minha avó, a vender embrulhos de molas de roupa a que chamava sardinhas. 
Incitem o vosso filho a ir para o quarto brincar com as suas coisas em “troca” de um jogo depois de jantar. Vejam livros em conjunto. 
Conversem. 

Ou, sim...vejam um pouco de Tv...em conjunto...

Ana, que agradeço, tem um blog também: Histórias de Imaginar.

Claro, é um blog dedicado ao mundo das crianças, com contos e sugestões acerca de livros. 
Nada de economia ou geopolítica. 

Mas se o leitor é pai, pode ali encontrar contos originais: praticamente uma distribuição de sedativos literários para os mais pequenos. 

Dão sempre jeito.

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