22 novembro 2010

Especial Nato: até nunca

Último encontro com a série "Especial Nato".

A Cimeira acabou e os media falam dos resultados em tons triunfantes: um sucesso, uma apoteose, que teria sido do mundo sem este summit? De facto, o termo mais usado é "histórico".

Tentamos fazer um resumo um pouco mais sério e vamos ver quais os pontos fundamentais.

Afeganistão

Era este o ponto-chave da Cimeira.
A Nato quer sair do Afeganistão, quer deixar para trás uma guerra que não consegue ganhar. Mas não quer ouvir falar em derrota. Por isso tenta desenhar uma Exit Strategy, uma estratégia de saída.



Neste ponto de vista a Cimeira falhou. E não poderia ter sido de forma diferente.
Numa guerra, as partes em causa são dois, no mínimo. No caso do Afeganistão, a situação é infinitamente mais complexa. Há a Nato, os Talibãs, o governo do Afeganistão, o Paquistão. E, nos bastidores, o Irão, a China, Israel.
Por isso não basta sentar-se à volta duma mesa em Lisboa e dizer: queremos sair.

Por isso a Exit Strategy desenhada na Cimeira não passa duma pobre ideia, nem sequer original, que nada mais é senão uma tentativa de ganhar tempo.

De facto, a ideia é de re-propor a brilhante (!!!) técnica utilizada no Iraque, formar policia e força de segurança afegãs: na realidade, tudo depende das negociações em curso com os Talibãs.


O Novo Conceito Estratégico

Outro "marco histórico" é ter alcançado um novo conceito estratégico para a Nato. Vamos ver o que é isso.

Nas palavras de Anders Fogh Rasmusen, secretário-geral da organização o documento "não é apenas uma declaração de princípios ou um compêndio de aspirações, mas um plano de acção" destinado aos próximos 10 anos.

O conceito determina que a organização continuará a ter um papel "essencial como garante da defesa e segurança comuns" e orientará a evolução da Aliança "para que continue a ser eficaz num mundo em mudança" face a novas ameaças, com novas capacidades e parcerias. 

O secretário-geral da Aliança Atlântica reafirmou que o conceito "vai assegurar que a NATO permanece eficaz como sempre na defesa da paz, segurança e prosperidade", reafirmando "o compromisso dos membros da NATO de se defenderem uns aos outros de eventuais ataques", mas ao mesmo tempo "modernizando a forma como a NATO se defende".

O novo conceito "oferece aos parceiros (da organização) no mundo mais diálogo e cooperação", enfatizando a aproximação à Rússia, e apontou que o documento revela o compromisso da organização com "o objetivo de um mundo sem armas nucleares", mas "confirmando que, enquanto elas existirem, a NATO tem de continuar a contar com a dissuasão nuclear".

O secretário-geral da NATO assinalou que o conceito "mantém a porta aberta a democracias europeias", comentando que "o alargamento (anterior da organização) ajudou a espalhar a paz, democracia e prosperidade neste continente".

Este, em resumo, é o Novo Conceito Estratégico. Se alguém encontrar algo de realmente "novo" nestas declarações, é favor enviar-me um mail.


Sistema anti-míssil

E como prova da modernização da Nato, eis a proposta: um sistema anti-míssil.
Sem dúvida, uma ideia nova e revolucionária. 

O sistema aprovado pelos Estados membros da NATO implica a integração do sistema americano, mais móvel e flexível que a versão do anterior Presidente Bush, com o que a NATO estava a instalar, e que visava apenas a cobertura das operações militares.

O secretário-geral da NATO tem avançado que o novo sistema, que deverá cobrir todo o território e população dos 28 Estados membros, só terá um custo adicional de 200 milhões de euros, distribuídos pelos 28 e em dez anos.  Todavia, este é apenas um custo adicional aos 800 milhões que já estavam previstos e assumidos segundo afirmou ontem o porta-voz da NATO, James Appathurai.

1.000 milhões de Euros. No mínimo. Pois ainda está por saber o preço real e como será financiado.


A Rússia

A única verdadeira novidade desta cimeira foi o maior envolvimento da Rússia.
Moscovo cooperará na instalação do escudo anti-míssil. E não fecha a porta perante a possibilidade de entrar na Nato.
Talvez, um dia, quem sabe.


Mas o problema de fundo não foi resolvido: para que serve a Nato?
Ou, dito de outra forma: se não existisse a Nato, como  mudaria o mundo?

Vamos ver, ponto por ponto, as várias razões que apelam à sobrevivência da Aliança Atlântica.

Ciberegurança:
Um dos problemas discutidos na Cimeira foi o da cibersegurança: é evidente que a Nato não é indispensável na guerra contra os crimes que viajam na internet.

Afeganistão:
O Afeganistão é um problema criado pela Nato (e do qual não sabe como sair decentemente).

Terrorismo:
O terrorismo não pode ser resolvido com o envio de exércitos em outros Países, isso ficou muito claro.

Guerras:
A última guerra na qual os Países ocidentais ficaram envolvidos foi a do Afeganistão que, como vimos, foi desencadeada pela mesma organização atlântica.
A anterior intervenção tinha sido no Kosovo, numa operação que deveria ter sido gerida pelas Nações Unidas e não por uma organização que afirma ser "defensiva".
Afinal, esta estrutura "defensiva" declarou guerra já duas vezes e sem ter sido atacada.

Nuclear:
O único País que utilizou armas nucleares numa guerra (EUA), e o que mais armas nucleares detém nos próprios arsenais, faz parte da mesma organização que pretende defender o mundo da proliferação e do risco nuclear.
É uma piada? Não, é a Nato.

ONU:
A Organização das Nações Unidas foi um assunto bem esquecido ao longo da Cimeira, e não acaso. As prerrogativas da Nato pertencem à ONU e a mesma existência da Nato redimensiona o papel que deveria ser da organização liderada por Ban Ki-Moon. 

Europa:
A existência da Aliança Atlântica, com a própria dependência das politicas de Washington,  atrasa a criação duma força militar europeia, assim como adia um dialogo mais profundo e uma maior integração com a Rússia. Isso é: com um dos futuros novos pólos geopolíticos.


Avaliando estes pontos, não é difícil chegar à conclusão que a Cimeira da Nato falhou um dos objectivos principais: demonstrar a própria indispensabilidade.

O mundo não seria um lugar pior sem a Organização do Tratado do Atlântico Norte: talvez o contrário, pois poderia existir mais espaço para o dialogo e as soluções politicas. Sem dúvida, mais espaço para a única organização que tem legitimidade e razão de existir: a ONU.

A Nato teve um papel fundamental no mundo da Guerra Fria.

Mas hoje, num mundo em plena deslocação geopolítica, a Nato é nas melhores das hipóteses uma incomoda relíquia do passado. 
Nas piores das hipóteses, a tentativa de manter um status quo já condenado pela História.
E, como tal, está destinada ao fracasso.

Ipse dixit.

3 comentários:

  1. NunoSav22.11.10

    "Sem dúvida, mais espaço para a única organização que tem legitimidade e razão de existir: a ONU."

    Na teoria até posso entender que algo como a ONU seja positivo mas não o é na prática nem tem, na minha opinião, qualquer legitimidade. Basta dar o exemplo de como actuam, em comparação, com Israel e Irão. Israel tem armas nucleares e não pertence à IAEA ou NNPT enquanto que o Irão pertence a ambas e, que se saiba, não pretende ter armas nucleares (eu acredito que as queiram e as farão mas mesmo assim estão no seu direito).

    Comparando ambos os casos vemos o Irão com sanções impostas pela ONU, EUA e Europa e Israel a receber ajudas e apoios dos mesmos. À partida, com isto dito, deveríamos condenar quem quer que fosse pró-Israel ou visse qualquer justificação nas guerras que decorrem.

    É interessante ver que todas estas entidades (ONU, OMS, Nato, FMI, Banco Mundial, UE, etc.) surgiram após a 2ª guerra mundial quando o mundo estava horrorizado com os últimos anos, foi-lhes vendida a ideia que esta seria a solução para um futuro harmonioso. O que eu vejo são entidades que, cada uma na sua área, tem supervisionado maior parte do mundo na sua reconstrução pós-guerra desenhando a sociedade à sua maneira. Quem está por detrás de todas estas instituições são obviamente os mesmos de sempre (banqueiros, famílias reais, grandes potências do mundo).

    A ideia é simples e quando as pessoas entendem estas jogadas tudo faz muito mais sentido, só custa é acreditarem e nem sempre dão ouvidos às evidências.

    http://www.youtube.com/watch?v=JoSMmRhTUH4 !!!!!!!!!! :D

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  2. Verdade, também a ONU, assim como está, não tem legitimidade.

    Mas é pena, pois a ideia não é mal: todos os Países do mundo que, em conjunto, tentam resolver os vários problemas com o dialogo e recorrendo à força só como medida extrema.

    Provavelmente uma utopia.

    No caso desta ONU, já o facto de existirem Países com direito de veto é uma idiotice que torna a instituição inútil. Ou melhor, útil só para alguns.

    Também o sistema de financiamento deveria ser revisto: 22% do orçamento da ONU é "doado" pelo Estados Unidos.
    E mais de 50% é dos Países ocidentais.
    Os quais, sabemos, não gostam de desperdiçar o próprio dinheiro...

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  3. NunoSav22.11.10

    Fica aqui algo para substanciar o que foi dito:

    http://www.activistpost.com/2010/11/history-of-health-tyranny-codex.html

    http://www.activistpost.com/2010/11/health-tyrants-codex-alimentarius-part.html#more

    Parte 2 fala sobre a ONU mas convém ler o que está para trás.

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