20 novembro 2010

Especial Nato: O inimigo surreal



A Cimeira da Nato oferece a oportunidade para reflectir acerca do que se passa com o mundo político.
O mundo político "importante", pois em Lisboa está reunida a quase totalidade da elite que gere as nossas vidas.

Dum outro planeta

A primeira impressão é que estas pessoas vivem num outro planeta.

Diz Anders Fogh Rasmusen, Secretario Geral da Nato, que o documento aprovado na Cimeira
não é apenas uma declaração de princípios ou um compêndio de aspirações, mas um plano de acção destinado aos próximos 10 anos.
Seria normal pensar que numa altura como esta, com Países à beira da bancarrota e milhões de desempregados, a "acção" fosse inerente às medidas para combater o deficit ou a falta de emprego.

Mas não: o documento em questão estabelece que a organização continuará a ter um papel “essencial como garante da defesa e segurança comuns”.

Defesa? Contra quem? Onde está a ameaça? Quem quer invadir um ocidente em coma profundo, privo de matérias primas e agora sem produção?



Foram boa parte dos Países da Nato, liderados pelos Estados Unidos, que atacaram o Iraque, não o contrário.
Foi a Nato, sempre liderada pelos Estados Unidos , que atacou o Afeganistão, não o contrário.

O inimigo

Quem é este inimigo dos povos?
O Islão? Tentamos ser sérios.

O inimigo do povo tem uma cara e um nome: chama-se economia. Não a economia em geral, mas esta economia, gerida por bancos e multinacionais dispostos a tudo para obter lucros.

Não é um inimigo vindo do exterior: é um inimigo que vive connosco.

O inimigo é o banco à esquina, que empresta dinheiro só se podemos apresentar a garantia de já ter o dinheiro que pedimos emprestado.

O inimigo é o hipermercado que vende laranjas mais baratas porque importadas, quando, segundo lógica, o produto nacional deveria ser mais competitivo.

O inimigo é o nosso governo que utiliza o nosso dinheiro para salvar instituições financeiras privadas, salvo depois fechar centros de saúde porque "temos que apertar o cinto".

O inimigo é a oposição no parlamento, porque em vez de alertar os cidadãos acerca de quem verdadeiramente manda no País, é cúmplice ou, nos melhores dos casos, chama em causa doutrinas políticas mortas há décadas e destinadas ao fracasso.

O inimigo é connosco, passa a vida connosco, conhece os nossos hábitos, o nosso modo de pensar e de agir. Conhece as nossas reacções, sabe desfrutar os nossos pontos fracos e explorar as nossas humanas fraquezas.

Reparem: alguém convocou uma cimeira para debater dos problemas económicos que afligem os Países ocidentais?

Não.
O recente G20 não foi nada disso: nem por um momento foi posto em causa o papel dos bancos, privados ou centrais, as responsabilidades dos investidores, a atitude das instituições financeiras.
O máximo do radicalismo foi constatar que a China não quer valorizar o Yuan. Nada mais.

Tentar resolver os actuais problemas ocidentais significaria pôr em perigo as bases que sustentam esta economia doente. Por isso, melhor atirar para o desemprego milhões de pessoas e deixar que tudo possa proceder como de costume.

Entretanto, é boa ideia levantar poeira para que, no meio da confusão, os assuntos reais possam passar despercebidos.

Surrealismo

As nossas classes dirigentes transitam dos impulsos pseudo-patrióticos para o ridículo com uma descontracção assinalável.

O presidente dum País tecnicamente falido, os Estados Unidos, chega em Lisboa para falar dum País à beira da bancarrota: Portugal.

E o presidente do País à beira da bancarrota, não satisfeito, pede ao presidente do País tecnicamente falido para que as suas empresas invistam mais no País à beira da bancarrota.

Em resposta, o presidente do País tecnicamente falido assim fala: "Visamos um aprofundamento da nossa cooperação no comércio, investimento, ciência e tecnologia. Estou muito impressionado com o trabalho notável que Portugal tem feito em áreas como energias limpas, [onde] pensamos que podemos colaborar mais", esquecendo de dizer que o próprio País, além de estar falido, é também o que mais polui  no mundo, o que mais gasta, o que mais lixo produz.

Maravilhoso.
Parece uma conversa saída dum filme de Mel Brooks. Mas é realidade, acontece aqui e hoje.

E, no meio de tanto transtorno cerebral, eis o papel da informação. Fundamental numa sociedade em que os cidadãos possam conhecer, avaliar e escolher.
Os 28 chefes de Estado e de Governo da NATO vão estar juntos hoje à noite num jantar de trabalho na FIL, a seguir à reunião do Conselho do Atlântico Norte.
Cavaco Silva deverá juntar-se a José Sócrates nesta ocasião.

A ementa do jantar é a seguinte:
Crepes de EspinafresMedalhões de Vitela com Queijo da SerraPudim de Abade de PriscosVinhos tinto e branco Burmester

E aqui paro, pois já não tenho coragem para acrescentar mais nada.

Ipse dixit.


Fontes: Diário das Notícias, Público
Fotografias de Daniel Rocha, Miguel Manso, Rui Gaudêncio

1 comentário:

  1. Anónimo21.11.10

    Oi Max, pensei em te mandar esse curta dum amigo meu, acho que cabe bem aqui :
    Pessoas,
    Saiu hj no segundo caderno uma matéria grande sobre o "Proibido Parar", meu mais novo curta.
    Pra quem ainda não viu, o filme é esse: http://www.youtube.com/watch?v=rWwEaTYddOo
    Abs!
    Cele

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