27 novembro 2010

Pecunia non olet

 
Não costumo escrever prefácio para os artigos, mas neste caso acho ser preciso.
É bastante simples encontrar material acerca do assunto aqui tratado; provavelmente são diversos milhares as páginas na Web que apresentam até muito mais material daquele presente.

Mas a minha ideia não era fazer um copy-paste. Aliás, as razões eram mais do que uma.
  1. Em primeiro lugar gostava de tratar dum assunto que os média ignoram.
  2. Depois gostava de demonstrar que efectuar uma pesquisa como esta não requer grandes investimentos ou conhecimentos específicos: de facto, tudo o que é relatado a seguir é contido na enciclopédia online Wikipedia.
  3. Por último, gostava de dissipar um mito: o assunto tratado nada tem a ver com o conspiracionismo.
Dos média não há muito para dizer: conhecemos demasiado bem a atitude de jornais e televisões e sabemos qual o tipo (e o nível) de informação prestada. Pena, pois o relacionamento entre as empresas americanas e o regime nazista ajuda a compreender qual foi o sentido de ética e de responsabilidade de figuras que desenvolveram papeis centrais na economia dos Estado Unidos e não só. 



O segundo ponto acho ser o mais importante.
Wikipedia está bem longe de estar perfeita, mas não podemos esquecer que é um site de referência de nível global; fornece uma grande quantidade de informação, sempre à disposição, ficando à distância de apenas um click. Esta informação está sob os olhos de todos, só que muitas vezes não percebemos isso.
E para "descobrir" notícias ou factos relevantes é só precisa paciência.

Claro, não esperem encontrar uma página com o elenco das empresas americanas que colaboraram com o Terceiro Reich: esta pesquisa, por exemplo, foi realizada com grandes "saltos" entre as várias versões de Wikipedia (Inglesa, Portuguesa, Italiana, Espanhola), pois a informação muda com o mudar do País.

E não só por questões geográficas: Wikipedia versão inglesa, por exemplo, "esquece" muitas vezes "pormenores" menos agradáveis acerca de figuras de ponta americanas (neste aspecto, a melhor versão encontrada foi a Espanhola).

Mas como, afirmado, com paciência é possível juntar as várias peças para formar a imagem final.

Último ponto é o conspiracionismo: nada daquilo que é aqui tratado tem a ver com conspirações mundiais, planos secretos esotéricos, sociedades milenárias. Os apresentados são factos.
Ao longo da pesquisa, por exemplo, encontrei várias vezes a sociedade secreta Skull And Bones, mas decidi não falar dela pois ter-se-ia perdido o objectivo central: uma reconstrução puramente histórica, livre de especulações.

E agora: boa leitura.

Wall Street e o Terceiro Reich
  
Pecunia non olet (O dinheiro não cheira) era uma expressão que os Romanos utilizavam para indicar uma triste realidade: não importa a origem, o dinheiro é sempre dinheiro. E, como tal, sempre à espera de ser ganho.

Hoje o mundo condena de maneira unânime o nazismo: Adolf Hitler, os campos de extermínio, a guerra. Mas qual o destino das pessoas e das empresas que colaboraram com o regime nazista? Como nasceram estas colaborações? Quais consequências trouxeram?

Eis uma nova demonstração de como o capitalismo moderno seja capaz de atropelar a ética em nome do lucro.


IG Farben

Em 1925, algumas empresas do sector químico alemão reuniram-se num conglomerado baptizado IG Farben.
Em breve, este conglomerado tornou-se o coração económico do nascente regime nazi.

Quais eram estas empresas?
Eis a lista:

Basf
Bayer
Agfa
Cassella
Hoechst
Chemische Fabrik Griesheim-Elektron
Chemische Fabrik vorm. Weiler Ter Meer

Zyclon B
Alguns dos nomes soam familiares? Pois.

A IG Farben não se limitava a fornecer cobertura financeira para a subida e a manutenção de Adolf Hitler no poder: participou activamente nas actividades do 3º Reich.

Da empresa era o tristemente famoso Zyclon B, o pesticida utilizado nas câmaras de gás para o extermínio dos presos, e a mesma IG Farben utilizava nos próprios estabelecimentos verdadeiros escravos.

Menos conhecidos, mas igualmente interessantes, são os relacionamentos da IG Farben com outras empresas: um pesquisa que leva até os Estados Unidos.


IG America

A IG Farben tinha uma sociedade financeira nos Estados Unidos, a IG America. Esta era governada por um directivo cujos membros eram os seguintes:

Edsel Ford, filho de Henry Ford, fundador da homónima casa automobilística. 
Charles Mitchell, presidente da Rockfeller's National City Bank de New York.  
Walt Teagle, presidente da Standard Oil 
Paul Warburg, fundador e vice-chefe da Federal Reserve 
Herman Metz, deputado democrático dos Estados Unidos 
Max Warburg, banqueiro, irmão de Paul

Excepto o de Max Warburg, os outros nomes desta lista apresentam características particulares. Vamos ver a razão.

Edsel Ford
> Edsel Ford
Edsel Ford era o filho de Henry Ford, fundador da Ford Motor Company e pai da moderna linha de produção utilizada na produção em massa.

Já Henry se tinha convertido ao anti-semitismo, ao ponto de ser citado, único Americano, no livro de Adolf Hiter, Mein Kampf:
São os Judeus que governam as forças da Bolsa de Valores da União Americana. A cada ano convertem-se em maestros que controlam os produtores duma nação de 120 milhões de pessoas. Mas, com fúria deles, um homem só, Ford, ainda mantém a total independência
Como no caso do pai, a reputação de Edsel Ford foi frequentemente manchada pelas associações com a Alemanha nazista. Tentou-se perceber qual o grau de controle de Edsel nas unidades produtivas da Ford na Alemanha e na França do regime de Vichy durante a Segunda Guerra Mundial; e até a que ponto os accionistas da Ford Motor Company beneficiaram dos trabalhos forçados usados pelos Alemães nestas indústrias.

Houve também uma investigação do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos contra Edsel por supostas violações da proibição do comércio com o inimigo (Trading with the Enemy), que, todavia, foi cancelada pouco após a entrada em guerra dos Estados Unidos.

Paul Moritz Warburg
> Paul Warburg
Paul Moritz Warburg é um nome bem conhecido nos Estados Unidos, pois foi o fundador da Federal Reserve e vice-director da mesma instituição. Banqueiro alemão transferido nos Estados Unidos onde, entre outras coisas, foi nomeado qual director da IG America.

Na altura da sua morte, Warburg era director das seguintes empresas: Manhattan Company, Bank of Manhattan Trust Company, Farmers Loan and Trust Company of New York, First National Bank of Boston, Baltimore & Ohio Railroad, Union Pacific Railroad, Los Angeles & Salt Lake Railroad, Western Union Telegraph Company, Chemical Company, and Warburg & Company of Amsterdam  e Agfa Ansco Corporation.

Agfa Ansco Corporation? Isso mesmo, Afga.
O homem que convenceu o presidente dos EUA Woodrow Wilson a aprovar a Federal Reserve era director da IG America, versão americana da IG Farben, e da filial nos Estados Unidos da Agfa, uma das empresas que tinham formado a mesma IG Farben.

Warburg era também membro do Temple Emanu-El em New York, a primeira congregação de Judeus reformistas de New York.

Pois Warburg era judeu. O que torna-se no mínimo esquisito quando somos sócios do filho do mais conhecido anti-semita dos Estados Unidos e directores de duas filiais de empresas nazistas.
Mas, como reza o título deste artigo: pecunia non olet

Como curiosidade, podemos acrescentar que Paul Warburg teve um filho, James, consultor financeiro do presidente Franklin D. Roosevelt, e que se tornou famoso por causa da seguinte frase, proferida no dia 17 de Fevereiro de 1950:
Teremos um governo mundial, gostemos ou não. A questão é apenas saber se o governo mundial será alcançado por consentimento ou com a força.
Sem dúvida, uma família simpática.

> Herman Metz
Metz era um imigrante alemão, deputado democrático dos Estados Unidos e director da Bank of Manhattan, controlada por Warburg. A Bank of Manhattan e a Chase National Bank, controlada pela família Rockfeller, em 1955 confluíram numa nova instituição, baptizada Chase Manhattan Bank, que em 1996 tomará a nova denominação de JPMorgan Chase.

> Charles Mitchell, Walt Teagle
Mitchell e Teagle tinham em comum o facto de ser dependentes do Império Rockfeller.
Charles Mitchell pertencia à Rockfeller Bank, enquanto Walt Teagle à Standard Oil.

A família Rockfeller é por muitos vista como parte fundamental do projecto dos Illuminati; mas, além disso, acusações mais pragmáticas são as pelas quais os Rockfeller favoreceram o despoletar da Primeira e da Segunda Guerra Mundial para obter lucros com fornecimentos garantidos pelo próprio vasto leque de actividade. De facto, os Rockfeller venderam armas aos vários Países beligerantes, independentemente da cor destes últimos. Pois, como já vimos, pecunia non olet.

O nome dos Rockfeller voltou a ser associado à IG Farben ao longo das investigações do Trading with the Enemy: foi descoberto que o relacionamento entre a Standard Oil e a IG Farben ia além da filial IG America e os investigadores falaram em matrimónio.

A mesma pesquisa descobriu que outras empresas dos Estados Unidos, entre as quais a DuPont, tinha acordos comerciais com o pólo químico alemão, um verdadeiro cartel para o controlo dos preços no mercado internacional.

E os Rockfeller aparecem também ligados à outra empresa do grupo IG Farben, a Bayer. O "império" Rockfeller tinha uma comparticipação na sociedade alemã e esta tinha uma comparticipação em algumas das empresas da família americana.
Nada de mal, claro, até quando não descobrirmos que na mesma altura a Bayer conduzia experiências com cobaias humanas e produzia o tristemente famoso Zyclon B, o pesticida à base de ácido cianídrico, cloro e nitrogénio que foi utilizado pelos Nazistas como veneno no assassinato em massa por sufocamento


Union Banking Corporation

Existe também outro nome que liga a Alemanha nazista ao mundo dos negócios dos Estados Unidos: este nome é Union Banking Corporation.

Fundada em 1924, em New York, tinha Edward Roland Noel Harriman entre os directores.

Edward Roland Noel Harriman
> E. Roland Harriman
Harriman é definido pela Wikipedia inglesa como filantropo, esquecendo de mencionar o seu papel como financiador da causa nazista.

É possível ser filantrópicos e ao mesmo tempo apoiar os campos de extermínio? Segundo Wikipedia sim.

Harriman era filho de Edward Henry Harriman, um executivo da Union Pacific Railroad e da Southern Pacific Railroad; curiosamente, duas empresas controladas por Paul Warburg, que já tínhamos encontrado.
Roland Harriman, como referido, trabalhava na Union Banking, controlada pelo banco holandês Bank voor Handel en Scheepvaardt N.V., segundo o relatório do Federal Office of Alien Property Custodian de 5 de Outubro de 1942; o banco holandês, por sua vez, era de propriedade da família alemã Thyssen, financiadora do Reich.

Além de Harriman, na direcção da Union Banking Company havia outra pessoa interessante: a presença de tal Prescott Sheldon Bush.

Bush? Como os dois presidentes dos Estados Unidos?
Pois: Prescott era respectivamente o pai e o avô dos dois futuros presidentes.

E o elo de ligação entre Harriman, Bush e o Nazismo não era limitado à Union Banking;  a Hamburg-American Line era outra propriedade dos Thyssen gerida pela dupla Harriman-Bush.

Prescott Sheldon Bush
> Prescott Sheldon Bush
Prescott era filho de Samuel Prescott Bush, patriarca da dinastia, que após a Primeira Guerra Mundial tinha começado a trabalhar como general manager na empresa Buckeye Steel Castings Company, de Frank Rockfeller (irmão do mesmo Rockfeller já envolvido na IG America).
Entre os maiores clientes da empresa havia E.H.Harriman, e aqui começou o relacionamento que teria prosseguido ao longo das décadas.

> Harriman & Bush
Quando Frank Rockfeller se reformou, Samuel P. Bush foi posto na condução da Buckeye Steel.
Prescott continuou a actividade do pai no mundo dos negócios: foi vice-presidente da Harriman & Co. e em 1931 fundou com os Harrimans (pai e filho) a Brown Brothers Harriman & Co.

Esta sociedade transferiu para a Alemanha milhões de Dólares em ouro, aço, combustível, carvão e Títulos de Estado dos EUA, utilizados por Hitler para construir a sua máquina de guerra. De facto, a Brown Brothers foi o maior financiador de Hitler na América, e representou a conexão mais significativa com as empresas alemãs e Fritz Thyssen, que geriu os  fundos para o partido nazista até 1939.

A dupla  Harriman & Bush, em 1926, adquiriu um terço da Silesian Steel Corp., companhia que por dois terços ficou nas mãos de Friedrick Flick; a sociedade mudou o nome em Consolidated Silesian Steel Corporation, operante na Alemanha e na Polónia, e em 1930 o director foi Allen Dulles, futuro director da CIA.

Sem grande surpresa, descobrimos que Friedrick Flick foi um dos principais financiadores do III Reich, mas não só: foi um dos fundadores do partido nazista. As suas empresas utilizaram ao longo dos anos 48.000 presos dos campos de extermínio como trabalhadores forçados.


A General Motors e o Terceiro Reich

Muito pouco se fala deste assunto, mas acerca da General Motors também existem muito mais de que suspeitas: o Terceiro Reich e o construtor dos automóveis Opel, Chevrolet e Cadillac (entre outros) mantiveram um bom relacionamento.

Aparentemente tudo nasce com a aquisição de 80% das acções da empresa Opel, em 1929: a General Motors entrou assim no mercado alemão. Dois anos mais tarde, a GM completou a aquisição entrando na posse da restante quota da propriedade.

Presidente do Grupo era Alfred Pritchard Sloan, Jr.

Alfred Pritchard Sloan, Jr.
> Alfred Pritchard Sloan Jr.
Sloan, outro filantropo segundo Wikipedia inglesa (a qual, pelo visto, utiliza o termo como sinónimo de "colaborador dos Nazistas"), tinha sido nomeado presidente da empresa Hyatt Roller Bearing que foi fornecedora da Ford Motor Company também; em 1916 fundiu-se com outras indústrias para formar a United Motors Company (mais tarde General Motors), na qual ficou ao longo de muitos anos em qualidade de presidente.

Na General Motors, Sloan teve ocasião de conhecer John Jakob Raskob, já da DuPont, que introduziu importantes novidades na gestão da empresa. Mas também Sloan contribuiu na afirmação da General Motors e não descuidou o mercado alemão.

Durante o processo de Nuremberga, o importante membro do regime nazista Albert Speer declarou que a rápida invasão da Polónia, em 1939, não teria sido possível sem um aditivo para optimizar o funcionamento das tecnologias, fornecido pela General Motors.

Mas esta é só a ponta do icebergue.
Opel Blitz
Sloan era um admirador do estilo de Hitler, ao mesmo tempo que odiava o presidente dos EUA, Roosvelt e a política do New Deal.

Os registos da fabrica Opel de Russelsheim revelam que entre 1942 e 1943 a produção e as estratégias de venda foram planeadas em conjunto com os centros da GM espalhados pelo mundo.

E em 1943 foi a filial alemã que desenvolveu e construiu o Messerschmitt 262, o primeiro avião de combate a jacto: esta inovação deu aos Alemães uma vantagem não indiferente, pois a nova tecnologia GM Made in Germany permitia que o avião alemão fosse 100 milhas horárias mais rápido do americano Mustang.

Os pilotos das USAF, a força aérea militar dos Estados Unidos, combatiam em desvantagem contra a tecnologia do próprio País.

Não acaso, uma vez acabada a guerra, a General Motors tentou destruir todos os dados que demonstravam o profundo relacionamento com o Terceiro Reich;  a manobra não resultou, mas Sloan não sofreu consequências e em 1951 recebeu a Medalha de Ouro da The Hundred Year Association of New York "como reconhecimento das suas destacadas contribuições à cidade de New York."

Pecunia non olet.

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