12 novembro 2010

...pigs...pigs...ainda pigs...

Os velhos tempos estão de volta.

Quando Informação Incorrecta abriu as portas, a dúvida era: a Grécia irá conseguir?

Agora a situação é a mesma, com a diferença que muda o sujeito; já não é apenas um País mas dois: Irlanda e Portugal irão conseguir?

Esta mudança tem que fazer reflectir.
Apesar das aparentes boas notícias que esporadicamente ocupam as manchetes dos jornais ("Produção industrial sobe no segundo trimestre", "Exportações atingem novo recorde"), o mundo ocidental não consegue encontrar a luz no fundo do túnel.
Melhor: recusa ver o túnel.

Não se reconhece que este é o sistema a falhar e os problemas são encarados com soluções pontuais.

Verdade, desta vez ninguém fala em misteriosos "especuladores" que atacam os mercados, tal como aconteceu nos tempos da crise grega. Mas ninguém explica que os terríveis "especuladores" que atacaram Atenas na Primavera passada, ainda estão a trabalhar e agora têm na mira Irlanda e Portugal.



Estes "especuladores", tal como dissemos em tempos idos, são conhecidos com o nome de "mercado".
É só substituir o temo "especulador" com "investidor" para perceber o que se passa.

Quando um investidor capta um risco, quando percebe que o próprio dinheiro pode estar em perigo, pede juros mais elevados. Isso compensa o risco do investimento.
É normal que isso aconteça, sempre foi assim.

No caso da Irlanda. Estamos perante um País com uma dívida pública enorme, não compensada pela riqueza produzida (o PIB, Produto Interno Bruto): como será capaz de devolver o dinheiro que pede agora, e o que já pediu, emprestado?
O risco da Irlanda não conseguir pagar é elevado, por isso os investidores aceitam apostar o próprio dinheiro, mas querem juros mais elevados.

Mesma coisa com Portugal.

Resultados: os juros da dívida irlandesa saltam até 9%, os de Portugal ultrapassam 7%.

Só para fazer uma comparação: no Brasil, a lei de usura proíbe a cobrança de taxa de juros superiores a 12 %. A Irlanda está perto deste valor.

UE nas dúvidas, outra vez

Soluções?
A União está dividida, tal como aconteceu com o caso da Grécia: ajudar ou não ajudar os Países em dificuldades? França e Alemanha, por exemplo, são contrárias.

Mas num panorama como este, assume contornos cada vez mais prováveis uma intervenção do Fundo Monetário Internacional.

A alternativa seria uma "reestruturação da dívida pública", termo elegante com o qual se indica a seguinte condição: o representante dum Estado perante as câmaras das várias televisões afirma "Meus senhores, já não há dinheiro, temos que rever a nossa posição". Tecnicamente, uma falência.

Mas há alguém assustado com esta perspectiva, e este alguém são os investidores que arriscam perder tudo ou pelo menos boa parte do que investiram.

Atrás da máscara

Mas afinal, quem são estes "investidores", ex terríveis "especuladores"?
Podemos individuar uma cara, um nome?

Com certeza. E perceber quem são é simples.

Uma pergunta: donde vem o dinheiro que Irlanda e Portugal tentam angariar nos mercados?
Dos cofres de Tio Patinhas?

Não, pois sabemos que Tio Patinhas tem tudo em moedas de ouro, enquanto nos dias de hoje de ouro nem a sombra: tudo acontece de forma electrónica, virtual, "criativa", e o dinheiro não tem relacionamentos com o metal precioso.

Então? Então vem de outros investimentos em várias áreas, entre as quais outras dívidas públicas.
Por isso a falência (ou bailout, ou bancarrota, etc.) é vista como um pesadelo: é como um grande castelo de cartas, ao mexer algo cai tudo.

É um círculo vicioso: os Estados pedem dinheiro aos mercados, os mercados respondem com dinheiro fruto dos juros obtidos a partir de outros investimentos, os bancos assinam o cheque (virtual) e o jogo recomeça.
Os bancos, pois...

O dinheiro que Irlanda e Portugal tentam arrecadar pode bem ser o fruto dos juros já pagos pelos mesmos Países.

É um paradoxo, mas os piores "especuladores" da Irlanda e de Portugal são Irlanda e Portugal, envolvidos no esquema sem fim da eterna dívida pública.

Ao interromper o esquema, quebra-se a corrente. E isso não pode acontecer, demasiados investidores perderiam demasiado dinheiro. Os bancos, por exemplo.

Os bancos, ainda eles.
Pois.

A chegada do FMI

Por isso a hipótese FMI ganha força.

Jornal de Negócios de hoje:
Bancos portugueses à espera do FMI desde a intervenção na Grécia
A hipótese de Portugal recorrer ao fundo de emergência europeu e ao Fundo Monetário Internacional está a ser estudada pela banca nacional desde que houve necessidade de intervir na Grécia

Bancos à espera do Fmi, nada de mais natural.

O mesmo diário pergunta: Como será viver em Portugal com o FMI a mandar?

Um leitor avançou com uma ideia recentemente (não encontro o comentário original, raios!):  analisar as consequências da primeira intervenção do FMI em Portugal.

O problema é que as condições são bem diferentes.
A década era a dos anos 80 e o mundo era um lugar bem diverso: havia a Guerra Fria, a União Europeia ainda não existia na forma actual, os mercados funcionavam de forma mais "analógica", algumas das tendências não estavam tão "extremizadas", não estava em curso uma Guerra das Moedas como acontece nestes dias. 

Para ter uma ideia do que seria hoje o Fundo Monetário na condução dum País temos o caso da Grécia.

E mais não digo.


Ipse dixit.


Fonte: Jornal de Negócios

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. É pura e simples reação em cadeia que se estende pelo mundo. Logo serão todos e não meia dúzia de países nessa situação.

    Max, só posso te agradecer por esse magnífico post!
    "dos cofres do tio Patinhas" foi de matar!! Muito criativo!!

    Parabéns!
    Grande abraço

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  3. NunoSav12.11.10

    Fui eu que te mandei o mail :p

    Eu acho que a grande diferença para a ultima intervenção do FMI em Portugal é que agora não temos o escudo e a possibilidade de o manipular (desvalorização) para aumentar exportações, etc.

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