Todavia a dúvida principal não é tanto qual Título de Estado está em risco, mas qual não está e não irá estar.
A crise da dívida soberana na Europa é uma crise estrutural, não cíclica, como agora todos parecem ter percebido; esta é devida a fenómenos macroeconómicos que exprimiram todo o potencial de detonação com um modelo de desenvolvimento económico turbo-alimentado, com baixas taxas de juro e baixos custos de mão de obra. Isso tem, entre outras coisas, o nome de globalização.
E em caso de dúvida acerca desta afirmação é bom dar uma vista de olhos a quanto afirmado pelo ex-ministro italiano Giulio Tremonti em 2008. A globalização não nasce da natural evolução do Capitalismo clássico: esta que estamos a viver é uma solução previamente estudada para resolver a diminuição dos lucros das empresas dos Estados Unidos e da Europa, provocada pelo envelhecimento da população e pelo baixo índice de natalidade.
Mas não só. Não é imaginável um continuo aumento dos úteis em mercados "restritos", existe um limite fisiológico.
Eu posso encher a minha casa de 3, 4 ou 5 televisões; e o mesmo pode ser feito por todos os cidadãos do País no qual vivo, ou de todo o continente. Mas chegará uma altura na qual ninguém comprará outras televisões só para fazer felizes os produtores.
As grandes multinacionais cedo ou tarde (mais cedo do que mais tarde) assistirão a uma progressiva diminuição das receitas, pois os mercados ocidentais são maduros, saturados ou até em declínio.
Um destino já escrito
Uma pessoa idosa, infelizmente, não representa o clichê do consumidor ideal, na verdade contribui de forma marginal para os níveis de consumo se comparado com uma pessoa de trinta anos: esta última é apenas no início do seu plano de vida, tem que casar, tem que comprar uma casa , ter filhos, comprar um carro, divertir-se no tempo livre, ir de férias, comprar roupas e assim por diante.
Enquanto dum lado irá diminuir o nível de consumo, por outro lado aumentará o peso do welfare social (lares, internações hospitalares, assistência médica, pensões de reforma), que cada vez mais pesarão sobre o total da riqueza produzida.
Basicamente estamos a falar de países (Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Espanha & Company) cujo destino está muito bem definido: inexorável envelhecimento da população, aumento da dívida pública, lenta desindustrialização e empobrecimento brutal.
Por isso surge uma pergunta: a austerity, os dramáticos cortes da despesa social e da pública administração, afinal, quanto podem servir?
Leste e Sul
Quem desenhou a globalização já pensou nisso tudo e na forma como proteger os níveis de lucro das empresas contra uma época de mudança na geografia do consumo mundial.
Na Ásia, com China e Índia em primeiro lugar, 75% da população tem uma idade inferior a trinta anos e um rendimento per capita em ascensão: era necessário, portanto, definir as bases para aumentar o número de pessoas destas regiões que podem começar a consumir com níveis semelhantes aos do Ocidente.
Graças ao WTO conseguiu-se implementar uma fenomenal transferência de postos de trabalho através das "oportunidades" da deslocalização produtiva, literalmente mover fábricas que dariam o tempo para o nascimento duma nova classe média burguesa, disposta a gastar em modas e tendências de consumo para o novo milênio.
Não é necessário ser economistas para perceber isso: em 2000, a Ásia contribuía com apenas 10% dos consumos mundiais, em 2030 será responsável por quase 40%. Como potencial de crescimento, além dos mercados orientais, aparecem os da América Latina com o Brasil como locomotiva.
Estamos a testemunhar uma mudança histórica: o centro geopolítico e econômico mundial desloca-se para o leste, e também para o sul.
Os novos problemas
A crise da dívida soberana na Europa até é inconsistente se comparada aos problemas que irão surgir nos próximos anos face às dificuldades objectivas na oferta de alimentos: especialmente no Oriente, que tem terra cultivável incapaz, infelizmente, de atender à demanda crescente de cereais e de gado.
Daqui a vinte anos, o modelo económico actual deverá ser capaz de disponibilizar habitações, automóveis, alimentos, combustíveis e água, para 600 milhões de pessoas novas: por isso é bom começar a fazer duas contas e perguntar quem ainda poderá ter um luxo como um frigorífico cheio ou bancos do supermercado carregados para agradar o consumismo desenfreado e perverso do novo milênio.
Os dados
Alguns dados.
O primeiro gráfico mostra o impressionante aumento demográfico dos últimos séculos (dados em biliões de indivíduos): a Humanidade demorou milénios para atingir o primeiro bilião (no século XIX), mas nos últimos 150 anos o incremento foi exponencial.
As projecções segundo o Census Bureau Office dos Estados Unidos e segundo as Nações Unidas: em ambos os casos, em 2050 será ultrapassada a fasquia dos 9 biliões de seres humanos.
Cada vez menos mortes infantis e vida mais longa: qual o limite de sustentamento do planeta?
Projecções de crescimento demográfico segundo 4 variáveis: neste caso os níveis variam entre os 8 biliões escassos e os quase 12 biliões.
As projecções para os Países em desenvolvimento são concordes: até 2045 será crescimento, até lamber a fasquia dos 9 biliões segundo a hipótese de crescimento alto.
Bem diferente a situação dos Países desenvolvidos: a curva descendente pode já ter começado e só numa hipótese, a de crescimento alto, a população irá aumentar.
Por enquanto, o Pib dos Países desenvolvido ultrapassa o dos Países em desenvolvimento. Mas em 2050 a situação será oposta: os Países em desenvolvimento ultrapassarão, e muito, os desenvolvidos.
Ipse dixit.
Fontes: www.eugeniobenetazzo.com, Universidade Federal de Rio de Janeiro, United Nations ESA









0 comentários:
Enviar um comentário