08 dezembro 2010

Estranhos acontecimentos numa ilha longínqua



Uma notícia pequena pequena, muito pequena mesmo, nas edições online dos diários, ao ponto de passar quase despercebida.

Vamos ler:

Economia islandesa cresceu 1,2 por cento, 
depois de sete trimestres consecutivos em queda

A economia da Islândia saiu da recessão no terceiro trimestre do ano, crescendo 1,2 por cento depois de sete trimestres consecutivos em queda, disse esta terça-feira a agência estatal de estatística islandesa.

«Em termos reais, o produto interno bruto (PIB) ajustado sazonalmente aumentou 1,2 por cento no terceiro trimestre, em comparação com o trimestre anterior», disseram em comunicado as estatísticas islandesas, informa a Lusa.

Em comparação com o terceiro trimestre de 2009, ainda assim, o PIB da Islândia manteve-se em queda, contraindo 1,6 por cento.

É ou não é uma boa notícia? Claro que é!
Então porque tão pouco realce?



Talvez porque a Islândia saiu da recessão sem cortar nos serviços, nos salários, nas reformas...


Desvalorização & reestruturação

Depois do começo da grave crise, a ilha teve que encarar a própria dívida pública, mais de seis vezes o Produto Interno Bruto.
O governo pediu ajuda ao Fundo Monetário Internacional e, ao mesmo tempo, desvalorizou a moeda local, a Coroa Islandesa:  duma taxa de câmbio de 70 ISK (Coroa) por Euro até 250 ISK por Euro.

Os parlamentares discutem as medidas
Mas há mais.
O País tem três bancos: Landsbanki, Glitnir e Kaupthing que chegaram a operar com uma exposição de 11 vezes o PIB da ilha. Uma situação avassaladora, claramente impossível de recuperar.

Solução? Reestruturar a dívida. Mas antes disso, ouvir a opinião dos cidadãos.

Isso mesmo: na Islândia houve um referendo (Março de 2010) para pedir aos cidadãos a opinião deles acerca da possibilidade de não reembolsar os titulares das contas estrangeiras com impostos (pagos pelos Islandeses, óbvio) e o Presidente da Islândia, Olafur Ragnar Grímsson, bloqueou um projecto de lei que previa o pagamento de 3,4 bilhões € para os depositantes no Reino Unido.

Realce: estamos a falar de três bancos privados, com filiais em muitos Países.


 WTF???

Ok, ok, percebo, nesta altura a maioria dos leitores estará confusa: mas estamos a falar de quê? Qual planeta? Quem são estes alienígenas? Eu também tive estas dúvidas.

Mas é mesmo verdade: no Velho Continente há um País, chamado Islândia, onde o governo pede aos cidadãos o que fazer com a enorme dívida dos próprios bancos privados.
É o mesmo País que para sair da crise não corta salários, serviços e reformas, mas desvaloriza a própria moeda.
E é sempre o mesmo País que agora saiu da recessão. Não foi sem problemas, houve crise de governo entretanto, os cidadãos não gostaram de algumas escolhas. Mas a Islândia conseguiu.

Não dá para crer, não é?

Deve ser por isso que a notícia não tem destaque: é para evitar traumas para os leitores.

Ipse dixit.

Fonte: Agência Financeira

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