21 dezembro 2010

Fora de controle



O que é um derivativo?

É um contrato definido entre duas partes no qual definem-se pagamentos futuros baseados no comportamento dos preços dum activo de mercado. Em resumo, podemos dizer que um derivativo é um contrato cujo o valor deriva dum outro activo.

Por isso é definido como "derivativo", pois o valor "deriva" de outro bem.

Parece simples. Mas não é.



Um exemplo fácil fácil?

Bruno compra um Título com taxa variável e entrega os interesses à Nuno. Entretanto, Nuno compra um Título com taxa fixa, recebe os interesses variáveis de Bruno e, em contrapartida, entrega-lhe os próprios interesses fixos.

Desta forma Bruno fica na posse dum Título perigoso, pois pode perder valor com o tempo, mas recebe os interesses fixos (seguros) de Nuno.

Nuno recebe os interesses variáveis de Bruno, que como vimos podem perder valor com o tempo, mas fica na posse dum Título cujo valor permanecerá inalterado.

Complicado? Eu avisei. E este é um exemplo banal que trata só dum tipo de derivativo, o Swap. Há muitos outros: Futures, Opção, Forward rate Agreement, Interest Rate Swap, ...

O que interessa aqui é a dimensão dos derivativos: segundo as estimativas, no mundo existem 300 triliões de Dólares de derivativos, 100 dos quais só nos bancos dos Estados Unidos.

Um volume de dinheiro impressionante, até difícil de imaginar.

E, sobretudo, fora de qualquer controle.
Aliás, um controle na verdade existe: é o controle dos bancos.

E se ainda não for clara a importância dos derivativos, é suficiente lembrar que a actual crise nasceu em 2008 com a crise dos subprimes. Que eram derivativos.

Louis Story é uma jornalista do New York Times que estudou o mundo dos derivativos e o que segue é um resumo do seu artigo.

Parece um conto saído dum blog conspiracionista. Mas não é: saiu das páginas do New York Times há poucos dias.

E, como todos os artigos que explicam os lados obscuros da economia ou da finança, foi simplesmente ignorado pelos média.

Normal.

Terça-feira em Manhattan

Na terceira quarta-feira de cada mês, os nove membros duma sociedade de elite de Wall Street reúnem-se no centro de Manhattan.

Os homens têm um objectivo comum: proteger os interesses dos grandes bancos no vasto mercado dos derivativos, um dos mais rentáveis, e polémico, no campos das finanças.
Compartilham também um segredo em comum: os detalhes das reuniões, até as próprias identidades, são estritamente confidenciais.

Provêm de gigantes como JPMorgan Chase, Goldman Sachs e Morgan Stanley: os banqueiros formar um comité poderoso que ajuda a supervisionar a negociação de derivativos, instrumentos que, como os seguros, são usados para cobertura de risco.

Em teoria, este grupo existe para salvaguardar a integridade do mercado multimilionário. Na prática, também defende o predomínio dos grandes bancos.
Os bancos do grupo lutam para impedir a entrada de outros bancos no mercado e também estão a tentar frustrar os esforços para que as informações completas sobre preços e tarifas possam ficar disponíveis gratuitamente.


O óleo de Dan

A influência dos bancos sobre este mercado tem grandes implicações para pequenas e grandes empresas; como a empresa de óleo para aquecimento de Dan Singer, no condado de Westchester, norte de Nova York.

Neste Outono, muitos dos clientes de Singer compram um plano de taxa fixa bloquear o preço do óleo ao longo do Inverno em torno de 3 Dólares por galão. Enquanto o preço ficar acima dos 2,80 Dólares por cada galão, os contratos protegem os proprietários contra o frio que empurra para cima os preços.

Mas Singer pergunta se a própria empresa, a Robison Oil, deve começar um negócio melhor.
Ele utiliza instrumentos financeiros derivativos como os swaps para criar os planos e preços fixos propostos aos clientes; mas não sabe se o preço destes planos poderia ser inferior porque os bancos não divulgam as taxas associadas aos derivativos.

"No final do dia, não sei se o meu preço for justo, nem quanto estão a cobrar-me", diz Singer.


As contribuições eleitorais

O mercado dos derivativos oferece muitos benefícios, como permitir ao Sr. Singer de vender os seus planos de preço fixo sem ter de suportar todos os riscos ligados ao preço do petróleo, que pode subir de repente.

Os derivativos são também um grande negócio em Wall Street.
Os bancos recolhem muitos biliões de Dólares em taxas associadas à estes instrumentos, uma quantidade que quase certamente seria menor se houvesse mais concorrência e preços transparentes.

O tamanho deste mercado tem crescido rapidamente ao longo das últimas duas décadas.

Os fundos de pensão utilizam os derivativos para cobrir os investimentos. Estados e municípios utilizam os derivativos para tentar segurar os custos dos empréstimos. A companhias usam os derivativos para garantir que o preço do combustível fique estável. As empresas de alimentação usam os derivativos fixar os preços de bens como trigo e carne bovina.

Gary Gensler, presidente da Commodity Futures Trading Commission, que regula a maioria dos derivativos, afirma que é necessária mais de supervisão dos bancos neste mercado.

Mas os grandes bancos influenciam as regras que regem os derivativos.

Os legisladores republicanos, muitos dos quais receberam contribuições na campanha eleitoral por parte dos grandes banqueiros que querem influenciar o modo como as regras derivativos são escritas, dizem que planeiam votar contra as reformas anunciadas no sector.

Na passada quinta-feira, a comissão parlamentar cancelou uma votação sobre uma proposta para tornar os preços mais transparentes.

O Departamento de Justiça está a investigar os derivativos também.com unidade antitrust, afirma estar a investigar de forma activa "a possibilidade de práticas anti-competitivas no comércio de derivativos, nas indústrias e nos serviços de informação", segundo quanto referido por um porta-voz.


Os velhos hábitos são duros a morrer

Na verdade, o mercado dos derivativos de hoje faz lembrar alguns especialistas do mercado de acções Nasdaq em 1990.

Naquela época, o Departamento de Justiça descobriu que os criadores do mercado Nasdaq estavam a manobrar secretamente para proteger os próprios lucros.
Na sequência deste escândalo foram introduzidas reformas até no sistemas electrónicos de negociação, com poupanças enormes para os investidores.

"Quando limitamos a participação na governação duma entidade à algumas instituições ou pessoas que tenham interesse em manter os concorrentes de fora, temos o potencial para que aconteçam coisas desagradáveis" diz Robert E. Litan, que ajudou a supervisionar a investigação do Departamento de Justiça acerca do Nasdaq como procurador-geral adjunto. "A história do comércio dos derivativos tem crescido como uma indústria muito concentrada, e os velhos hábitos são duros de quebrar."

Os representantes dos nove bancos que dominam o mercado não quiseram comentar as palavras do Departamento de Investigação da Justiça.

Talvez nenhum negócio da finanças é hoje tão rentável como os derivativos. Não são feitos empréstimos. Não são oferecidos cartões de crédito. Não há consultoria sobre fusões e aquisições.

O montante preciso que os bancos utilizam no comercio dos derivativos não é conhecido, mas há provas empíricas da rentabilidade.

Um antigo trader dum banco, que falou sob condição de anonimato por causa dos acordos de confidencialidade com seus antigos empregadores, disse que o seus banco normalmente ganhava 25.000 Dólares para fornecer 25 milhões Dólares de seguro contra o risco duma empresa entrar em default.

Este trader costumava tratar milhões de Dólares neste tipo de serviço a cada dia.E isso só com os credit swaps,que são apenas um dos muitos tipos de derivativos.


Segredo: o factor chave

O segredo que envolve a negociação dos derivativos é um factor chave que permite que os bancos consigam tais grandes lucros.

Se um investidor negocia acções do Google ou da Coca-Cola ou de qualquer outra empresa em Bolsa, o preço, a comissão, as taxas, são conhecidas.

No comércio electrónico a informação foi tornada disponível a qualquer pessoa com um simples computador; é aumentada a concorrência e os custos foram reduzidos de maneira drástica.

Mesmo os bónus corporativos têm-se tornado mais transparentes nos últimos tempos. Os custos operacionais caíram há quase imediatamente depois dos preços ter-se tornados mais visíveis em 2002.

Não é assim com os derivativos. Para muitos destes, não há nenhuma troca central, como na Bolsa de Nova York ou no Nasdaq, onde os preços dos derivativos são listados. Ao contrário, quando uma empresa ou um investidor quer comprar um derivado de, por exemplo, óleo ou trigo, entra num banco. E tudo acontece no interior do banco.

Os bancos explicam que em muitos casos é preciso trabalhar desta forma porque os derivativos podem ser personalizados, ao contrário das acções. Uma acção do Google é a mesma que qualquer lugar. Mas os termos dum contrato de derivado de petróleo, por exemplo, podem variar muito.

E os lucros na maioria derivativos são mascarados.
Na maioria dos casos, o comprador é avisados apenas com o montante que terá de pagar para o contrato, digamos 25 milhões de Dólares. Esse montante é mais do que o vendedor do derivado recebe, mas quanto mais (5.000 Dólares? 25.000? 50.000?) não se sabe.
Isso porque ao vendedor também é comunicada apenas a quantidade que irá receber.
A diferença entre os dois é o lucro do banco. Assim, quanto maior a diferença, melhor para o banco; e pior para os clientes.

Seria como um agente imobiliário vender uma casa, com o comprador que sabe apenas o que ele pagou e o vendedor apenas quanto recebeu. O agente fica com a diferença como o honorário, sem revela-la.

Mas afinal, quem são estes nove bancos que, de facto, dirigem os mercado dos derivativos, decidem quantos milhões de desempregados criar, quantas pessoas terão que entrar no desespero, quais economias podem ou não podem ir em frente e quais, pelo contrário, deverão ser "castigadas"?


A lista sem surpresas

Os leitores aficionados de Informação Incorrecta provavelmente já imaginaram a lista depois de ter lido o primeiro paragrafo deste artigo. E a lista imaginada está correcta.
Eis os nomes:

JPMorgan Chase & Company
Morgan Stanley
Deutsche Bank
UBS
Barclays
Credit Suisse
Goldman Sachs
Bank of America
Citigroup.

Nenhuma surpresa.
Tudo normal.


Ipse dixit.

Fonte: The New York Times
Tradução e adaptação: Informação Incorrecta

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