22 dezembro 2010

Viver para sempre

Sinto-me confuso hoje, 
parece que as regras mudaram de novo. 
Porque na minha vida tento com fadiga 
fazer tudo para ficar saudável. 
E viverei para sempre, 
cada vez uma nova manhã, 
viver para sempre, 
mais outra manhã.

É Natal: tempo de prendas, de passar o nosso tempo com a família, no calor das nossas casas.
É tempo de ser melhores e generosos.
Vamos falar de morte.



Escreve Mescar num comentário acerca do artigo O regresso do Armageddon:
Hoje ninguém mais pode morrer
Verdade. Acho isso uma profunda verdade.

A morte faz parte da nossa vida: todos, cedo ou tarde, teremos que morrer. Pelo menos, do ponto de vista estatístico até hoje sempre foi assim.
E sem morte, que seria da vida? Imaginem de viver num planeta onde ninguém morre: passadas algumas centenas de anos nem haveria lugar para ficar em pé.

Mesmo assim, nada na nossa sociedade fala da morte.
Que fique claro: ninguém aqui quer implementar uma "cultura da morte".
Eu também irei morrer (acho) e a ideia não me agrada, nada mesmo.

Além disso, enquanto estivermos vivos, acho muito bem dedicar o nosso tempo às coisas terrenas.
Logo após o terramoto de Lisboa de 1755, o Marques de Pombal disse Enterram-se os mortos e cuidam-se os vivos.
Justo.
 
Mas não há possibilidade de escolha: cedo ou tarde acontecerá. Por isso porque ignorar o assunto?
Porque não preparar-se para que a altura não seja uma tragédia mas um facto natural?

No Hinduísmo e no Skhismo a morte não é vista como o fim, mas como uma passagem: a alma abandona um corpo já velho para habitar um corpo novo. Por isso a morte representa um momento menos dramático.

Oiço na rádio,
demasiado do que dizem não é verdade,
e agora temos que fazer estas coisas,
que antes estavam erradas,
para ficar saudáveis e fortes.
E viver para sempre,
cada vez mais uma manhã,
viver para sempre,
mais uma manhã

Estou a fazer filosofia de treta? Pode ser.
Mas olhamos para a nossa sociedade.

As ruas, os média, estão repletos de publicidade para que cada um de nós possa ficar fisicamente melhor: até para adiar o passo final.

Alguma vez viram uma publicidade que convidasse a enfrentar a morte com serenidade?  Não, não existe.
E porquê? Porque os mortos não consomem. Eis o grande problemas deles.

A morte não dá lucros. Sim, há o negócio dos caixões, dos enredos fúnebres, dos seguros, como vimos no artigo anterior. Mas reparem: todos tratam a pessoa como objecto, nunca como sujeito. Até estes aspectos finais desfrutam o corpo, não tratam da maneira como a pessoa encarou a morte.

Mescar:
Querem nos convencer que sem medicamentos tomados diariamente não podemos viver.
Eis o ponto. Uma pessoa pode representar um lucro só antes de morrer, e nesta altura pode ser explorado enquanto consumidor. Depois, já não pode consumir nada, então para que tratar do assunto?


Sei que ninguém precisa disso,
sei que ninguém acredita nisso,
não temos a resposta,
pensamos saber
o que realmente importa,
o que realmente querem é governar as nossas vidas


Resultado: ninguém está preparado para a morte.

A nossa convicção é que temos de fazer tudo para evitar abandonar este mundo.

Ideia correcta, claro, mas que pode esconder atitudes perversas: como embutir-se de medicamentos que afinal pioram o nosso nível de vida.

O que preferem?
Viver até 80 anos com uma vida saudável, relativamente autónoma, podendo desfrutar das coisas boas da vida; ou chegar aos 120, totalmente incapazes de pensar?

Ou até viver para sempre?
Penso que mudarei a minha vida hoje
já foram todos os cuidados,
não preciso duma razão,
porque a única razão é sobreviver ainda um dia de forma certa
Ou apenas até amanhã.
Ainda um amanhã,
viver para sempre,
realmente desejamos viver para sempre?

A nossa sociedade, assim atenta a qualquer nossa necessidade ou alegada tal, abandona-nos numa das alturas mais delicadas: o momento da morte. Ficamos assim sozinhos, com os nossos medos e as nossas dúvidas.

"Incorrecto" é o mínimo que podemos dizer.


Ipse dixit.


Nota: As letras pertencem aos Genesis, "Living Forever". O leitor pode não concordar com o que escrevi, pode criticar a minha pessoa e até a minha família; mas NUNCA pode criticar os Genesis :)

Fotografias: Cemitério Monumental de Staglieno, Genova, Italia.

2 comentários:

  1. NunoSav22.12.10

    Man... o blog hoje está profundo!!!!!! Os dois temas mais controversos, para mim, ainda por decifrar, a vida de Jesus e morte ou o que a ela se segue.

    Quanto a Jesus acho que se o Vaticano abrisse as portas da sua biblioteca muitas dúvidas iam "porta fora", não só em relação à sua vida mas história da humanidade, conhecimentos esotéricos, etc.

    No que toca à morte a solução parece ser DMT, com os relatos de quem morreu e voltou com os de quem experimentou DMT, parece haver uma simetria. Nada como ouvir Terence Mckenna sobre o tema. Em Janeiro já recebo a minha cópia do "DMT - The Spirit Molecule", vai ser uma leitura interessante!

    http://www.youtube.com/watch?v=xtnz2O4Chfw

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  2. Pois Nuno, blog profundo hoje: chuva, céu escuro, frio, está tudo tão cinzento!

    Eu fiquei sempre interessado acerca da vida de Jesus, da realidade histórica entendo: há muito pouco, além dos Evangelhos, claro. E acho que poderiam não faltar surpresas.

    E também o assunto vida após morte é espectacular. Alguns fazem notar que o mundo imaginado por Dante Alighieri na sua Divina Comédia, faz lembrar o "corredor" com no fundo a Luz que os testemunhos DMT descrevem.

    Mesmo assim, espero ter de experimentar quanto mais tarde possível...

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