17 janeiro 2011

As apostas do Dragão



Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha...O que têm em comum estes Países?

Resposta óbvia: fazem partes dos PIGS, Países europeus com graves dificuldades económico-financeiras.
Resposta menos óbvia: são Países europeus que, após o começo da crise, concluíram acordos com a China para aliviar a própria posição económico-financeira.

Após ter acumulado grandes reservas de dívida pública dos Estados Unidos, a China começa a olhar em direcções diferentes. Por duas razões: a diversificação das reservas (o portfolio), pois não pode investir apenas na dívida pública dos EUA, e as oportunidades que surgem.

Por causa da crise, a dívida pública dos PIGS tem um alto rendimento e o Euro não está nos seus dias melhores. Eis que aparecem os Chineses: compram a dívida e obtêm quatro efeitos positivos.




Uma aposta, quatro resultados

1. Se as compras chinesas forem durante a crise, como acontece quando os investidores forem poucos, o poder de negociação é considerável. Podem, como no caso grego, pedir em troca a utilização do porto de Pireu e pedir para que os navios sejam comprados na China.


2. Se tudo correr bem, no sentido de que a dívida pública desses Países seja reembolsada, o lucro dos Chineses é um rendimento muito elevado.

Se no período entre a aquisição e o reembolso da dívida ocorressem uma ou mais crises com consequentes quedas dos preços das obrigações, aos Chineses nada aconteceria, pois eles contabilizam o custo e não o preço de mercado.


3. Ao comprar a dívida europeia, os Chineses estão a "empurrar" a procura do Euro.

E atenção: o câmbio entre a moeda chinesa, o Yuan, e o Dólar é fixo.
Se o Dólar enfraquece em relação ao Euro, a moeda chinesa também enfraquece frente ao Euro. O câmbio é importante para a exportação da China, cujas empresas trabalham com margens baixas, de modo que  pequenas variações nos preços da exportação são suficientes para provocar equilíbrio ou perdas.

Com um Yuan mais fraco, as exportações chinesas para Europa são facilitadas, pois as mercadorias de Pequim custam menos.


4. Em qualquer caso, Pequim diversifica as reservas monetárias.

Se tudo acabar bem, isso significa que na Europa houve apenas uma "crise de liquidez". Como uma pessoa que ao longo dum período limitado tem problemas de caixa, mas tem boas perspectivas de encontrar trabalho e, portanto, de reembolsar os credores. Por isso continua a ser "solvente".


Todavia, existe a "crise de insolvência": a pessoa do exemplo anterior não consegue encontrar trabalho e não pode pagar a dívidas.

Os Países em crise de liquidez ficam melhor ao receber auxílio financeiro e, eventualmente, podem ficar solventes: isso é, conseguem pagar as próprias dívidas..
Os Países podem, no entanto, não ficar melhores e, eventualmente, não poder pagar a totalidade ou parte da dívida.


 Win-win situation...

Quase sempre a dívida dos Estados em crise tem sido amplamente reembolsada. Assim, o risco real é o dum reembolso parcial.

Os Chineses podem fazer "bingo", desde que estes Países paguem as dívidas: Pequim obtém licenças e contratos, Títulos de Estado com altos rendimentos, mantém o próprio câmbio competitivo e diversifica os investimentos.

O que aconteceria, no entanto, se a aposta fosse errada, ou seja, se os Países europeus não pagassem a dívida?

Pequim teria Títulos em parte não rentáveis, e um câmbio com o Euro que, por um período mais longo ou mais curto, enfraquece em relação ao Dólar, e, portanto, também a moeda chinesa ficaria prejudicada. Sobram, no entanto, as licenças e os contratos.

Se pensarmos que estas licenças e contratos nunca teriam sido obtidos em condições normais, com uma Europa fora da crise, então podemos compreender o significado do desafio chinês.

Aqueles contractos produzem décadas de rendimentos que poderiam reduzir a eventual perda com a dívida dos Países europeus.

No pior dos casos, os Chineses podem perder um pouco, no caso melhor podem fazer "bingo". O desafio é, portanto, racional, pois estamos perante uma condição que os Americanos definem como win-win situation: ganha-se sempre.


...e o futuro.

Mas há mais. Este  raciocínio foi realizado sob a condição de coeteris paribus, o que significa que nada muda no resto do mundo. Agora removemos esta condição.

A dívida dos EUA não está nada bem. A China tem repetidamente afirmado de estar consciente disso. O investimento na Europa em dificuldades, então, não é apenas uma diversificação do investimento dos Estados Unidos.

É um investimento numa área (Europa) onde as dificuldades emergiram, o que deve ser considerado em relação a um investimento numa área (Estados Unidos) cujas dificuldades, mais cedo ou mais tarde, irão emergir.


Ipse dixit.

Fonte: Limes

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