21 janeiro 2011

Bienvenidos a Bolivia



Cochabamba, Bolívia. No dia 22 de Janeiro de 2006, o recém-eleito presidente Evo Morales fez um desfile exuberante pelas ruas de La Paz, para juntar-se à multidão de simpatizantes que aguardavam na Plaza de los Héroes. O escritor uruguaio Eduardo Galeano anunciou exultante que este acontecimento histórico marcava "o fim do medo". O Vice-Presidente Alvaro Garcia, gritou que, com o novo governo, os Bolivianos pobres ganhavam iguais oportunidades.

E o Presidente Morales declarou: "O nosso trabalho é terminar a obra de Che Guevara!".

Foi um dia de sucesso, o Países mais pobre da América do Sul finalmente ressuscitado depois de séculos de ditadura oligárquica: tinha sido eleito um "dos seus", o primeiro chefe indígena após 500 anos.

Morales não foi apenas o líder da coragem e da vida que tinha sido quebrada: foi também um promotor do desenvolvimento, da indústria e da modernização.

E aqui começam os problemas.




Progressismo

Reivindicar como um "direito humano" o acesso à rede sem fio Universal Broadband Banda Anchal pode até ser uma boa ideia: mas quando os cientistas avisam que a radiação pode causar insónia, perturbações do sistema nervoso, depressão, câncer, defeitos genéticos e cardiovasculares, queda imunológica e outras questões relacionadas à saúde, então pode valer a pena parar e pensar um pouco.

Também a exploração do lítio pode representar uma mais valia para o País; mas imaginar que empresas multinacionais como a Mitsubishi possam ter cuidados com o ambiente é irrealista.

E se a consequente e inevitável contaminação de ar, água e solo através de perdas, derramamentos e emissões alarmam as comunidades tradicionais, também neste caso seria oportuno reflectir na própria estratégia.

Construir barragens hidroeléctricas multimilionárias e deslocar por isso aldeias inteiras; "empurrar" a industria dos hidrocarbonetos; edificar um super aeroporto internacional que aumentará a contaminação tóxica; assinar contractos com empresas estrangeiras para a exploração dos recursos de mineração (além do lítio, claro) sem pretender rigorosos estudos de impacto e medidas de protecção; tudo isso tem custos ambientais.

E são os custos piores, pois muitas vezes não são imediatos mas persistentes ao longo do tempo; e comprometem o futuros das próximas gerações.

Por isso espanta a noticia do novo projecto, cujos trabalhos já começaram: uma autoestrada de 300 km que vai rasgar uma reserva florestal nacional, atropelando pelo menos 11 espécies animais em risco de extinção e 60 comunidades indígenas algumas das quais são as últimas a usar os métodos dos caçadores-colectores para sobreviver.


A tribo e o motel

A autoestrada Villa Tunari-San Ignacio de Moxos promete criar um desastre ambiental, com o desenvolvimento de motéis, postos de gasolina e centros de entretenimento, tudo isso para não mencionar as evidencias históricas de que as grandes vias industriais aumentam o desenvolvimento da prostituição e do tráfico de drogas, que na Bolívia já representam um problema.

As comunidades locais estão a protestar contra esse projecto, exigem a autonomia e o poder de decisão que o presidente Morales tinha prometido.

Mas, como realça o cientista político Langdon Winner em Autonomous Technology: Technics as a Theme in Political Thought a tecnologia de construção, que sempre vem da vontade política e sempre tem efeitos políticos, escapa do processo democrático, porque é vista como um aspecto inevitável do "progresso".

Apesar das suas origem Aymará, ao que parece, Evo Morales foi capturado por essa fantasia "progressista".

A verdade sobre a onda de modernização tecnológica da Bolívia é esta: enquanto tais medidas poderiam ter aparecido como instrumento de defesa em Cuba, na década dos anos '60, contra os ataques dos Estados Unidos, hoje para os ecologistas, ambientalistas e activistas dos movimentos sociais, mas também para que ali mora, o desenvolvimento baseado na exploração/ ampliação não pode ser uma saída.


O Che na autoestrada

Em meados do século XX, o filósofo americano Lewis Mumford e o sociólogo francês Jacques Ellul foram entre os primeiros a realizar uma análise sistémica da sociedade tecnológica, afirmando que a Máquina já se tinha tornado num modelo que infiltrava-se em cada pensamento, acção, arquitectura ou instituição.

Esta intuição forte foi depois suportadas por outros estudiosos como o cientista político Winnder Langdon, o físico Vandana Shiva, o historiador Kirkpatrick Sale, o bucólico poeta Wendell Berry, o activista Gustavo Esteva: todos de acordo acerca da disfunção na tecnologia e na sociedade das mega-máquinas.

O presidente Morales não faz uso destes pontos de vista que, curiosamente, partilham a sua crítica do capitalismo e da civilização dominante, bem como o respeito do sentido tradicional das culturas indígenas.

Não acaso Marcela Olivera, irmã de Oscar Olivera, lider da Guerra da Águia Cochabamba, afirma conhecer dois Morales: um que faz uma afirmações ecológicas internacionais e outro, em casa, que apoia as barragens, o urânio, as escavações e as mega-rodovias.

Preso nestas contradições, em Agosto de 2010, o Ministro do Meio Ambiente, Juan Pablo Ramos, pediu demissão por razões de "consciência".

A ironia é que o presidente Morales é apoiado por activistas em todo o mundo como um pseudo Che Guevara moderno.

Um Che Guevara na autoestrada pavimentada com as fantasias dum Estado do passado. 


Fonte: Culture Change
Tradução e adaptação: Informação Incorrecta

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