06 janeiro 2011

O Brasil refúgio dos terroristas?

A decisão do ex-Presidente Lula de não extraditar Cesare Battisti começa a trazer as primeiras consequências.

O Parlamento italiano é intencionado a congelar os acordos assinados com o Brasil no passado Abril, acordos que prevêem o fornecimento de armas italianas ao País Sul Americano.

O facto do Presidente do Supremo Tribunal Federal (Stf), Cezar Peluso, ter ordenado a reabertura do dossier Battisti não é suficiente para que as relações possam voltar à normalidade. E, embora o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Franco Frattini, realce como o contrato permaneça em vigor, no Parlamento maioria e oposição alcançaram um acordo para travar a venda.

De facto, a Italia encontra-se agora numa situação delicada: dum lado oficialmente recusa o terrorismo, doutro lado está a manter acordos económicos em matéria de armas com um País que constitui um refúgio para terroristas.

Mas porque Lula decidiu proteger um homem culpado de matar durante a vaga terrorista que atingiu a Italia nas décadas ´70 e '80?

A razão é que Lula, óptimo no plano internacional até hoje, permanece um homem de Esquerda. Aliás: da Esquerda Comunista. E como Battisti também pertence à mesma área, é claro como a escolha do presidente nada teve a ver com motivações humanitárias mas com razões políticas: ao que parece, um Comunista não condena um outro Comunista, assim como um Fascista tenderá sempre a proteger um "dos seus".

É triste observar que em nome dum ideal político seja possível cometer os crimes mais violentos.
É triste observar blogues e comentadores brasileiros que agarram-se aos aspectos jurídicos da questão e ignoram os morais.
É triste observar como estes comentadores tenham que recorrer a lugares comuns, frases feitas, ofensas gratuitas para denegrir um País que pede que um terrorista pague pelos seus crimes.
É triste observar como sempre estes comentadores tentem rescrever a história dum País que desconhecem ou que conhecem só com recortes dos jornais para justificar o sucedido.

É triste observar como a fé política possa obcecar a razão.

Mas, doutro lado, se assim não fosse não seria fé, seria lógica e raciocínio.

No plano geopolítico é claro que o Brasil escolheu um rumo, sobretudo se será confirmado pela actual Presidente, Dilma Rousseff. Um rumo esquisito, sem dúvida.

Numa altura em que ex-potências comunistas procuram sair do constrangedor dualismo Comunismo-Capitalismo, abrindo ao livre mercado mas mantendo características muito próprias, tanto de constituir uma futura alternativa ao predomínio dos Estados Unidos, o Brasil escolhe engrenar a marcha atrás: Comunismo afinal é bom.

Claro, ninguém está a espera de ver surgir um novo regime cubano. Mas a direcção é pintada da mesma cor.

Acho ser esta uma escolha com um grande senão: ao abraçar a causa Comunista, o Brasil arrisca ver diminuída a própria credibilidade no plano internacional. Aquela credibilidade que o mesmo Lula conseguiu não sem fadiga e muito empenho.

Um Brasil equiparado à Venezuela ou à mesma Cuba não pode desenvolver um papel significativo na diplomacia internacional por causa das próprias bases ideológicas, auto-limitativas.

Isso traz também consequências na política da área Sul-Americana.
Ao conotar-se como força neo-comunista, o Brasil perde poder de agregação em relação aos outros Países do continente. Mas este poder seria fundamental na constituição duma real alternativa ao domínio norte-americano, bem exemplificado pela situação da Colômbia.


Nada de novo debaixo do sol.
Aliás, algo de novo há: pela primeira vez após anos, governo e oposição italianos estão em sintonia, pois também os partidos de Esquerda condenam a decisão do ex-presidente. É obra.

Quanto a mim, repito o que já disse: lamento que um pluri-assassino não pague pelos seus crimes, mas se o Brasil gosta tanto de Battisti, afinal que fique com ele. Já temos muitos problemas aqui na Europa, ninguém vai sentir falta dum terrorista.

E com isso fecho o meu pessoal dossier Battisti: acabe como acabe o novo processo decidido pelo STF, no mundo há coisas bem mais importantes do que ideologias politicas mortas e terroristas derrotados pela democracia.
Que, por quantos defeitos possa ter (e tem muitos, de facto), será sempre melhor de qualquer regime comunista.


Fotografias: algumas das heróicas empresas dos terroristas vermelhos na Italia da década '70.


Ipse dixit.


Fonte: La Repubblica

4 comentários:

  1. É uma opinião interessante. Apesar de eu acreditar que quiça ele possa ser inocente de assassinato (mas não de militonto), dado aos fatos da delação premiada paga a todos os outros integrantes, que acusam Battisti em uníssono. Acho bastante estranho isto, mas bem, não posso negar que não passa de um "acho". Mas mesmo assim, gostei muito de seu ponto de vista.

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  2. Obrigado Tony!

    Como bem afirmado: o meu é um ponto de vista.
    Ninguém tem provas nesta história e todos estamos a especular acerca de informações divulgadas pelos média ou veiculada por movimentos políticos.

    O que torna tudo ainda mais complicado.

    Um abraço!

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  3. Pedro Paulo7.1.11

    Não acho que a razão da permanência de Battisti no Brasil se deva ao posicionamento político de Lula. Primeiro porque ele nunca foi comunista. Pelas políticas sociais acho que é lícito e merecido considerá-lo de esquerda, porém do ponto de vista econômico ele se posiciona no mínimo ao centro do espectro.

    Tenho comigo que essa decisão seja imposta por setores mais radicais do PT, anteriormente ligados a ações revolucionárias contra a ditadura e que eventualmente o vejam espelhar seu passado. Nesse caso poderíamos até contar o seu aliado Zé Dirceu.

    Alternativamente não podemos descartar a mistura do ingrediente acima com o estímulo financeiro, mas não sei sei a extensão das posses materiais de Battisti para comprar tal aliança (não de Lula, mas de quadros do partido que pudessem influenciar sua decisão).

    Hipóteses. A verdade?

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  4. Olá Pedro Paulo.

    Justa observação. Em boa verdade Lula foi pressionado, da mesma forma como Dilma será pressionada (embora acredito que não será preciso pressionar tanto o novo Presidente).

    Para não dedicar demasiado espaço ao assunto, escolhi não distinguir entre Lula e os colaboradores de Lula; que encontrei várias vezes citados e que com certeza tiveram um papel na escolha.

    Uma questão de espaço, mas também de princípio: seja de quem for a ideia, afinal é o chefe que manda e toma as decisões finais.

    E neste caso foi Lula. O qual, mesmo não pertencendo à área radical da Esquerda, decidiu apoiar uma posição em favor dum (declarado) Comunista combatente.

    Concordo plenamente acerca da ideia dos passados "espelhados" na figura de Battisti. Aliás, é mesmo este o principal erro de quem apoia o terrorista italiano: não é possível fazer uma comparação entre o regime ditatorial vivido pelos Brasileiros e a realidade italiana dos anos '70 e '80.

    Em Italia havia livres eleições, tal como em qualquer outro País europeu. Ao apoiar o terrorismo de Esquerda em Italia, temos portanto de apoiar todos os outros terroristas do Continente da mesma altura, como a RAF (Rote Armee Fraktion) da Alemanha.

    O problema é que Estes grupos terrorista de Esquerda tinham ligações com o KGB, da mesma forma como a CIA ajudava o terrorismo fascista.

    Na prática, quem defende Battisti por razões ideológicas omite referir o contexto histórico, feito de duas potências (EUA e URSS) que utilizavam os mesmos métodos.

    Eu recuso o terrorismo em absoluto, e acho que não existe uma ideologia qualquer que possa justificar a sua existência.

    Abraço!

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