E finalmente voltamos a falar de economia.
Os Títulos de Estados (Bonds), sejam eles americanos, britânicos, portugueses ou japoneses são todos na corda bamba e podem flutuar de forma ampla em qualquer altura.
Mas alguns deles agora estão em sofrimento por causa do esforço conjunto para ajudar os Países "periféricos" em risco, a qualquer custo. É preciso "fazer muro", as fendas têm que ser tapadas depressa, não são admitidas falhas: o que os Países (mas seria melhor dizer "os bancos") perceberam é que se uma falha persistir, então pode cair tudo.
O castelo e o hamburger
Tudo o castelo das dívidas, toda a arquitectura baseada na dinheiro virtual (e nada mais do que virtual), todo o mercado construído sobre os produtos financeiros "ousados" (tanto para utilizar um eufemismo), tudo isso ruiria, deixando à vista uma realidade nua e crua: muitos Países estão tecnicamente falidos, alguns deles até de grande porte (muito grande!); os mercados já não têm algum relacionamento com a economia real; os bancos baseiam o próprio poder sobre dinheiro virtual, pois o dinheiro real...já, onde está o dinheiro real?
Mas vamos em frente, agora o assunto é outro.
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| O Bond mais valioso... |
Os bond de 5 anos da Bayer são menos rentáveis dos Bund, os Títulos de Estado alemães. O mercado confia mais na Bayer do que no Estado da Alemanha. E na América isso acontece com a Coca-Cola, Microsoft, Dupont ou McDonald's.
As multinacionais tornaram-se mais seguras do que os Estados soberanos. Os Títulos seguros, agora, são os de quem prepara hamburger, refrigerantes, não são os do Estado.
Porquê?
Não é difícil perceber a razão.
A impressora. Sempre a impressora.
Desta semana é a notícia que o Japão comprará 20% do próximo leilão dos Bonds portugueses.
Sim senhor, o Japão: o País com a maior dívida pública do planeta, financiada com a impressão de nova moeda, vai adquirir a dívida dum Estado perto da bancarrota.
Como?Imprimindo outra moeda!
A ideia deve ser algo do tipo "Bom, já que vamos imprimir para a nossa dívida, tanto faz imprimir um pouco mais para a dívida portuguesa".
Diz o cego ao surdo: "Vejo-te bem hoje!". O conceito é parecido.
Depois ficamos pasmados se uma empresa que produz comida de plástico merece a confiança dos investidores, mais de quanto acontece com um Estado.
Depois ficamos pasmados se o ouro ultrapassa os 1.100 € por cada onça.
A situação é a seguinte:
- a Federal Reserve (o banco central dos Estados Unidos) imprime moeda para comprar Bonds americanos e para financiar a Europa, que tem de adquirir a dívida dos Estados mais desgraçados;
- o BCE (Banco Central Europeu) imprime moeda e compra de forma directa e indirecta (pois não pode, em linha teórica) os Bonds dos Estados europeus. E, além disso, adquire também parte dos Bonds japoneses;
- Japão e China imprimem moeda para comprar Bonds de Portugal, da Grécia, da Espanha, da Irlanda.
Resumindo: quanto pode valer um Bond nestas condições? Quem confia em Bonds assim?
O triunfo da globalização
Portanto, hoje todos os Estados imprimem dinheiro para adquiri reciprocamente Bonds e impedir o aparecimento de qualquer fenda em qualquer lugar do mundo instantaneamente.
Assim, o mercado financeiro global é realmente "global". Se calhar não é este o modelo que tinham na mente os teóricos da globalização: mas este, até a data, parece ser o resultado mais espectacular.
Uma fenda, se calhar num pequeno País, com um pequeno PIB, igual ao da Nestlé, como é o caso de Portugal?
Eis que o problema torna-se mundial, dos quatro cantos do mundo intervêm todos em socorro: milhões japoneses, milhões americanos, milhões chineses para salvar quem?10 milhões de Portugueses? 12 milhões de Gregos? Nem por isso.
Para salvar os bancos europeus (que a bem ver são também os bancos americanos, e japoneses...) e, em mínima parte, os Estados (sem um cêntimo).
Esta solidariedade é heróica, sem dúvida; e serve para manter o tal "castelo" de pé ao longo de alguns tempos ainda.
O problema é que os bancos fadigam, e muito; os CDS (apostas acerca da bancarrota) deles triplicaram no último ano.
Porque esta dívida pública podre pode ser movida, deslocada, disfarçada; podes mostrar que China e Japão até gostam dela, ao ponto de gastar dinheiro por ela; e os bancos (obrigados) também.
Mas afinal, estes raios de Títulos gregso, portugueses, irlandeses sempre ali estão: teimam em não desaparecer.
Ipse dixit.


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