31 janeiro 2011

O gatilho



As revoltas da Tunísia, da Argélia ou do Egipto tiveram todas um "gatilho" em comum: a subida dos preços dos alimentos.

Pois, de facto, os preços dos alimentos estão a subir para níveis perigosos.
Um sinal de alerta é o preço de produtos como milho, trigo e arroz. Os preços subiram em 2010, mais 26 por cento entre Junho e Novembro de acordo com o Food Price Index da Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas.

O que atinge os Países pobres que importam boa parte dos alimentos.




A China, o porco e a algas

Os altos preços penalizam os pobres, que já gastam metade da própria renda em alimentos. Na Índia, onde o custo das cebolas, no passado, levou à derrubada de governos, os preços deste bem disparou mais uma vez.

Para a maioria dos grandes Países, os preços dos alimentos são um assunto interno. Apenas 12 por cento dos cereais produzidos são comercializados através das fronteiras.
Nos Países que cultivam os próprios, como a China, a Rússia e a Índia, os compradores muitas vezes pagam preços fixados pelo governo, preços que têm pouca ligação com os mercados globais.

No entanto, essas nações estão em sofrimento também.

A China, apesar de recorrer ao mercado global apenas por causa da soja, está preocupada com o aumento dos preços de produtos tão diversos como carne de porco e algas.
Na Índia, um quinto da população é subnutrida, de acordo com as Nações Unidas.
Ambos os Países têm os próprios problemas; por exemplo, na Índia as infra-estrutura são péssimas, um terço da produção desaparece antes de chegar ao mercado.

Mas algo é certo, o problema está a piorar.


Escassez? Nem por isso.

Não é a escassez. Verdade, a demanda do grão por exemplo está em aumento com uma taxa que será de 2 por cento em 2011, e a produção pode cair 4 por cento.

Mas as reservas de grão ultrapassam em 17 por cento o consumo total, por isso não estamos perante uma falta.

Nem as principais tendências demográficas, nem uma mudança nos hábitos alimentares dos Países em desenvolvimento são o problema.

Essa demanda extra pode tornar o mundo um pouco mais propenso para as crises, mas ao mesmo tempo mais produtivo, e os métodos de agricultura mecanizada de China, Índia e África têm o potencial para ultrapassar a questão.

A verdadeira causa: o dinheiro

A principal causa parece ser: muito dinheiro.

Os governos têm efectivamente imprimido quantias astronómicas de notas para ajudar a economia.
Pois: a retoma, a tão esperada retoma.
Os vários Quantitative Easing, não apenas americanos, têm custos que vão muito além do imediato: são custos que aparecem no médio e longo prazo.

Um bom exemplo de efeito colateral é a especulação: os investidores desfrutam em medida maior o sector da comida à procura de investimentos rentáveis.


Biocombustíveis & C.

Para os preços elevados provocar uma crise são precisas duas coisas.

Primeiro, uma resposta política míope. Os produtores de alimentos, muitas vezes proíbem as exportações ao aparecer o medo da escassez ou quando aumentos de preços estão a chegar.

Às vezes têm razão para se preocupar. As recentes secas da Rússia causaram um genuíno défice de trigo. E a Índia proibiu a exportação de cebola para resolver os últimos reais problemas.

Mas a Índia também introduziu uma proibição na exportação de arroz em 2007, quando ainda tinha um superávit considerável, contribuindo para que o preço mundial atingisse o dobro do valor.

Até 2008, mais de 30 Países tiveram algum tipo de restrição deste tipo. Restrições nas exportações muitas vezes causam "bolhas" no estrangeiro, mas também impedem que os agricultores locais possam beneficiar da alta dos preços.

O segundo ponto é o preço do petróleo.

Isso aumenta os custos de transporte dos alimentos. Mas também encoraja os políticos a desviar grãos para obter biocombustíveis, que tornam-se competitivos quando o petróleo atinge 60 Dólares o barril.

O preço médio esperado do petróleo em 2011 é 84 Dólares/barril, de acordo com uma pesquisa da Reuters.
Os Estados Unidos, que fornecem dois terços das exportações mundiais de milho, desviaram enormes quantidades de produtos agrícola para a produção de biocombustíveis no período que antecedeu a crise de 2008, provocando 70 por cento do aumento do preço do milho, de acordo com o Fundo Monetário Internacional.

A conta filha desta distorção foi passada directamente para os pobres do mundo.

Os motins da fome em 2011 são possíveis, mas não inevitáveis.
Sim, o mundo terá que habituar-se aos "sustos" alimentares por causa da população que aumenta e para que as dietas dos pobres possam ficar mais ricas.
Mas a altura em que a humanidade ultrapassa as capacidades do planeta ainda não chegou.

Felizmente.


Ipse dixit.

Fonte: The New York Times

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