24 janeiro 2011

O Sul América e o risco inflação

Sul América: o crescimento económico é um lado da moeda. O outro é a inflação crescente em toda a região, bombeada por uma politica expansionista de tipo keynesiano.

Pronto, acabou o post.
Demasiado curto?
Ok, vamos analisar alguns dos acontecimentos. Mesmo porque hoje sinto-me bom.

A grande quantidade de moeda que chega do estrangeiro provoca o fenómeno da super-valorização da moeda nacional, o que os economistas chamam de "síndrome holandesa".

É perigosa? Em princípio não é mortal. Mas pode tornar-se muito grave se subestimada.

A inflação esperada é de 3% no México e no Chile, 3,2% no Equador, 3,5% na Bolívia, 4,8% no Brasil (ahiahiahi!), até 31% na Venezuela. Quanto à Argentina, os números oficiais falam de 10-12%, mas todos os observadores concordam num outro valor: 25%.



Não é um problema apenas do Sul América, e seria oportuno gastar algumas palavras sobre a "naturalidade" desta inflação: a tendência está a atravessar todo o planeta, incendiou o Norte da África, causando a queda da do Presidente Bel Ali na Tunísia, além de desencadear uma bizarra "Guerra das Cebolas" entre Índia e Paquistão.

Mas voltamos a falar do continente americano, lado meridional.


Equador: primeiros sinais

Já no passado Setembro surgiram alguns problemas no Equador: o Presidente Correa, na tentativa de travar a despesa pública, aplicou medidas que foram muito mal recebidas.

Correa enfrentou os manifestantes, com o resultado de ficar encurralado num hospital do qual foi resgatado só com a intervenção das forças especiais. Resultado: 8 mortos e 274 feridos.

O Presidente não apreciou, falou de um "golpe" por parte da oposição e a seguir foram feitas várias detenções.

Mas um certo desconforto surgiu em outros pontos do continente. E a inflação ganhou cada vez mais o centro das atenções.


A Bolívia e os carburantes

Evo Morales, Presidente da Bolívia, tinha já enfrentado o problema em 2008: convencido que a inflação fosse um temporário "choque", tinha prosseguido com as medidas de estimulo. E, de facto, conseguiu que a percentagem recuasse no valor de 0,8%. Não muito, mas sempre recuo foi.

Mas no Natal passado, ao tentar suprimir os subsídios para os carburantes, acabou por provocar uma subida de 73% da gasolina, 57% da gasolina especial e 82% do diesel. Não foi uma boa ideia: 15 feridos durante as manifestações.

No entanto, não foi uma revolta generalizada e provavelmente não causou danos piores porque o governo simplesmente não teve a coragem de usar a força. lutar contra o crime desse tipo. Reconheceu Morales:
Se não fosse Presidente, também participaria. Não posso governar contra o povo.
Boa palavras.

No dia 03 de Janeiro já havia retirado as medidas, mas o preço subsidiado do combustível permanece insustentável. Mau sinal para o Morales: bandeiras venezuelanas foram queimadas pelos manifestantes.


 Venezuela: aumentar ou não aumentar?

Na Venezuela, a inflação também desempenhou um papel na derrota eleitoral do partido de Chávez. Depois de ter obtido em Dezembro o poder de aumentar o IVA, em Janeiro revogou a medida.

Por outro lado, aboliu um sistema de dupla taxa de câmbio que deveria ter facilitado as importações de bens essenciais e que, pelo contrário, desapareceram das lojas.

Também vetou uma lei sobre a Universidade aprovado pela Assembleia Nacional e contestada pela oposição, e prometeu que não irá usar os poderes especiais por mais de cinco meses.

Supõe-se que a insatisfação com os preços pese nesta aparente evolução: com as criticas do Secretário da Osa, Insulza, existe uma ameaça de sanções no Congresso em Washington, o que poderia agravar de forma radical a situação económica do País.


A Argentina escolhe notas pequenas

Os problemas da Argentina fazem lembrar um passado perturbador.

Em 2001 tinham sido os chamados patacones, vales que a maioria das províncias foram forçadas a introduzir para pagar o funcionários, a anunciar a dramática crise vivida pelo boom em Buenos Aires com o regime de câmbio fixo estabelecido na altura de Menem e continuado pelo sucessor De la Rua.

Dez anos depois, na Argentina, o dinheiro começa a desaparecer de circulação outra vez.
Um fenómeno devido a diversas causas, para o qual a solução tentada é a seguinte: não tendo ferramentas próprias adequadas, o Banco Central da Argentina solicitou à "Casa da Moeda" brasileira três biliões de Pesos, equivalente a 754 milhões de Dólares, em notas de 100, além dos 10 biliões solicitados no mês passado.

Em 1991, a Argentina encontrava-se atrelada a um sistema de paridade com o Dólar, o que deu aos Argentinos um poder de compra forte, mas que afectou negativamente as exportações, e só podia ser financiado com as privatizações.

Privatizado tudo o que era possível privatizar, a falta de moeda fez desaparecer os meios de pagamento.

Após o paliativo dos vales, o Ministro Domingo Cavallo, o impulsionador do sistema de paridade, tentou proibir aos Argentinos de retirar dinheiro dos bancos para além duma certa quantia certa, com o fim de obriga-los a utilizar cartões de crédito e outros meios de pagamento electrónicos (tipo PagoBancomat), aumentando assim a velocidade de circulação do dinheiro.

Mas numa economia onde as transições "escondidas" representavam quase a metade do total, o resultado foi uma revolta que forçou o Presidente De La Rua a escapar pelo telhado da Casa Rosada em helicóptero.

O problema hoje, porém, é a discrepância entre a inflação 10-12% reconhecida pelo governo e 25% de inflação real. Para "esconder" de alguma forma o fenómeno durante um ano eleitoral, o governo recusou imprimir notas com valores superiores.

Assim, é preciso um número cada vez maior de notas para fazer as compras, e no clima de Natal e passagem de ano os Bancomat ficaram vazios.  Nesse sentido, no entanto, o uso das prensas do Brasil apenas contorna o problema, uma vez que são imprimidas ainda notas de 100, actualmente ultrapassadas.

100 Pesos, nesta altura, representam menos de 20 Euros. Neste caso, não houve tumultos nas ruas, mas apenas mal-estar. Além da vingança bizarra de dois ladrões em motocicletas, que roubaram a um funcionário os 68.000 Dólares e os 17.000 Euros que a Presidente Kirchner tinha reservado para uma viagem no Médio Oriente, particularmente importante após a decisão de reconhecer as fronteiras da Palestina de 1967 .


O Chile e os combustíveis (outra vez)

O problema não é apenas dos governos de Esquerda, moderados ou radicais.
Os motins anti-inflação, de fato, estenderam-se ao Chile de Piñera, causa a decisão de cortar os subsídios dos combustíveis na região de Magallanes, no extremo sul. A greve geral que se seguiu parou os ferry, isolando a Tierra del Fuego do resto do País.

Piñera disse que o aumento de 16,8% nos preços do gás não pode ser adiado, caso contrário o Chile acabará como os Pigs europeus.

O deputado independente de Magallanes, Marinovic, ameaçou a passagem da região para a Argentina, onde o governo de Cristina Kirchner está a conceder facilitações para transformar a Tierra del Fuego num centro para a produção de telefones celulares.

A deputada democrata-cristã Goic (na elite da área há uma forte presença de nativos eslovenos, croatas e polacos), diz que começou a revolta das Regiões contra o centralismo. E o mesmo Piñera foi forçado a remodelar o governo.

Foi precisa a mediação do Ministro da Energia, Laurence Galborne (que já uma estrela após o resgate dos mineiros), para celebrar o acordo sobre as taxas, acordo que por enquanto acalmou o protesto.



Fonte: Mauro Stefanini em Limes

1 comentário:

  1. O assunto da inflação está crescendo em toda a região, e as vezes afeta a sul america saude em geral, mas em algumas partes é pior que em outras.

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