31 janeiro 2011

O velho tinha avisado...

Os acontecimentos das últimas semanas impõem algumas reflexões: as revoltas nos vários Países árabes são genuínas ou "comandadas"?

No caso do Egipto, por exemplo, já vimos que os Estados Unidos tinham conhecimento dos preparativos da revolta, e isso já tinha sido há três anos.

Não só, mas houve apoio para os rebeldes, com encontros financiados em New York.

O mesmo não se pode dizer no caso da Tunísia, do Yemen ou dos outros Países, pois faltam provas. E podem faltar porque bem escondidas ou porque inexistentes.

As últimas notícias do Sudan, por exemplo, podem indicar que a situação esteja a fugir aos controles: após os Países Ocidentais terem trabalhado não sem dificuldades para encontrar uma solução aos graves problemas do País, ontem uma manifestação de estudantes no centro da capital, Khartoum, chocou com as forças da polícia.
A razão? A subida dos preços dos géneros alimentares em primeiro lugar, factor que torna mais difícil a simples tarefa de sobreviver.

A força de inércia das primeiras revoltas está a arrastar o mundo árabe da zona mediterrânica e norte africana ou estamos perante algo de mais complexo?




 
Vamos ler o que contava  Zbigniew Brzezinski durante um discurso no Council on Foreign Relations em Montreal, há cerca de um ano.
Os aficionados leitores de Informação Incorrecta já conhecem a Velha Raposa: para os outros, um bom cartão de visita (mas muito limitado) é o facto dele ser o co-fundador da Comissão Trilateral, com David Rockfeller, e constante frequentador das reuniões Bilderberg.
Pela primeira vez, quase toda a humanidade é politicamente activa, politicamente consciente e politicamente interactiva.
O resultado global de activismo político está a criar um incentivo para a procura da dignidade pessoal, respeito das oportunidades culturais e económicas num mundo marcado por dolorosas lembranças de séculos de dominação estrangeira, colonial ou imperial.
O anseio pela dignidade humana no mundo é o principal desafio inerente ao fenómeno do despertar da política mundial. Um despertar, que é socialmente imponente e politicamente radicalizante.
O acesso quase universal à rádio, à televisão e à internet está a criar uma crescente comunidade de percepções compartilhadas e de inveja que pode ser canalizada e galvanizada com a demagógicas paixões políticas ou religiosas.
Essas energias transcendem as fronteiras soberanas e representam um desafio para os Estados existentes, para a actual hierarquia global que ainda depende da América.

Os jovens do Terceiro Mundo são particularmente inquietos e ressentidos. A revolução demográfica que representam, assim, torna-se uma bomba relógio política, e  o seu potencial revolucionário pode emergir entre as dezenas de milhões de estudantes concentrados nas instituições de ensino de "terceiro nível", muitas vezes intelectualmente questionáveis, nos Países em desenvolvimento.
Segundo a definição de educação de "terceiro nível", existem actualmente em todo o mundo entre 80 e 130 milhões de estudantes universitários.
Geralmente de classe média baixa, socialmente inseguros e inflamados por um sentimento de indignação social, esses milhões de estudantes são potenciais revolucionários, já semi-mobilizados em grandes assembleias, conectados pela Internet e pré-posicionados para uma reprodução em escala maior do que aconteceu em Cidade do México ou na Praça Tiananmen.
A energia física e a frustração emocional apenas esperam de ser libertadas por uma causa, uma crença ou um sentimento de ódio.

Também as grandes potências mundiais, velhas e novas, enfrentam uma nova realidade: enquanto a taxa de letalidade da sua força militar é maior do que nunca, a capacidade de impor o controle sobre as massas politicamente despertadas está no mínimo histórico.
Para ser franco: em tempos recentes, era mais fácil controlar um milhão de pessoas de que fisicamente matar um milhão de pessoas, hoje é infinitamente mais fácil matar um milhão de pessoas de que controlam um milhão de pessoas.


A preocupação de
Brzezinski encontrou finalmente a razão de ser?
  
Por enquanto podemos apenas observar e registar os eventos. Nesta fase confusa é difícil interpretar os acontecimentos; para isso será preciso ver quais as respectivas evoluções, em particular no Egipto.

Com 80 milhões de habitantes e uma posição geo-estratégica de primaria importância, o gigante africano é a melhor chave para entender o que se passa ao longo destas semanas no mundo árabe.
  

Ipse dixit. 

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