13 janeiro 2011

Quatro cenário para o fim dos Estados Unidos - Parte I



Para os Estados Unidos começou o declínio?
Pode ser.

É um assunto importante, pois os EUA foram, no bem o no mal, protagonistas da cena mundial desde 1945 e única super-potência desde a queda do Muro de Berlim. É preciso reflectir bem pouco para perceber a influência que os Americanos tiveram e continuam a ter em todo o planeta.

Uma eventual queda, o um significativo redimensionamento, implicaria uma repensamento de muitos aspectos da nossa sociedade. Aspectos importantes (pensamos, por exemplo, na estratégia de defesa), aspectos fúteis também (cinema, televisão).

Seja como for, uma mudança fundamental.



Por isso, com a ajuda de Alfred W.McCoy, vamos ver quais as previsões que nesta altura é possível fazer acerca do futuro dos Estados Unidos. Que é, em boa parte,o nosso futuro também.

McCoy é professor de História da Universidade Wisconsin-Madison. É autor do recente Policing America's Empire: The United States, The Philippines, and the Rise of Survelliance State (2009) e presidente do projecto Empires in Transition, grupo de trabalho mundial de 140 historiadores.


2003: o início do fim

Apesar da aura de omnipotência que a maior parte das potências projectam, observar a história delas deveria lembrar que são organismos frágeis.

Tão delicada é a ecologia do poder que, quando as coisas começam a ir mal, os impérios desintegram-se regularmente com implacável velocidade: pouco mais de um ano no caso de Portugal, dois anos a União Soviética, oito anos a França, 11 anos a Turquia, 17 anos a Grã-Bretanha.

E os Estados Unidos? Difícil avançar com uma previsão exacta. No entanto, McCoy fixa o inicio do declínio no ano 2003. O que faz sentido.

Os futuros historiadores provavelmente irão identificar a invasão irresponsável do Iraque, por parte da administração Bush, como o início da queda da América.

No entanto, em vez do banho de sangue que marcou o fim de muitos impérios do passado, com cidades em chamas e civis massacrados, neste século XXI o colapso imperial poderia acontecer de forma tranquila, através dos tentáculos invisíveis dum colapso económico ou duma guerra cibernética.

Mas quando finalmente a dominação do mundo estar acabada, haverá uma dolorosa lembrança diária do que isso significa para os Americanos em todas as áreas da vida.

Como uma meia dúzia de Países europeus descobriram, o declínio imperial tende a ter um impacto deprimente na sociedade, arrastando tal situação ao longo de pelo menos uma geração de privação económica.

E se a economia esfria, a temperatura política sobe, muitas vezes provocando graves problemas internos.


 O Século Americano

McCoy afirma que os dados económicos, educacionais e militares sugerem que, quando se trata de poder mundial dos Estados Unidos, as tendências negativas irão unir-se em 2020 para alcançar rapidamente uma massa crítica por volta de 2030.

O Século Americano, declarado de forma triunfante no início da II Guerra Mundial, estará em pedaços e em dissolvência em 2025, sua oitava década, e pode tornar-se história em 2030.

Significativamente, em 2008, o National Intelligence Council dos Estados Unidos admitiu pela primeira vez que o poder mundial dos Eua encontra-se numa trajectória declinante.

Num dos seus relatórios periódicos acerca do futuro, Global Trends 2025, o Conselho cita a "transferência da riqueza e do poder económico em curso na economia global, mais ou menos de oeste para leste" e "sem precedentes na história moderna", como o principal factor de declínio da relativa força americana, até mesmo nas forças armadas."

Tal como muitos em Washington, no entanto, o Conselho dos analistas prevê uma "aterragem" (isso é, um declínio) longa e suave da supremacia mundial dos EUA, com a esperança que, de alguma forma, os Estados Unidos conseguiriam ao longo de muito tempo "preservar únicas capacidades militares [...] de projectar o poder militar à nível mundial" nas próximas décadas.

Mas McCoy não pensa isso.
Nada a fazer. De acordo com as projecções actuais, os Estados Unidos vão encontrar-se em segundo lugar, atrás da China (já a segunda maior economia do mundo), na produção económica em torno de 2026, e atrás da Índia até 2050.

Da mesma forma, a inovação chinesa estará numa trajectória rumo à liderança mundial na ciência aplicada e na tecnologia militar entre 2020 e 2030, justamente quando actual reserva americana de brilhantes cientistas e engenheiros irá encolher, sem substituição adequada.


A Passagem da Ave-Maria

Em 2020, de acordo com os planos actuais, o Pentágono irá lançar uma passagem militar da Ave-Maria [no futebol americano indica uma tentativa desesperada de mudar o curso do jogo, NDT] para um império moribundo.

Será lançado um conjunto letal de robótica aeroespacial que representará a última esperança para Washington de manter o poder no mundo, apesar da própria decrescente influência económica.

Naquele ano, porém, a rede mundial de satélites de comunicações da China, apoiada pelos supercomputadores mais poderosos do mundo, estará plenamente operacional em Pequim, fornecendo uma plataforma para a militarização do espaço e um sistema de comunicação poderoso para mísseis ou ataques informáticos em cada quadrante do planeta.

Envolvida na arrogância imperial que já foi de Whitehall ou Quai d'Orsay, a Casa Branca ainda parece imaginar que o declínio americano será gradual e parcial.

No Discurso acerca do Estado da União no passado Janeiro, o presidente Barack Obama ofereceu a garantia de que ele não aceita o segundo lugar para os Estados Unidos da América.

Poucos dias depois, o vice-presidente Biden ridicularizou a ideia pela qual os EUA possam tornar-se uma grande nação que falhou por ter perdido o controle da economia.

Da mesma forma, ao escrever na edição de Novembro da revista governativa Foreing Affairs, o "guru" liberal da política externa Joseph Nye afastou o discurso do crescimento económico e militar da China, rejeitando a "metáfora enganosa do declínio orgânico" e negou que uma já iminente deterioração do poder global dos Estados Unidos.

Os Americanos comuns, observando os seus lugares de trabalho no estrangeiro, têm uma visão mais realista. Uma pesquisa em Agosto 2010 revelou que 65% dos Americanos acham que o País está "em estado de declínio".

Austrália e Turquia , tradicionais aliados militares dos Estados Unidos, já estão a usar armas de fabricação americana nas manobras conjuntas aéreas e navais com a China.
Os parceiros económicos mais próximos da América já estão a fazer marcha atrás acerca da oposição de Washington à taxa de câmbio "domesticada" da China.
Quando o presidente regressou da sua viagem pela Ásia, um título agressivo do New York Times resumiu o momento: "A visão económica de Obama é rejeitada no mundo, China, Grã-Bretanha e Alemanha desafiam os EUA, mesmo as negociações comerciais com Seul falham".


Os Quatro Cenários

Do ponto de vista histórico, a questão não é se os Estados Unidos irão perder o poder incontestado em todo o mundo, mas quanto doloroso e precipitado será o declínio.

Em vez da visão esperançosa de Washington, McCoy utiliza a metodologia do National Intelligence Council para sugerir quatro cenários realistas e determinar como, se com um estrondo ou um soluço, o poder mundial dos Estados Unidos pode chegar ao fim por volta de 2020; juntamente com quatro avaliações do presente.

Os cenários futuros incluem:
  1. o declínio económico
  2. a crise do petróleo
  3. a desventura militar 
  4. a Terceira Guerra Mundial. 
Embora estes não sejam certamente as únicas possibilidades quando se trata de declínio americano ou até mesmo de colapso, oferecem uma janela para o futuro próximo.

Em breve a segunda parte deste artigo, com o primeiro dos Quatro Cenários.


Fonte: TomDispatch
Tradução e adaptação: Informação Incorrecta

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