31 janeiro 2011

Santa Mãe Guerra



O director de Il Corriere della Sera publica um artigo que vale a pena resumir.
Não ler, pois isso não vale a pena, mas resumir sim. Pois é um artigo estúpido.
Tão estúpido que bem representa a filosofia mais em voga.
Esquisito, não é? Pois...

O artigo, cujo título é "Os inimigos do crescimento", é útil para quem tem dúvida acerca dum dos mais inoxidáveis dogmas da nossa sociedade: o crescimento. Não um crescimento qualquer: mas o continuo, constante, eterno crescimento das nossas economias.




No crescimento, no party

A ideia, suportada pelo director Angelo Panebianco, é que sem crescimento pode haver só morte.
Vice-versa, um infinito crescimento é sinonimo de vida e prosperidade.

Não é fácil demonstrar uma afirmação como esta. Por isso, Panebianco é obrigado a alguns "ajustes".

Começamos com um absurdo: o crescimento é necessário, explica Panebianco, porque
sem crescimento, uma sociedade consome mais riqueza do que produz e termina num plano inclinado, no fim do qual só pode haver um empobrecimento geral.   
Ámen.

São declarações obviamente falsa.
E estúpidas.

É óbvio que uma sociedade é pobre se consome mais do que produz, mas isso não tem nada a ver com o crescimento, esta é apenas a diferença entre produção e consumo.

Se num ano produzo 100 e consumo 100, não fico mais pobre, com ou sem crescimento em relação ao ano anterior.

Se num ano produzo 100 e no ano sucessivo 120, mas consumo 130, houve um crescimento, com certeza, mas fico sem dinheiro.

É perfeitamente possível conceber uma sociedade estacionária, em que cada ano é produzida a mesma riqueza do ano anterior; ao consumir um pouco menos, não há crescimento, mas a sociedade enriquece.
 
Mas o autor vai além disso:
Se o meu salário não aumentar a cada mês, fico mais pobre, porque gasto mais do que ganho.
Eh? E quem tem um trabalho onde o salário aumenta a cada mês? Só se for o director do Corriere della Sera. 

Mas o director está lançado e não pára.

Distingue entre as empresas que trabalham "para competir nos mercados globais" e outros actores sociais que, não sendo expostos na linha da frente, não estão conscientes das necessidades da concorrência, mas mesmo assim à ela devem adaptar o comportamento.
Se o nosso desejo for o crescimento, diz Panebianco, é necessário que todos os âmbitos sociais assumam a necessidade da competição, ficando assim funcional ao sistema de negócios globalizados.

Infelizmente, afirma ele, em Itália ainda as coisas não estão assim.
Há ainda trabalhadores que estão a defender as próprias dignidade e saúde, ainda há professores que pensam no desenvolvimento humano e cultural dos próprios alunos, e não na competição. Há ainda alguns estudiosos que lidam com antigos manuscritos por paixão e não porque existe a necessidade da concorrência global. Ainda existem enfermeiras que cuidam com senso de dever e de solidariedade humana, e não para aumentar o PIB.


A solução
 
Hiroshima após a atómica: sortudos.
Tudo isso deve parar, se querermos o crescimento, explica Panebianco.
Mas como acabar com essa resistência?
 
Panebianco cita o economista Mancur Olson, que na época explicou o excelente desempenho econômico de Alemanha, Itália e Japão na década de Cinquenta, desta forma:
nesses três Países, a guerra não se limitou a destruir a infra-estrutura física. Também tinha destruído a infra-estrutura social. 

Ahhhh, agora fica mais claro.

Ainda bem que de vez em quando há uma guerra que massacra a sociedade e torna possível o crescimento.
Que seria de nós sem guerras? Um mundo aborrecido, sem dúvida. E economicamente doente.
 
Portanto, eis a sugestão do director do mais lido diário nacional: se o nosso desejo for o crescimento, então é necessária uma destruição social, a devastação das relações humanas, uma degradação geral comparável à de uma guerra, como a Segunda Guerra Mundial, por exemplo.  
Guerra que afinal foi um golpe de sorte, pelos vistos.

Mas sabem qual o problema?
O problema é que estes não são os pensamentos do director do Corriere della Sera. Esta é uma filosofia, aliás, a filosofia imperante.
Como já afirmado, o crescimento continuo e constante é um dogma da nossa economia.
O que Panebianco fez, foi simplesmente responder à uma pergunta: "E que acontece quando o crescimento abranda?".

Agora temos a resposta. 


Ipse dixit.

Fonte: Corriere della Sera

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