27 janeiro 2011

Strange Days



Coisas esquisitas acontecem.

As manobras da Federal Reserve, os dois Quantitative Easing (QE), funcionaram. Tão bem que já há quem fale num Quantitative Easing 3.
O problema é que a economia dá sim sinais de retoma, mas tão fracos que o número de desempregados não diminui.
Normal.

O dinheiro dos QE 1 e 2 foi para os bancos privados. Estes pensam em primeiro lugar nos próprios interesses e só depois na saúde da economia. Acham que realmente o pessoal da Goldman Sachs, da JP Morgan, da Barclay's fica preocupado com os desempregados?

A realidade é que o dinheiro foi para o mercado financeiro e são os dados que falam: Wall Street e os seus bonds-lixo ganham como antes da crise, e talvez mais.

Os consumos de luxo, como Tiffany's, Saks, Louis Vuitton, Nordstrom, ou os brinquedo de 500 Dólares da Apple crescem, tal como o volume dos negócios do Nasdaq. 300 mil milhões foram os bónus distribuídos em Wall Street em ocasião do Natal.

Isso enquanto o desemprego real é de 16%, milhões de pessoas têm a casa penhorada e o número de Americanos que recebem vales governativos de alimentos para conseguir comer sobe para 43 milhões.

43 milhões. Pensem neste número. Quatro vezes a população de Portugal.

Além disso, os Americanos que não trabalham no mercado financeiro ou não são administradores de grandes empresas, vêem os próprios bens perder valor: a taxa de juro está perto do zero, como referido, e isso vale também para as poupanças.

Entretanto o custo da vida aumenta. Pois um dos efeitos colaterais dos QE é a perda de valor do Dólar.

Se o Dólar vale menos, então mais Dólares serão precisos para comprar a mesma quantia de matérias primas. Mais caras as matérias primas, mais caros os preços dos produtos finais.
É exactamente o que está a acontecer.

Os Republicanos, após terem ganho as mid-terms elections em Novembro, pedem uma redução dos impostos para os ricos e para quem especula. Lógico.
A Administração Obama responde com mão firme: saem consultores económicos de Wall Street e agora, para aconselhar o Presidente, chegam novos consultores de Wall Street.

Ninguém se rebela. A televisão funciona, e bem.
Os únicos que ameaçam são os membros dos Tea Party: Republicanos, fartos de tantos impostos.

Assim o Dow Jones, o indicador da Bolsa, alcança os 13.000 pontos e os consumos de luxo crescem 15% num ano.

Petróleo, gasóleo, soja, arroz, trigo, óleo de soja, milho, algodão, açúcar, café, cacau, carne dobram os preços num ano, a inflação sobre os alimentos nos Estados Unidos, na China, Índia,  na Indonésia ou no Médio Oriente passa desde 10% para 20%.
Mas ninguém pode falar em especulação, é pecado.

Assim, na Inglaterra,que tinha começado os próprios QE antes dos Estados Unidos, o custo da vida para as famílias sobe 4,5%. Até o McDonald's começa a queixar-se.

O Cheeseburger mais caro? Este o verdadeiro drama.

Ben Bernanke, o Presidente da Federal Reserve, declara perante o Senado dos EUA que os preços sobem por culpa dos consumidores asiáticos e do Terceiro Mundo, que gastam cada vez mais.
Ninguém acredita nesta versão demencial, mas todos aplaudem: era preciso apresentar um culpado, Bernanke conseguiu.
A especulação pode continuar.

Mas a especulação tem um custo. "Mas" ou "Para boa sorte", depende de quais os nossos projectos de longo prazo.

Assim deflagram revoltas na Tunísia, na Argélia, no Egipto, no Yemen, na Albânia, na Índia e na China (estas últimas censuradas, pois não ficam bem na fotografia).


Na Tunísia, um homem de 32 anos, desesperado, põe-se em chamas na rua, amigos e parentes fazem uma manifestação espontânea e as imagens circulam na Internet.

O Presidente tunisino Ben Ali encontra o desgraçado no hospital.
Azar dos dois: o desgraçado morre. A revolta estala.

No dia seguinte, milhares na praça; e depois dezenas de milhares. Ben Ali, até então homem de confiança dos Estados Unidos, prepara um plano para fugir, enquanto a mulher vai para o Banco Central da Tunísia e retira uma tonelada e meia de ouro para as pequenas despesas do caso.

A seguir, Wikileaks revela que em verdade os Estados Unidos nunca gostaram deste tal Ben Ali, aliás, em Washington até ignoravam que existisse uma pessoa com este nome, a ideia era que na Tunísia vivessem apenas alguns camelos.

Grande Wikileaks.
Imaculada Wikileaks. 

Ipse dixit.

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