23 fevereiro 2011

A construção do futuro

Sério, não sei que pensar.
Dum lado é claro que os Estados Unidos desenvolveram um papel de primeiro plano na revolta do Egipto e, possivelmente, na da Tunísia.

Também tentaram o mesmo no Irão, mas sem sucesso por enquanto.
Mas na Líbia? Na Líbia não.

Khadafi, como bom ex golpista, teve o cuidado de evitar intromissões "democráticas" (por assim dizer) com social network ou estágios de formação "democrática" no estrangeiro. Mesmo assim a Líbia está a arder.

Também no minúsculo Bahrain, uma ilha de 665 km quadrados, há manifestações e mortos.
Até Gibuti, um País de 24 habitantes, está em revolta: 12 dum lado e 12 do outro.

Isso não estava nos planos. Mas será mesmo assim?


A História diz...

Voltamos atrás.

11 de Março de 1990. Lituânia, uma das mais pequenas republicas da União Soviética, pouco mais de 3 milhões de habitantes.
Vilnius declara a independência, as tropas comunistas tentam reprimir a revolta mas no fim têm que ceder.
É o inicio da desintegração do Império: a seguir será a vez da Geórgia, da Estónia, da Letónia, depois Rússia, Ucrânia, Bielorrussa...

Tudo começa num pequeno País e alarga-se como uma mancha de óleo.
É o mesmo que aconteceu com a Tunísia.
Comparação arriscada? Talvez.

A União Soviética era um mastodonte com pés de barro, enquanto na África do Norte os Países são independentes.
Mas agora, como na altura, havia leaders autoritários, velhos, fora do tempo.

Agora, como em 1990, houve um pequeno detonador.

A História não ensina nada? Ensina, ensina. É só saber aprender. E com certeza alguém aprendeu bem a lição.

Quem, os Estados Unidos? Duvido. Si, houve participação, já disse. Os Estados Unidos quiseram a revolta na Tunísia e ainda mais no Egipto. A Líbia foi uma prenda, embora previsível. Tal como previsível era o fracasso no Irão.

Mas pensamos: anos de preparação para quê? Para mudar o destino dos Egípcios e dos Tunisinos? Era isso o objectivo? Aos Americanos não interessa o destino destes povos, a única coisa que interessa é que quem mandar obedeça às ordens de Washington, como é óbvio.
E neste aspecto a situação estava já resolvida.

Eu acho que estas revoluções têm outros fins, nomeadamente:
  1. Prevenção
  2. Mercado
  3. Maior controle

1. Prevenção

Cedo ou tarde algo teria acontecido. É normal, é a História que ensina: para qualquer regime chega um ponto de ruptura. Então, se ruptura deve ser, melhor que esta seja controlada.

Muito melhor duma revolta espontânea, se calhar conduzida por quem tem outros interesses.
Por exemplo, uma revolta de cariz religioso.

E se há uma coisa que os Estados Unidos não querem, esta é uma África do Norte transformada num mosaico de Estados regidos por uma elite religiosa muçulmana. O Irão chega e sobra.


2. Mercado

Por ventura este não terá sido o motivo principal: mas entre Tunísia, Egipto, Argélia, Líbia, Marrocos, Mauritânia e o sempre esquecido Yemen, estamos a falar de 180 milhões de habitantes: 2/3 (dois terços) da população dos Estados Unidos.

Um mercado nada mal que, se oportunamente cultivado, no médio-longo prazo poderá tornar-se rentável. Enquanto nas condições actuais não rende.


3. Maior controle 

Já foi dito neste blogue: a melhor maneira de controlar um povo é convence-lo de que está livre. E neste aspecto não há nada que possa funcionar tão bem como uma democracia.

Agora, com um esforço (mas nem tão grande) imaginemos uma situação de crise internacional (olha, três navios iranianos no Canal de Suez!): poder contar com um mundo árabe dividido, uma parte fundamentalista, outra "livre e "democrática", seria uma enorme vantagem do ponto de vista EUA/Israel (divide et impera).

Significaria ter "as costas quentes", muito mais quentes que não no caso de regimes velhos e autoritários, mal vistos pela população. Seria aborrecido entrar numa guerra contra o Irão e dever operar também num inesperado fronte egípcio por exemplo, não seria?

Além disso, a democracia representa outro passo importante na estrada duma futura nova ordem. Seja NWO ou outra qualquer.

E sobretudo este último ponto que faz pensar: atrás destas revoltas pode haver não há apenas os Estados Unidos, mas qualquer outra mente, com projectos de longo prazo.


A Esquerda reaccionária

Se estas suposições forem válida, não deixa de existir um lado irónico: as Esquerdas de todo o mundo, as mesmas que agora rejubilam ao ver as bandeiras nas praças, torcem para um passo em frente do inimigo "imperialista".

Mas é verdadeira ironia?
Acho que não: é a previsível consequência dum Comunismo/Socialismo obrigado a ser reaccionário.

É este o mais estridente mas também lógico paradoxo: uma nova demonstração da necessidade de abandonar quanto mais depressa possível a gaiola mental cujas barras são as ideologias Direita e Esquerda.


Ipse dixit.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Printfriendly

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...