17 fevereiro 2011

Irão: as duas verdades

A máquina começou a funcionar.
E uma vez em marcha, não pode ser parada: avança e atropela tudo. Mas esta não é a sua verdadeira missão. O objectivo é outro: distorcer a realidade, dobra-la perante as necessidades e transforma-la em algo de útil, até espalhar uma mensagem já escolhida.

A "máquina", óbvio, é composta pelos media, e a mensagem é: os Países islâmicos têm fome de Democracia.
A Democracia, este Santo Graal, panaceia para todos os males das nossas sociedades.

O Irão, por exemplo.
Ao que parece, o povo iraniano está em revolta, a "onda verde" da África do Norte, a mesma que atingiu a Tunísia e o Egipto, chegou até Teheran e já não pode ser travada.
Até há um morto, um estudante que morreu por causa dum sonho: Liberdade.



O Presidente Obama não podia deixar fugir a ocasião:
Para nós era claro antes, e é claro agora, que o que era verdade no Egipto deve ser verdade no Irão, que o povo deve ter a possibilidade de exprimir as suas opiniões e as suas queixas e buscar um governo mais receptivo. O que é diferente é que a resposta do governo iraniano foi disparar contra as pessoas, bater nas pessoas e prender as pessoas. A minha esperança e expectativa é que possamos continuar a ver o povo do Irão com a coragem de exprimir o seu desejo por mais liberdades e um governo mais representativo.

A mensagem é clara, o Irão como o Egipto, com uma diferença: em Teheran o governo dispara contra os manifestantes.
Terrível.

Dois jornalistas italianos foram convidados num debate na sede da Irib, a televisão e rádio estatais do Irão, para discutir os acontecimentos. Os resultados são um pouco diferentes da versão que circula no Ocidente.

Não era uma manifestação em favor do Egipto ou da Tunísia. Era contra o Presidente Mahmud Ahmadinejad. Atenção, não contra a Guia Suprema, não contra o Parlamento, não contra o Conselho da Revolução: contra Ahmadinejad e ponto final.

Confirma o jornalista Davoos Abbasi:
Muitas pessoas reuniram-se no centro de Teheran e começaram os tumultos, enquanto a multidão usava slogans que nada tinham a ver com o Egipto, mas eram contra o Presidente. Eles incendiaram caixotes do lixo e a polícia interveio.
Quando começaram a retirar-se, surgiram pessoas armadas com pistolas que começaram a atirar, matando uma pessoa e ferindo gravemente outras. Não eram pessoas "simples", determinada a manifestar pacificamente, se esta tivesse sido a ideia não teriam aparecido as armas, que certamente não estão ao alcance de um cidadão comum do Irão.

A prova, segundo Abbasi, de que os acontecimentos eram algo de orquestrado, com pessoas de outros Países, como em ocasião da morte dos cientistas nucleares.

E a vítima? 
Sanee Zhaleh era estudante de artes na universidade de Teheran. A imprensa ocidental assegura que era um opositor ao regime. Mas as autoridades garantem que Zhaleh pertencia à milícia pró-governo Basij e que foi abatido pelo grupo de dissidente Mujaheddin do Povo, a organização terrorista armada que abriu o fogo ao longo da manifestação.

Em que ficamos?

Segundo testemunhas, 24 horas após a eclosão dos incidentes, a situação no centro da capital era calma. Durante várias semanas, as redes de televisão em língua persa, que são financiadas pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha, tentaram levar as pessoas do Irão a participar em manifestações anti-governamentais.
Nada de espontaneidade.

Ontem, o porta-voz do parlamento iraniano, Ali Larijani, apontou o dedo aos Estados Unidos:
O objectivo era clonar os protestos do Egipto e da Tunísia, de modo que fosse possível dizer que a crise das ditaduras amarradas aos Estados Unidos está a expandir-se também no Irão

Mirhossein Mousavi
A demonstração de que a manifestação do dia 14 tem sido manipulada é que apenas três dias antes tinha sido o próprio governo, em ocasião das comemorações da Revolução de 1979, que tinha convidando a população a manifestar o apoio para os protestos no Egipto.

Em vez disso Mousavi e Karrubi, leaders dos protestos, também convocaram a mobilização do dia 14 pelas mesmas razões, mas com intenções bem diferentes. E uma interceptação da intelligence iraniana do passado dia 13 (um dia antes dos protestos) confirma que Mousavi acerca das manifestações anti-governamentais com um funcionário da CIA.

Amanhã é prevista uma manifestação em favor do governo. Sim, leram bem: em favor do governo, não contra.
Já ontem, em Qom, a capital religiosa do País, uma das mais importantes escolas de teologia organizou uma manifestação de apoio ao regime. 

Difícil fazer um ponto da real situação. 
Por enquanto, o Irão parece estar bem longe das reuniões oceânicas do Cairo ou Alexandria, no Egipto. A impressão é que a manifestar sejam grupos bem específicos no seio da sociedade. Os mesmos grupos que já tinham demonstrado no recente passado.

Mas aqui nos Ocidente gostamos de imaginar dezenas de milhões de Iranianos nas ruas, contra um cruel e insensível regime ditatorial, com apenas um desejo: Democracia.  


Ipse dixit.


Fontes: Euronews, Irib

2 comentários:

  1. Vitor17.2.11

    Parece que estas revoltas são de fato revoluções coloridas, interessante que a mídia subleva as massas contra o governo, semelhante ao que ocorreu na Venezuela.

    Abraços!

    ResponderEliminar
  2. Olá Vítor!

    Olhe, ainda estou com dúvidas: há sinais claros de que os Estados Unidos sabiam e, de qualquer forma, desempenharam um papel na Tunísia e no Egipto, por exemplo. E também parece que no Irão estão a tentar algo, tal como aconteceu no Venezuela.

    Doutro lado, todas estas revoltas, ao mesmo tempo: parece quase que a situação esteja a fugir-lhe de mão.

    Por isso não sei. Mas que haja, no mínimo, a tentativa de aproveitar a situações para transformar todos estes em revoluções coloridas, isso sim, parece-me fora de dúvida.

    Aliás, ficaria espantado se a CIA, pelos menos, ficasse de braços cruzados. Aqui e em qualquer parte do mundo.

    O slogan poderia ser "Onde há caos, há CIA"...

    Abraço!

    ResponderEliminar

Printfriendly

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...