02 fevereiro 2011

Para que nada mude



 Nós éramos os leopardos, os leões; 
esses que nos substituíram são os chacais, as hienas; 
e todos os leopardos, chacais e ovelhas continuarão a acreditar no sal da terra.


Há uma pergunta no ar.
E a resposta não é simples.

A atitude dos Estados Unidos perante as revoltas do Países da África do Norte parece, no mínimo, esquisita.

O Egipto, por exemplo.
Ontem o Presidente Mubarak afirmou, num discurso transmitido pela televisão de Estado, que a sua intenção não é demitir-se. Mesmo perante o milhão (há quem diga dois milhões) de Egípcios nas ruas, ele quer ficar no poder e gerir a difícil transição, até Setembro.

Mais: afirmou que as manifestações são obras de forças políticas e que entende morrer em território egípcio.
Bom, pelo menos coragem não falta.
Mas não isso que interessa.



Enquanto o País entra no nono dia de revolta, o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, endurece drasticamente o tom do discurso com o regime de Mubarak, para dizer que a transição do poder político no Egipto “tem que começar agora”.

Uma tomada de posição clara e inequívoca, ao lado dos manifestantes.


Ao mesmo tempo, não podemso esquecer que Mubarak foi fiel aliado dos EUA ao longo dos últimos 30 anos; e em 2010, enquanto já estava em curso a preparação da revolta de hoje, Washington enviou 1.500 milhões de Dólares ao regime de Mubarak.
Uma espécie de "reconhecimento" das políticas pro-israelitas que o Cairo tem perpetrado nas últimas décadas.

Então, se Mubarak for realmente um fiel aliado, numa zona estrategicamente delicada, bem visto também em Israel, qual o sentido de despacha-lo?

Porque a América teve a mesma atitude com outro fiel aliado, o Presidente da Tunísia, Ben Ali?
Se os Estados Unidos forem verdadeiramente preocupados com a ascensão do poder islâmico na região, porque combater regimes laicos e pro-EUA?

Acho que a resposta pode ser encontrada num livro de Tomasi di Lampedusa, O Gattopardo:
Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude.
Esta parece a melhor descrição da actual situação.
Os regimes da Tunísia, do Egipto, da Argélia e de outros ainda, são restos duma época que já não existe.
Ben Ali, por exemplo, tomou o poder na Tunísia no dia 7 de Novembro de 1987; Hosni Mubarak sucedeu como presidente do Egipto em 1981.

São épocas distantes, que já pertencem à História.
Ainda existia a União Soviética, o Afeganistão era sim ocupado mas pelos Soviéticos, as Torres Gémeas dominavam o panorama de New York.

O mundo mudou.
Agora Washington (e não só) quer mudar o que sobrou daquele cenário.
Para que as coisas permaneçam iguais.


Ipse dixit.


Fonte: Público
http://publico.pt/1478264

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