08 fevereiro 2011

Porque há revolução no Egipto? (Soft Version)

Nos recentes artigos de Informação Incorrecta foi indicada a Federal Reserve americana como uma das causas da subida dos preços nos Países da África do Norte, os mesmos Países que agora atravessam uma altura de protesto.

Mas como funciona a coisa? Porque se uma pessoa imprime notas em Washington, o pão em Argel ou Cairo custa mais? Faz sentido?

Meus senhores, bem-vindos na economia globalizada do capitalismo parasitário.




Um mar de notas

Como sempre: ponto da situação.

Os Estados Unidos estão em crise. Também a Europa. Mas Washington tem uma maneira diferente de tratar o assunto.

Crise? Poucas compras? Pouco dinheiro em circulação? Ben Bernanke, Presidente do banco central dos EUA (a Federal Reserve, ou simplesmente Fed) tem a solução: imprimir notas.
Quantas? Muitas, um mar de notas.

Isso chama-se, dito duma forma extremamente simples e até redutora, Quantitative Easing.

A ideia é a seguinte: se houver poucos consumos, eu espalho notas como se fossem rebuçados. Os bancos, cheios de dinheiro, concedem crédito com facilidade. E o crédito fácil significa compras fáceis. E pronto, a economia volta à normalidade.

A ideia, tão simples na sua infantilidade, até nem parece má. Só que não funciona. Mas isso é outro assunto. O que interessa agora é o seguinte: um Quantitative Easing cria efeitos colaterais, dos quais um é a inflação.


A pedra e o diamante

Porquê um diamante custa muito e uma pedra vulgar não tem valor? Porque o mundo está cheio de pedras, mas tem poucos diamantes.
O diamante é raro e isso incrementa o seu valor.

Com o dinheiro é a mesma coisa: poucas notas são mais valiosas, muitas notas perdem valor.

Este efeito tem um nome: inflação.

Com a inflação, um Título de Estado emitido em Washington perde valor, pois o Título de Estado outra coisa não é senão dinheiro emprestado.

Então, um banco, uma sociedade de investimentos, pergunta:
"Mas porque raio tenho que investir num bond (Título de Estado dos EUA) se este vale cada vez menos e os interesses maturados são ridículos? Vamos ver se no mercado há outras coisas nas quais investir o meu dinheiro".

E aqui começam os problemas para quem vive fora dos Estados Unidos.

Investir nos alimentos não é um grande negócio.

Ao fechar 10 gramas de ouro num cofre, sei que após um ano terei ainda a mesma quantia de ouro guardado.
Ao fechar uma maçã no mesmo cofre, após um ano terei uma maçã podre.

É difícil convencer alguém a comprar uma maçã podre. Por isso o meu investimento perdeu valor, além de cheirar mal.

Em 1991, a Goldman Sachs (pois, são sempre os mesmos...) inventou um novo produto financeiro: o Commodity Index Funds. Quem investir neste produto não compra uma maçã, mas um produto financeiro baseado na maçã. O que é bem diferente.


Comprar, comprar, comprar...

A Goldman Sachs começou a comprar: não apenas produtos baseados nas maçãs, mas produtos alimentares no geral.
E comprou, comprou, comprou...

Agora, se eu compro, compro, compro, crio uma procura, pois o meu vizinho pensa
"Epá, porque Max compra compra compra? Eu também compro, compro, compro".

Desta forma, mesmo que não haja falta dum artigo, este artigo torna-se mais valioso, pois todos querem te-lo.
É uma espécie de inflação "artificial", pois não é que falte um determinado artigo, só que todos querem compra-lo e o seu valor aumenta.

O primeiro resultado prático desta inovação foi visível em 2008: o trigo, que costumava ter um valor entre os 3 e os 6 Dólares, de repente saltou até 25 Dólares.

Faltou trigo em 2008? Bem pelo contrário: foi o ano com a maior produção de trigo na história do planeta.
Só que os investidores estavam à procura de rentabilizar o próprio dinheiro, tal como o Commodity Index Fund.tinha ensinado.


Agora a situação é a mesma. Não apenas trigo, mas milho, açúcar, batatas... Os géneros alimentares ficaram mais caros. E 200 milhões de pessoas arriscam morrer de fome. Quando uma pessoa tem fome, fica zangada. Na Tunísia, no Egipto e em outros Países, a fome subiu.


Ipse dixit.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Printfriendly

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...