31 março 2011

Fukushima: a hora do plutónio

Boas notícias!

Lembram do xénon 133 e do césio 137, os dois elementos radioactivos libertados pela central nuclear de Fukushima? A boa notícia é a seguinte: agora já não são o principal problema. Isso é, representam o mal menor.

Pois foi encontrado plutónio.


Plutónio, este desconhecido

Plutónio 238
O plutónio é um elemento químico, um metal, cujo símbolo é Pu. Como Peru, só sem o "er" no meio, e é o elemento mais utilizado na produção das bombas nucleares. Já isso faz dele um elemento particularmente útil e simpático.

É definido muitas vezes como "o elemento conhecido mais tóxico", o que não é correcto: o plutónio é apenas "extremamente" perigoso e nada mais. De facto, este material causa tumores nos pulmões, no fígado e danos nos ossos, em particular se é ingerido. Ou inspirado.

Por isso basta não comer ou respirar plutónio para viver felizes (o que não é verdade: é preciso também evitar o xénon 133, o césio 137...mas enfim, não complicamos).

O problema nasce quando o plutónio entra na cadeia alimentar. Ou se for disperso pelos ventos. Aqui a coisa fica mais feia, pois o plutónio é casmurro, não desaparece tão cedo: a sua meia-vida é de 24.200 anos. Ventiquatromiladuzentoanos.
Sizem que um quilo de plutónio seria suficiente para matar 60 milhões de pessoas. Ora bem, na central de Fukushima é armazenado mais de um quintal de material. Até quatro quintais, para ser correctos.

Quatro quintais? Mas não será demais?
Como diziam os Romanos, melius abundare quam deficere, melhor abundar que ficar em falta.
E os Japoneses abundaram, sem dúvida.

Assim, além da fusão parcial dos reactores 1, 2, 3 e talvez, nos próximos tempos, do 4, agora temos o problema plutónio.

"Temos"? Não, têm.
A temperatura relativamente mais baixa da fusão parcial significa que não haverá plume, isso é, uma "pluma" radioactiva que pode alcançar a atmosfera e contaminar o planeta.
Mas isso significará também que as substancia radioactivas ficarão onde já estão: no Japão.


Várias e eventuais

Outras notícias interessantes.

O chefe da Tepco, Masakata Shimizú, desapareceu. Harakiri? Seppuku? Nada disso: hospital, com pressão arterial elevada.

A partir do final de Abril, as centrais nucleares do Japão devem começar a tomar novas medidas de segurança, para que não venham a registar falhas semelhantes às de Fukushima 1, instou hoje o Governo nipónico.
Justo. Se calhar em ligeiro atraso, mas justo.

O mesmo governo decidiu uma série de inspecções em todas as centrais nucleares do Japão, para que não se repitam incidentes como o de Fukushima.
Parabéns, o melhor remédio é a cura. Póstuma, neste caso.

A água do mar junto à central nuclear de Fukushima Daiichi tem níveis de iodo radioactivo 3.355 vezes acima dos limites permitidos, informa hoje a agência japonesa de segurança nuclear.

O vice-director da Agência Nuclear Japonesa, Hidehiko Nishiyama, afirma que não é um grande problema, pois as povoações já foram afastadas e a pesca proibida. E, na óptica dele, até tem razão: já não há pessoas, ninguém pode pescar, afinal contaminamos o mar, qual a crise?

O mesmo Nishiyama admite todavia não conhecer as causas do aumento da radiação.
Temos de perceber depressa o que causou este aumento de radiações.
Uma sugestão pessoal: e se estivesse relacionado com um incidente nuclear? Algo acontecido nos arredores? Assim, só como hipótese...

A boa notícia é que o sushi poderá ser utilizado em substituição das lanternas.


O engenheiro

Acabamos com uma entrevista.

E desta vez não é um activista anti-nuclear: é um dos engenheiros que construíram a central de Fukushima.

Uma outra boa notícia?
Ehhhh não, esta não é mesmo uma boa notícia...

Richard Lahey, que foi chefe de pesquisa da segurança para reactores na General Electric, quando a empresa instalou as unidades em Fukushima, disse ao Guardian que os trabalhadores parecem ter "perdido o desafio" para salvar o reactor. Mas disse também que não há perigo duma catástrofe estilo Chernobyl.
As indicações que temos, a partir das leituras da radiação e dos materiais que estão a observar, sugerem que o núcleo tenha derretido atravesso uma brecha do fundo do tanque de contenção na unidade dois, e pelo menos uma parte dele está no chão do poço. Espero estar errado, mas esta parece ser a condição.
A grande preocupação é que quando o combustível ultrapassar o vaso de contenção, reage com o cimento do poço abaixo, liberando gases radioactivos na área.
Em Fukushima, o poço foi inundado com água do mar, o que esfria o combustível derretido e reduz a quantidade de gás radioactivo liberado. [...]

O poço é fechado por uma por uma estrutura secundária de aço e cimento, projectada para conter o material radioactivo antes que invada o ambiente. Mas uma anterior explosão de hidrogénio no reactor podem te-la danificada.
A razão pela qual estamos preocupados é que fora da área de contenção foi detectada água altamente radioactiva e só pode chegar do núcleo do reactor. Não vai ser nada como Chernobyl, onde aconteceram um grande incêndio e explosões de vapor, Mas não vai ser uma boa notícia para o meio ambiente.
O nível de radiação na piscina de água na sala da turbina do reactor dois recentemente foi medido em 1.000 millisieverts por hora. Nesse nível, os trabalhadores podem permanecer na área por apenas 15 minutos.
A versão integral da entrevista, publicada pelo diário The Guardian, pode ser lida neste link (em língua inglesa).


Resumindo:
  • Já não é possível aproximar-se ao núcleo do reactor, a não ser por períodos inferiores a 15 minutos.
  • O combustível nuclear saiu como um fluxo de lava, ultrapassou o vaso de contenção e acabou no chão do poço ao fundo do reactor.
  • Sob o piso de cimento existe outro sistema de segurança de aço e de concreto construído para evitar vazamentos radioactivos, mas a explosão de hidrogénio parece ter danificado essa estrutura.
  •  Não é possível fazer comparações com o incidente de Chernobyl, em termos de distribuição espacial da radiação através de um evento explosivo (na URSS havia grafite misturado com vapor), e, em qualquer caso, o desastre ambiental, embora se limitado a uma pequena área (e vamos ver quanto pequena) é certo.

Pois não, não são boas notícias.


Ipse dixit.


Fontes: Aspo, Público, Rischio Calcolato ,The Guardian

1 comentário:

  1. Oi Max,

    Não...não são boas notícias, aliás, a falta delas é deprimente. Obrigada pela síntese! Vai para as notícias!

    Grande abraço

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