11 março 2011

Lethal Warriors














"Lá eu vi coisas que ninguém jamais deveria ver"
Devil (história de M. Night Shyamalan)


A cada noite da sua vida desde que voltou do Iraque, Sheldon T. Plummer (de Olympia, Washington) acordava de repente às três horas. Pensava fosse culpa do diabo e até deixou isso bem escrito num fórum dedicado a este assunto.

Existem vários destes fóruns, falam de narcolepsia, de Old Hag (a Velha Sob o Lençol), de despertar súbitos às 3:33 (a metade do número diabólico), de raptores alienígenas do outro lado da janela.
Acordo todas as noites às 3.33. Estremeço e o quarto está frio, e esta coisa não tem explicação porque o sistema de aquecimento funciona perfeitamente. Nem sequer há explicação para essa precisão horária: se colocar o relógio para trás meia hora, abro os olhos às 3:03.
Jesus morreu às 3:00 e as bruxas fazem o próprio trabalho sujo naquela hora.
Não acordo todas as noites mesmo às 03:00. Mas acordo muitas vezes. E uma noite vi acima de mim uma figura escura, com a textura da neblina, alta até o tecto. Estava prestes a levantar-me e correr para ligar a luz, mas a coisa voou acima de mim, mais rápido que uma bala. E sussurrou no meu ouvido palavras que realmente não quero lembrar.



No fórum não faltavam experiências demoníacas.

Mas Plummer já tinha encontrado o seu demónio no Iraque e arrastou-o de volta para Washington.
O resultado foi que entre um despertar e um pesadelo, Plummer matou a sua esposa, depois corou-a em pedaços, inspirado pelas instruções da série televisiva Dexter.

Não é de agora que uma certa percentagem de Marines dos Estados Unidos volta do Iraque e do Afeganistão, chega em casa e descarrega a própria agressão contra as esposas, namoradas ou estranhos escolhidos aleatoriamente.

Se não matarem alguém, matam-se a um ritmo impressionante: 18 veteranos por dia escolhem o caminho do suicídio. O fenómeno é conhecido desde 2004, mas a escolha, quando possível, foi sempre a de não falar do assunto ou falar muito pouco.

Mateus Perkins e os outros

No passado Setembro, Mateus Perkins 30 anos e duas campanhas no Afeganistão e no Iraque, matou em Manchester, Tennessee, a sua namorada e dois filhos desta, colocou os corpos em sacos de lixo e fechou tudo no armário por vários dias.

Não havia nenhum atrito entre Perkins e a mulher. O homem gritava muitas vezes durante o sono e acordava de repente, encharcado de suor, perguntando em tom de desespero "Quem é?".
Eric Acevedo esfaqueou a namorada até a morte poucas horas após o regresso do Iraque.

Joseph Dwyer estava assombrado por demónios há alguns tempos, quando um dia viu na estrada uma normal caixa de papelão branco, achou isso uma bomba prestes a explodir e provocou um acidente de carro.

Alguns meses mais tarde, Joseph ficou fechado no próprio apartamento e começou a atirar pela janela.
Para um caso extraordinário, ninguém ficou aleijado, mas a polícia levou um dia inteiro para convence-lo de que não havia ninguém que o quisesse matar.

Agora Joseph já não está nesta terra, matou-se com uma overdose de calmantes.

Jeff Lucey, 23 anos, regressado da primeira fase da operação chamada Decapitation Strike, enforcou-se no porão da casa dos pais.

A mãe disse publicamente que, no mês em que tinha participado na invasão, Jeff escreveu cartas para a namorada nas quais descrevia as monstruosidades que tinha visto e que tinha de fazer.

Uma vez em casa, começou a falar de forma confusa acerca de Nasiriyah, cidade onde se realizou a primeira grande batalha entre os Marines e os Iraquianos. À noite, por volta das três horas, às vezes antes, por vezes depois, atirava-se fora da cama aos gritos.

Depois duma noite em que não tinha dormido, recebeu a sua irmã Amy, com as lágrimas nos olhos, e disse ser um assassino. Declarava-se "culpado".

Antes de enforcar-se, Jeff deixou em cima da cama as placas de identificação dos soldados iraquianos que tinha morto. embora desarmados.

Peter Mahoney, antes de ir para a garagem e ligar-se ao tubo da exaustão do carro, vestiu a uniforme com a qual tinha servido.

Keith Nowic, de regresso do segundo turno no Iraque, foi enviado ao longo dum ano para a Warrior Transition Unit de Fort Carson, Colorado Springs, onde colectou solidão, álcool e drogas, e acabou tudo com o divórcio.

Suicidou-se em Março de 2009 enquanto estava ao telefone com a ex-esposa.

Em Fort Carson tinha conhecido os Lethal Warriors, os da Quarta Divisão de Infantaria, veteranos de Falluja: nove assassinatos cometidos por membros da mesma brigada, mais de 145 incidentes de violência doméstica e 38 estupros.

Todos estes, naturalmente, não são demónios.
Se assim forem, os remédios seriam bastante simples.


PTSD

Em vez disso, são os sintomas da agora já não censurado PTSD (Post Traumatic Stress Disorder), que existiu desde os tempos do Vietname, mas só a partir dos anos oitenta é reconhecido como uma doença grave e debilitante (os seguros americanos, todavia, incluíram a doença nos seus protocolos só em 2004 ...).

Uma síndrome que mata mais em casa do que no campo de batalha, embora nunca as autoridades militares confirmariam isso, porque os veteranos são tecnicamente civis.
E depois, no entanto, após os sintomas chegam os demónios.

De acordo com um estudo realizado pela Universidade da Califórnia, são trezentos mil os soldados que voltaram do Afeganistão e do Iraque com sinais claros de desequilíbrio mental: uma emergência que o exército enfrenta apenas com 400 psiquiatras.
Com as prisões que são preenchidos com os veteranos: 23% dos presos, um número tão alto que a ideia é criar tribunais especiais e penas alternativas.

Uma investigação feita pela revista Time diz que os suicídios entre os soldados atingiu números recordes: 106 em 2006, 115 em 2007, 128 em 2008. É bem 334 em 2009: no mesmo ano, 316 foram os mortos em batalha no Afeganistão e 149 no Iraque.

Mas considerando que só uma tentativa de suicídio é bem sucedida em cada dez, o número daqueles que procuram acabar com isso sobe para três mil soldados por ano.
Sempre admitindo que os dados sejam reais, pois, sugere o Huffington Post, os números são difíceis de encontrar, poderiam ser maiores. E estamos a falar apenas de soldados em uniforme: no que diz respeito aos veteranos, os números são apenas hipotéticos, porque, como referido, são civis.

O suicídio, facto conhecido e não desde agora, muitas vezes torna-se epidemia.

No mês de Junho de 2010, 32 soldados mataram-se, o maior número já registado. Os psiquiatras e psicólogos militares não têm conhecimento suficiente para lidar com esse desconforto.

Mark Russell, comandante da Marinha especializado em doenças mentais, constatou que 90% do pessoal que desempenha essas funções não têm a formação necessária para o tratamento do TEPT. Limita-se a prescrever medicamentos, tais como Paxil, Prozac e Neurontin, que realçam e até mesmo causam sintomas. Em qualquer caso, o transtorno mental associado ao PTSD pode tornar-se incontrolável. E transformar o sujeito que é afectado num guerreiro letal em solo nativo.

Difícil pensar que quem é treinado a matar para não ser morto, depois de voltar para casa possa inserir-se como se nada tivesse acontecido numa vida normal de regras, etiqueta e respeito pelos outros. Difícil pensar que esta pessoa não tenha pesadelos e acorde aos gritos, mais ou menos às três horas da manhã.


Contágio

Num programa intitulado The War Within, transmitido pela Al Jazeera e dedicado ao PTSD, a psiquiatra americano Barbara Van Dahlen fez declarações inquietantes. Aqui está um resumo:
O PTDS é contagioso. Os veteranos voltados para casa, quando em lugares lotados, no supermercado, em grandes shopping centers ou em restaurantes muito ruidosos, tornam-se ansiosos porque não podem efectivamente examinar o ambiente e não se sentem seguros.
Para os soldados envolvidos nas explosões em veículos blindados ao longo das estradas do Afeganistão e do Iraque, as mulheres relatam que muitas vezes conduzem no meio da estrada, o que é claramente muito perigoso aqui os EUA.
Mas fazem isso porque as bombas eram colocadas em ambos os lados da estrada, não reconhecem ou percebem que estão a mexer-se em direcção ao centro da estrada, mas o cérebro está a considerar uma potencial ameaça. 
O contínuo estado de alerta é devido ao temor de que haja sempre um perigo, pois qualquer pessoa que tenha sofrido um trauma foi atingida por um evento que não podia controlar, muito terrível, destrutivo, perigoso, ou todas essas coisas juntas.
Assim, o cérebro ainda fica em estado de alerta por medo de outro ataque ou outros eventos incontroláveis. É como se não houvesse uma demarcação entre a linha de frente e a casa, onde, por definição, deveria haver apenas a paz.
De facto, hoje a guerra está em todos os lados. Porque é dentro.
Não existe apenas o medo do terrorismo após o 11 / 9, mas o medo que os veteranos trazem com eles, infectam família e amigos. É este e verdadeiro problema que surge no tratamento do estresse pós-traumático.
Não é apenas acerca dos soldados que voltam para casa, mas também acerca das suas famílias. Temos até cunhado um termo, "trauma secundário", referido ao fenómeno de familiares de pacientes com estresse pós-traumático que desenvolvem os mesmos sintomas.
Assim atinge esposas e filhos e todos os que passam muito tempo em contacto com os veteranos. Existe um poderoso "efeito cascata" que vai além do núcleo familiar e, em seguida, estende-se aos colegas de trabalho, ao sistema de ensino quando de volta aos campus da faculdade.
É por causa deste significativo "efeito cascata" que nós, operadores sanitários, percebemos isso como uma emergência real. E temos que lidar com isso.

Tudo isso, e especialmente a questão do contágio, remete ao simbolismo profundo que vem do despertar em pânico, às 3:00 ou 3:33, por aqueles que sofrem de PTSD.

São experiências visualmente demoníacas que tendem a materializar o Mal, para poder observa-lo e talvez controla-lo, aludem à perda definitiva da inocência.

Após os tumores causados ​​pelo urânio empobrecido e a Síndrome da Guerra do Golfo, algo pior está a chegar para o beligerante Oeste: a escuridão.



Fonte: Carmilla
Tradução e adaptação: Informação Incorrecta

1 comentário:

  1. Vitor13.3.11

    Muito interessante este post, as técnicas de guerrilha causam danos não somente no campo de batalha, mas na psique dos combatentes.

    Soldados treinados a combater um inimigo fardado, identificável; quando entram em combate deparam-se com guerrilheiros que combatem em trajes civis, ataques sorrateiros, levando a destruição não somente física mas também mental. Onde cada rosto na multidão torna-se um inimigo em potencial, cada esquina, uma ameaça...

    Por mais eficiente que seja o treinamento visando tornar homens em máquinas de matar, ainda assim, são apenas homens.

    Fica claro o papel dos soldados americanos nas mãos de seus governantes, máquinas de matar, visando somente a agressão em nome de interesses escusos travestidos nas palavras: Pátria, Liberdade, Democracia, etc.

    São tratados como cães, com suas 'dogtags' no pescoço, sem amparo, abandonados a sorte, mentalmente despreparados.

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