01 março 2011

A origem do Mal

Há uma questão que sempre deixou-me (ou "me deixou"? Bah, idioma esquisito...) com dúvidas: o papel dos "maus" na Bíblia.

Espero com este artigo de não ser acusado de heresia, blasfémia, satanismo ou outras idiotices.
Simplesmente ponho algumas dúvidas.
E se alguém puder responder, ainda melhor.



O livre arbítrio

Deus é, por definição, omnisciente: sabe tudo. Presente, passado, futuro. O que pensamos, o que fazemos, o que estamos prestes a fazer. O que será feito.

Isso criou alguns problemas no passado: se Deus conhece o futuro e não intervir para impedir acontecimentos tristes, pode ser considerado responsável?

Por esta razão foi introduzido o livre arbítrio, a capacidade de cada um de nós escolher o próprio futuro: com isso, as coisas boas são de Deus, as más são o fruto dos nossos pecados.

Mas também o livre arbítrio tem graves implicações. Se eu posso escolher de forma livre e não condicionada, isso significa que nem Deus sabe qual o futuro. Em outras palavras: Deus é "quase omnisciente". Mas um Deus "quase omnisciente" não é um Deus, é um "Quase Deus".

Por isso a ideia do livre arbítrio é aceite na religião católica enquanto é recusada pelos Luteranos e Calvinistas: segundo estes, o Deus é omnisciente ou não é Deus, e ponto final. E, admito: acho que faz sentido.




Lúcifer, o azarado

A queda dos Anjos, Bruegel o Velho, 1562
Não é uma questão de secundária importância. Vamos ver a razão.

Lúcifer, o Diabo, Satã, em princípio era o Arcanjo mais bonito do grupo, o mais próximo de Deus. O nome Lúcifer significa de facto "portador de Luz".

A história é bem conhecida. Para simplificar: Lúcifer quis ser como Deus, Deus ficou irritado e Lúcifer, com os anjos rebeldes, foi condenado para o resto de sua existência. E esta é origem dos nosso problemas (além dos impostos, claro).

Agora, o ponto é o seguinte: Deus sabia da revolta de Lúcifer? A resposta pode ser só uma: sim, sabia. Se é omnisciente, tinha que saber.

Hipótese contrária: Deus não sabia da revolta? Então Deus não é omnisciente, o que não pode ser.

Mas porque saber da próxima revolta do melhor entre os anjos e nada fazer para impedi-la?
Resposta: porque o Mal era necessário. De facto, Lúcifer organiza a própria revolta na altura em que o Homem aparece (se lembro de forma correcta): na altura certa para desenrolar os acontecimentos (Eva, a maçã, etc.) que darão origem à nossa história bíblica.

Este é um pensamento com implicações gravíssimas. 

Lúcifer tinha um papel bem definido, algo que já estava preparado.
Poderia Lúcifer não ter-se rebelado? Se aceitarmos o livre arbítrio a resposta é "sim, poderia".
Mas neste caso temos que imaginar um mundo sem Lúcifer e sem o seu Mal: nada de pecados, nada de pensamentos impuros (!!!!!!!!!!!), nada de Cristo Salvador (salvar quem?), nada de Juízo Final (julgar quem?).

O mundo seria um planeta cheio de santos.
Aborrecido, não é?

Portanto a pergunta é: Lúcifer realmente escolheu rebelar-se ou não tinha outras escolhas? Eu acho que não teve escolha: os planos de Deus tinham de ser respeitados. E os planos de Deus incluíam a presença do Mal, para que fosse possível escolher entre os opostos.

Com boa paz do Diabo.

Não concordam? Acham que o Mal surgiu de maneira independente de Deus? Então voltamos à questão anterior: Deus não sabia do Mal, Deus não é omnisciente.

Complicado, não é?

Eva e a maçã

Adão e Eva, Cranach o Velho, 1531
Mesmo raciocínio com Eva.

Deus poderia ter dito: "Eva, filha, abres bem os ouvidos: há por ai uma cobra, ela vai tentar convencer-te a comer uma maçã da árvore proibida, tu não aceites, entendeu? NÃO ACEITES!".

E eu, nesta altura, estaria a escrever Informação Correcta a partir do Paraíso, com 70 virgens...ah, não este é o outro. Bom, num lugar melhor.

Mas se Eva tivesse recusado (ou por causa das ordens, ou por causa do livre arbítrio), nada de pecados, nada de pensamentos impuros, etc. etc...

Sabia Deus da cobra? Sabia.
Sabia Deus que as mulheres, além de conduzir mal (na maioria dos casos), não resistem às maçãs? Sabia. 

E os planos de Deus? O Bem, o Mal?
Pois...



Judas e a conspiração

Judas merece mais algumas palavras. De facto, há várias teorias acerca desta figura. Na visão gnóstica, Judas não foi um traidor mas um servo fiel que fez o que lhe tinha sido ordenado de fazer.

Nomeadamente, há quatro possibilidades:
  1. Jesus não previu a traição de Judas;
  2. Jesus não foi capaz de impedir a sua acção;
  3. Jesus permitiu que Judas traísse;
  4. Judas foi cúmplice informado do destino planeado de Jesus
Cattura di Cristo nell'orto, Caravaggio, 1602
Os Evangelhos deixam entender que Jesus permitisse a traição. Mas também aqui as implicações são profundas e são do mesmo género das já tratadas: Judas teve a possibilidade de escolher?

Sem a traição de Judas, não haveria Crucificação e não haveria Ressurreição. Na prática: não haveria Cristianismo.

Judas é também o tema de muitos tratados filosóficos, incluindo The Problem of Natural Evil, de Bertrand Russell, e Três Versões de Judas, de Jorge Luis Borges. Ambos realçam as contradições presentes nos Evangelhos:
  • Se Jesus prevê a traição de Judas, então Judas não tem livre arbítrio e não pode evitar de trair Jesus.
  • Se Judas não pode controlar a sua traição, então a sua punição como um traidor e a consequente representação na cultura ocidental não é merecida.
  • Se Judas foi enviado ao inferno por causa da sua traição, e sua traição foi um passo necessário para a morte de Jesus Cristo e a salvação humana, então Judas foi punido para favorecer a salvação humana.
  • Se Jesus sofreu ao morrer na cruz e, em seguida, subiu ao Céu, enquanto Judas tem que sofrer para a eternidade no Inferno, então Judas sofreu pelos pecados da humanidade, mais do que Jesus e o seu papel na penitência é, portanto, muito mais importante.
Delirantes fantasias anticlericais? Não, pois até um cristão como o teólogo Hugh J. Schonfield, por exemplo, aceitou a ideia de Judas como executor duma conspiração organizada por Jesus.

E mesmo sem ir tão longe, temos de admitir que a questão é complexa.
E pode ser resumida nesta pergunta: qual a origem do Mal?

Podemos pensar "É a vontade de Deus, não vale a pena perguntar" e dormir descansados. Ou podemos tentar conectar os poucos neurónios disponíveis.

O leitor é que sabe.
Ámen.


Ipse dixit.

14 comentários:

  1. Gostei muito do texto, instigante e muuito bem humorado. Acompanho sempre seus post - adoro o blog =D

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  2. Deus criou tudo. Então pela lógica criou o mal. Há três caminhos para encontrar Deus: pela negação, dúvida ou afirmação. O livre arbitrio entra ai junto com o mal: escolha da negação. Como pais insistindo para que a criança nao toque em algo quente, e esta continua persistindo, deixamos para que ela sinta por si só. Posso dizer também que como pai, espero que meu filho cresça com moral, honestidade e integridade. Deus espera isso e muito mais de nós. Mas nos desmoralizamos e corrompemos nossos corpos e mente.

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  3. Quanto mais Fogo mais puro o OURO, e mais queimada a palha.

    A presença do mal pode ser encarada como uma forma de demonstrar AMOR a Deus. Quando seu filho deixa as drogas e baladas para ficar em casa comigo, demonstra amor pelo pais.

    Corrigo o comentario anterior. Deus nao cria o mal, o homem é que cria o mal com suas atitudes. Deus somente permite o mal quando este é para o bem, senao ele mostra sua ira como em Sodoma e Gomorra.

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  4. Fernanda1.3.11

    Como você disse Max, Deus é Deus.
    Não há nada que Ele não saiba, bem, mal, tudo é determinado por Ele, para Ele, para Sua honta e glória, se entendemos ou não, é por escolha dEle, pois é o Criador.

    Sobre livre-arbítrio é exatamente o que estou pesquisando, e bem e o mal.

    Coincidência? Não há.
    http://kalamo.blogspot.com/2009/12/incoerencia-do-livre-arbitrio.html
    http://ministeriobbereia.blogspot.com/2011/02/o-teismo-aberto-e-o-livre-arbitrio.html
    http://kalamo.blogspot.com/2011/02/livro-do-mes-deus-e-o-mal.html#comments

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  5. Fernanda1.3.11

    Este artigo aborda a responsabilidade humana e a Soberania de Deus, é uma exposição da leitura do livro A Soberania Banida de R.K. McGregor Wright, que deu base para o artigo da Incoerência do Livre Arbítrio.

    Na parte que me toca, esclarece (mais detalhadamente) a responsabilidade do ser humano em tudo, apesar da não existência do livre arbítrio e a determinação de Deus.

    Abraço fraterno.

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  6. Fernanda1.3.11

    Olha a cabeça está voando, hein?

    Link esquecido:
    http://kiestoulendo.blogspot.com/2009/09/soberania-banida.html

    Desculpe.

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  7. Obrigadíssimo Denise!

    Comentários como este são a razão pela qual um blogueiro continua o próprio trabalho.

    Ok, ok, algumas críticas de vez em quando são úteis e necessárias, mas enfim, porque fazer-se sempre mal?

    Grande abraço!

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  8. Olá Luiz!

    É por isso que o blogue existe: trocas de opiniões. Caso contrário, Informação Incorrecta seria um monologo aborrecido.

    Posso não concordar em tudo (ou melhor: as afirmações de Luiz podem não resolver todas as minhas dúvidas, que são muitas), mas representam uma contribuição na pesquisa, que é sempre a mesma: tentar perceber qual a Verdade.

    Obrigado Luiz!

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  9. Olá Fernanda!

    Vou já ver os links. O assunto é extremamente interessante.

    Obrigado!!!

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  10. Olá Max,

    o texto é interessante e as questões são legítimas. Como se costuma dizer "ninguém é dono da verdade" e como tal, eu não o sou. E cada um interpreta tudo como quer - LIVRE-ARBÍTRIO.

    Como já me apercebi, és uma pessoa que não recusa o conhecimento, pois tens uma mente aberta e só fazes juízos após pesquisar bastante e após conhecer os vários intervenientes da história.

    Deixo-te então este link: http://www.febnet.org.br/site/livros.php?SecPad=370&Sec=373

    O Espiritismo traz-te as respostas que procuras.

    E sim, Adão e Eva são alegorias, tal como Lúcifer/Besta/Diabo/whatever...

    Boas leituras.

    Qualquer esclarecimento, avisa: silvasaraiva@gmail.com
    Sou iniciante na matéria (sensivelmente 1ano e meio), mas já poderei ajudar-te com algumas respostas. :)

    Cumps,
    -- --
    R. Saraiva

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  11. Fernanda2.3.11

    Continuo na pesquisa (minha e pessoal), compartilho artigo e explanação do livro "Confissões" de Agostinho de Hipona, absorvo muito dos comentários, aqui fala muito do bem e mal,

    links:
    http://kalamo.blogspot.com/2010/05/preso-na-propria-armadilha.html
    http://kiestoulendo.blogspot.com/2010/04/confissoes-santo-agostinho.html

    este também é sobre o tema,

    link:
    http://kalamo.blogspot.com/2009/11/mysterium-compatibilista.html

    espero que lhe ajude também, são pessoas inteligentes a discutir o assunto.

    Grande abraço.

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  12. Vitor3.3.11

    Suadações Max!

    Excelente indagação, mas primeiramente, de onde vem esta história de Lucifer? Na bíblia não encontro.

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  13. Deus ninguém sabe o que é , mas o que ele não é de certeza Absoluta , é Antropomórfico !... Livre Arbitrio claro que sim , somos Livres de escolher o nosso Caminho aliás é o que fazemos todos os dias e sofremos ou não os erros das nossas opções , as Religiões não são as Donas da verdade , quando muito a manipulam isso Sim , a Biblia ou mais própriamente os Livros assim é que é não passa muitos deles Histórias sem Interesse e outros Pelágios de outras Civilizações anteriores aproveitadas pelos Hebreus ou seja a Casa de David !... O Novo Testamento é Obra de Constantino Imperador Romano que Junta o Divino com o Profano para Prolongar o Império que Sobrevive até Hoje , foi uma Grande Manobra Politica que tem Resultado em Pleno , Como Dizia Robert Ingersol « Religião é Escravidão » e é verdade as pessoas nem se apercebem disso pois Funcionam através do Medo e da Ignorância como algumas opiniões dadas Para tentar desmistificar Metáforas o que como é Evidente não é Possivel , Quanto A Lúcifer (Estrela da Manhã) ele não é Satã e aqui novamente ninguém sabe quem É , embora muita gente tenha opinião sobre Ele , o que ele significa para a Raça Humana e o que veio fazer , mas isso deixo para outros pois já falei demais .

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  14. Return27.4.17

    Não esqueçamos que o homem é condicionado pelo próprio homem...portanto o livre arbítrio é relativo...

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