21 março 2011

Os leves cofres de Washington


Michael R. Kratka, membro do Conselho Editorial da SINPERMISO, é professor de Economia e Direito Tributário da Universidade de Amesterdão, pesquisador do Instituto de História Social Internacional na mesma cidade, professor e diretor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Lancaster, no Reino Unido.

De Kratka é esta visão acerca da actual situação económica dos Estados Unidos.


Parecia impossível...

O FMI e as agências de notação parecem ter percebido que a crise da dívida é mais grave nos os EUA de que na Zona Euro: o orçamento de 2011-2012 espera-se um endividamento médio dobro da União Europeia.

Vale a pena espreitar: que acontece no outro lado do Atlântico.

Esquisito: há muitos mecanismo que em teorias deveriam impedir um descarrilamento da dívida e do défice. Muito mais aqui que no Velho Continente.

Desde 1917 existe um quadro jurídico para a dívida federal, todos os estados (excepto Vermont) são obrigados a apresentar um orçamento equilibrado. No entanto, os Estados Unidos estão a afundar cada vez mais nas dívidas, como a Irlanda, a Grécia e Portugal.  Aliás: pior.



Não é por acaso que as agências de rating ameaçam os Americanos com uma desvalorização drástica.
Nos EUA fala-se duma desvalorização dos Títulos americanos abaixo do nível do Japão.

Pela primeira vez no Congresso vai ser discutida a possível falência de alguns Estados que fazem parte da União, uma situação que a Constituição nem contempla. Ações desse tipo são arriscadas, mas de acordo com Patrick McHenry, o novo presidente republicano do Comité de Auditoria da Câmara dos Deputados, o problema precisa de ser debatido.

O presidente do Banco Central, o impávido e sereno Ben Bernanke, vai mais longe e sugere nada menos do que a falência federal central.


Fluxo de caixa 

O Secretário do Tesouro, Geithner, pediu ao Congresso para aumentar o limite de endividamento e aumenta-lo até 14.300 milhões de Dólares (nada mais, nada menos...), mas os Republicanos recusaram.

Caso não haja um acordo entre o final de Março, a potência mundial entrará, de facto, em falência.

Uma situação que é realmente inconcebível, mesmo um parlamento dominado pelos Republicanos terá de ceder e aumentar o limite: claro, em troca de mais cortes nas despesas.

A dívida pública federal para o próximo exercício orçamental, que começa em Junho, é de cerca de 14.800 milhões de Dólares.

Desta forma, os EUA apresentam uma dívida que de 100% e um défice igual ao da altura pior de 2009, no meio da crise global. O maior credor é o banco central (a Federal Reserve), seguido de perto pela China, o Japão e alguns Países do Golfo e Grã-Bretanha. Enquanto isso, o prazo médio dos Títulos de Estado é de 50 meses: isso significa que nos próximos 12 meses será preciso de refinanciar 40% da dívida federal. Não surpreende, então, que haja rumores para  prorrogar a validade dos Títulos até 50, 60 ou 100 anos.

Não apenas o governo central, mas também a maioria dos Estados federados anunciam grandes buracos nos orçamentos: 125.000 milhões de Dólares para os orçamentos 2011-2012, enquanto que para o ano em curso o total foi superior à 130.000 milhões .

Todos os Estados federados apresentam, em média, um deficit de 20%. Quanto mais aumentar a crise da habitação e do trabalho, maior será o défice, também regional. A mais grave crise desde os anos 30 já atingiu as receitas fiscais, que são actualmente 12-15% abaixo do nível pré-crise.

Sem o apoio financeiro da União, cerca 140.000 milhões de Dólares desde o início de 2009, que abrangeu cerca de 30-40% do deficit, muitos Estados estariam falidos há muito tempo.
Sem uma nova dívida, sem fluxo de caixa a partir de Washington, o deficit dos Estados nunca poderia ter sido financiado.

 


O caso Califórnia

Agora, todavia, a torneira do dinheiro está fechada, o que provocou pânico financeiro, e todos os governos federais estão desesperados.

Jerry Brown, que só tomou posse em Janeiro, já disse que a situação da Califórnia é de emergência financeira.

Então os prisioneiros são libertados antes do tempo, as férias escolares são prolongadas, escolas, universidades, bibliotecas e museus ficam fechados (ou privatizados), os salários são reduzidos drasticamente, a oferta de empregos públicos é paralisada, milhares de funcionários são enviados para férias ou convidados a reformar-se mais cedo .

Desta forma, as contas são ajustadas e parou-se de pagar facturas de milhões de Dólares tais como as acumuladas ao longo dos anos; obviamente,  com previsíveis desastrosas consequências para a economia regional, apoiada na demanda pública. Impostos e taxas várias aumentaram consideravelmente em 30 Estados federais; e será preciso aumenta-los novamente.

Cidades, municípios e Estados da Federação agora apresentam dívidas por um total de 3.000 milhões de Dólares. Conseguirão funcionar ainda um pouco com a ajuda financeira federal.

Em 2011 acabou o programa Build American Bonds, com o qual a União tinha assumido. E este será um problema, pois, ao contrário do que acontece na Europa, as cidades dos Estados não têm grande capitais e têm dificuldade nas emissões de Obrigações do Tesouro (o New Jersey acabou de falha na operação).

Os juros disparam e as coisas irão tornar-se realmente sérias quando o gigantesco deficit de fundos de pensões entrar em campo. As perdas multimilionárias sofridas por estes depósitos durante a crise não podem ser cobertas pelos Estados Federais.

A verdade é que nos Estados Unidos não é possível ver no horizonte o fim da crise financeira.


Fonte: Rebelión
Tradução e adaptação: Informação Incorrecta

2 comentários:

  1. Xenofonte22.3.11

    A falencia tecnica de alguns estados importantes tais como California,Michigan,Illinois e Nova Iorque e' preocupante para a maior economia mundial. A sua alta divida publica nao tem parado de crescer e diria que andarem metidos em mais uma guerra so os vao obrigar a pedir mais emprestimos.
    O dolar, por sinal, tem desvalorizado a cada dia que passa. Neste momento ta a 75.56. Sera que hoje atinge os 75.00?

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  2. Olá Xenofonte!

    O bom Obama foi muito claro: na Líbia a intervenção é limitada, não é uma guerra, parece mais um passatempo. Obama sabe que há resistência no interior do País, por isso quer que o comando das operações passe para a Nato, o mais depressa possível.

    Difícil justificar uma guerra quando tens de fechar escolas no teu País. E mais: uma guerra "humanitária" num País que a maioria dos Americanos terão dificuldades em individuar num mapa.

    Não é esta a guerra de que os EUA precisam.
    Doutro lado, dado que desencadear uma guerra "séria" e "já" parece complicado, são precisas distrações.

    A ameaça radioactiva e os Chineses servem, por enquanto, para esconder um Dólar cada vez mais débil que favorece as exportações, sem dúvida, mas comporta efeitos negativos também. Trava as importações, por exemplo, encarece o petróleo.

    E as respostas do bom Obama neste sentido, por enquanto, não parecem produzir grandes efeitos. Aliás, a dívida não pára de crescer.

    Situação complicada, pela qual não há soluções no horizonte.

    Abraço!

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