23 março 2011

Portugal para estrangeiros: Provas Técnicas de Crise

É hoje? Amanhã?
seja como for, parecer uma questão de horas.

Portugal, um dos muitos Países tecnicamente falidos, está preste a perder o governo e entrar numa espiral de...nada. Pois sem um governo tudo pára.

Tudo? Não é bem assim.
Os mercados, por exemplo, não param. Aliás, observam e compram. Comprar a dívida dum País tecnicamente falido e sem um governo? Possível, mas tem riscos.
E riscos significa juros mais altos.
E juros demasiado altos significam ajuda da Dupla Maravilha: Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional.



José Sócrates
Assim, as probabilidades de Portugal juntar-se ao grupo dos PIGS imolados no altar do Euro são maiores agora do que nunca.

Após a Grécia e a Irlanda, eis (talvez) Portugal. É só consultar os velhos post deste blog, por exemplo, para perceber que tudo está a correr conforme as previsões.

Breve resumo dos últimos episódios.

O Primeiro Ministro, José Sócrates (Partido Socialista), após o PEC (Pacto de Estabilidade e Crescimento, um conjunto de medidas económicas para tentar melhorar a situação do País), voa até Bruxelas.

E ai, entre abraços e apertos de mão, eis a má notícia: o PEC não chega, é preciso outro PEC.
E desta vez é directamente Bruxelas que passa as ordens (o novo PEC foi pensado com a "ajuda" dos técnicos europeus), e o Primeiro Ministro pode só aceitar.

É aqui que a situação fica mais complicada: Sócrates poderia simplesmente voltar para Portugal e anunciar as novas medidas, coisa que efectivamente faz, mas com algumas "particularidades": não avisa previamente o Presidente da República ou outras figuras institucionais.
Avisa apenas (telefonicamente) o leader do principal partido da oposição, Pedro Passa O Coelho (ou algo de parecido).

A razão? Entre as várias explicações, eu prefiro esta: o actual Primeiro Ministro quis acelerar a crise. Porquê? Porque não quer tornar o seu partido, o Partido Socialista, o único responsável pelas pesadas medidas que serão introduzidas e não quer estar no poder quando a "ajuda" do BCE e FMI chegar.

O plano resulta. O principal partido da oposição, Partidos Social Democrata, começa a gritar como um possuído, este PEC não passará. Isto porque o PSD está convencido de poder ganhar as próximas eleições e formar assim um governo de maioria (o actual é um governo de minoria), provavelmente com a ajuda do partido de Direita, o CDS-PP.

Parece simples, mas não é.
O problema que é esta pode ser uma crise nada fácil.
Esta é a última sondagem publicada (Março de 2011) acerca das intenções de voto dos Portugueses.

Ficha Técnica:
Estudo de opinião efetuado pela Eurosondagem, S.A. para o Expresso, SIC e Rádio Renascença, de 23 a 28 de fevereiro de 2011. Entrevistas telefónicas, realizadas por entrevistadores selecionados e supervisionados. O universo é a população com 18 anos ou mais, residente em Portugal Continental e habitando em lares com telefone da rede fixa. A amostra foi estratificada por Região (Norte - 20,6%; A.M. do Porto - 14,5%; Centro - 29,4%; A.M. de Lisboa - 25,8%; Sul - 9,7%), num total de 1021 entrevistas validadas. Foram efetuadas 1336 tentativas de entrevistas e, destas, 315 (23,6%) não aceitaram colaborar Estudo de Opinião. Foram validadas 1021 entrevistas, correspondendo a 76,4% das tentativas realizadas. A escolha do lar foi aleatória nas listas telefónicas e o entrevistado, em cada agregado familiar, o elemento que fez anos há menos tempo. Desta forma aleatória resultou, em termos de sexo (feminino - 53,0%; masculino - 47,0%) e, no que concerne à faixa etária (dos 18 aos 30 anos - 19,6%; dos 31 aos 59 - 47,6%; com 60 anos ou mais - 32,8%). O erro máximo da amostra é de 3,07%, para um grau de probabilidade de 95,0%. Um exemplar deste estudo de opinião está depositado na Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

O que falta? Uma maioria. A confirmar este resultados, PSD e CDS-PP juntos não obtêm a maioria dos votos. O que significa um novo governo de minoria. O que significa instabilidade. Muita instabilidade.

Para concluir, o comentário de Xenofonte (que agradeço), enviado há poucos dias, que bem fotografa a actual situação deste cantinho de terra à beira do Oceano.
Penso que atravessamos um momento crucial no que toca ao destino de Portugal.

E de certa forma penso que o cenário mais provável, ou seja a subida do Passos Coelho(PSD) ao poder, vai ter uma pitada de ironia malvada, pois a grande maioria daqueles que estão a manifestar para pedir a demissão do governo (com razão em muitos pontos) são aqueles que mais vão ser afectados pela mais que provável entrada do FMI (consequência muito provável após a subida do PSD).
O pedido de ajuda ao FMI vai de encontro com a ideologia do Passos Coelho, a discutida privatização de serviços públicos, despedimentos de sectores ineficientes e ajuste mais sério das contas publicas (que implica a queda de subsídios, muito provavelmente o 13º mês, entre outras medidas).

Pedro Passos Coelho
Apesar de concordar com a obrigatoriedade de certos cortes e da necessidade de afinar sectores da máquina do estado (dois exemplos :acabar com certos departamentos que são buracos gigantes e que em termos de serviço publico real pouco contribuem para o bem estar do cidadão; acabar/reduzir vagas em cursos universitários que não tem empregabilidade), penso que a outra via para combater o deficit, a de aumentar as receitas, é a via correcta.
Este aumento de receitas não pode ser feito através de aumentos desproporcionados de impostos mas sim estimulando as pequenas e medias empresas a aumentarem o seu volume de negócios para assim colectar-se mais impostos e empregar mais gente. Um aumento de incentivos ao empreendedorismo é obrigatório.
Também seria bom vermos o governo a tomar medidas exemplares, que afectassem as classes com maiores vencimentos, tal como a política, jurídica, entre varias outras. O povo precisa de ver esse tipo de medidas para ter alguma fé no sistema.

Outro problema GRAVE de que as pessoas não têm noção é a falta de liquidez do estado para estes investimentos, o que requer a ajuda dos tão falados mercados, ajuda esta, que acarreta juros.
Neste momento estamos presos na espiral da divida e o governo tem poucos instrumentos para sair deste limbo. Gostaria de saber se chegamos ao estado em que todo o dinheiro que andamos a pedir aos mercados é utilizado somente para pagar dividas antigas ou se sobra algum para investimentos. O que sobrar tem de ser investido obrigatoriamente.

Assino por baixo. Podemos não concordar com a nossa sociedade, podemos desejar algo melhor. Mas até quando as regras serão seguidas, até quando decidirmos fazer parte deste jogo, o de cima parece ser o caminho mais certo.

Ipse dixit.


Fonte: Eurosondagem

2 comentários:

  1. NunoSav23.3.11

    É à conta dessas sondagens que a gente anda a ouvir na possibilidade de se formar um governo PS/PSD/CDS sem Sócrates claro!!!!

    Quanto ao comentário de Xenofonte, falta, na minha opinião, o mais importante, recuperar a nossa soberania. Sair do euro e UE, passar a controlar a moeda que circule no país, seja o Escudo ou outra qualquer. Desta forma, se feito de forma responsável, no futuro não será preciso pedir dinheiro emprestado aos mercados. Mas este assunto já foi discutido no blog antes.

    Já agora vejam a Bélgica que não tem governo à ~9 meses, os juros da dívida não dispararam para valores de 2 dígitos até agora!

    http://www.tradingeconomics.com/Economics/Government-Bond-Yield.aspx?symbol=BEF

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  2. Olá Nuno!

    Um governo PS-PSD.CDS seria...bah, nem sei como defini-lo: um monstro? Uma aberração?

    Mas é verdade que conseguiria implementar todas as piores medidas com um sorriso nos lábios: afinal seriam decisões duma super-maioria, democraticamente o máximo. Para o cidadão...eheheh, lembro apenas de expressões ordinárias!

    Abandonar o Euro? Bom, acho que já conheces o meu pensamento. Que em resumo é o seguinte: uma Federação Europeia? Sim, e já. Esta União Europeia? Não, obrigado.

    Da Bélgica falei pouco nos últimos tempo, é verdade, mas é um País bem interessante: à beira da secessão, com uma dívida pública horrível, sem governo há quase um ano...e mesmo assim com juros da dívida baixos.

    Não sei porque, mas tenho a impressão que se a capital não fosse Bruxelas, as coisas já teriam mudado...

    Abraço!

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