13 abril 2011

E o Egipto?


Nenhum dos principais diários em Portugal dedica espaço ao que se passa no Egipto.

A única notícia, neste sentido, é do Público que informa acerca do ex Presidente, Mubarak, que foi detido.
O Público completa o artigo com uma penosa fotografia, que podem encontrar à direita e que reportamos com a legenda original...

Na mesma página encontramos outra notícia, desta vez com fotografia séria: os adeptos do Peñarol têm a maior bandeira do mundo.
São 15 mil metros quadrados e 1880 quilos de puro amor ao Peñarol.
Este foi um projecto em grande. Ou em gigante. Envolveu 200 adeptos, que trabalharam durante quatro meses na bandeira gigante com as cores do Peñarol. Custou mais de 23 mil euros a realizar, mas o efeito foi poderoso.

Chegou ao Estádio Centenário de camião e foram necessárias 300 pessoas para a descarregar. Na entrada da equipa em campo para defrontar o Independiente, numa partida da Taça Libertadores, os adeptos do Peñarol desfraldaram a bandeira gigante, que cobriu cerca de um terço das bancadas do Estádio Centenário.
Dá para ficar comovidos, sem dúvida.
Estamos perante um grande notícia e pergunto como é que ninguém ainda pensou em fazer uma reportagem especial, com tanto de entrevistas aos adeptos.



Mas agora voltamos ao Egipto, pois neste caso não só faltam reportagens especiais como também notícias decentes.

Como está o País das Pirâmides?  Bem, muito bem: a revolução ganhou, a Democracia foi alcançada, os Egípcios nunca tinham sido tão livres, até a Esfinge agora parece sorrir.

Mais ou menos.
Ou menos. Muito menos. Talvez nem por isso.

Assim, aproveitamos o artigo de Informazione Scorretta para fazer um breve resumo e o ponto da actual situação. Vamos ver o que se passou com aquela que foi a primeira grande revolta da África do Norte (a Tunísia foi uma espécie de prova geral).


  Desde 25 de Janeiro até 11 de Fevereiro

Flashback: 11 de Fevereiro, os manifestantes vão bater à porta de Mubarak em casa. O ex-Presidente não demonstra a famosa hospitalidade egípcia e não abra a porta.

Dois helicópteros militares aterram na residência e partem após poucos minutos. Suleiman, o vice-Presidente com o cargo mais breve do mundo, anuncia que Mubarak deixou o poder nas mãos do exército .


Egipto comemora, o povo ganhou

Flash Forward: Depois de muitos dias de festa para comemorar o fim da ditadura, em meados de Fevereiro os manifestantes começam a ter dúvidas de que talvez ainda haja muito para fazer.

Por que a queda de Mubarak foi a prova de que um povo unido pode alcançar o objectivo muito depressa (em apenas 18 dias foi relegado para a história um regime de 30 anos), mas na realidade este é apenas o primeiro passo.

O Egipto é um pivô geopolítico, e os poderes não tencionam perde-lo de forma tão simples.

O comité das Forças Armadas tentam fazer alguma coisa em plena emergência, como ordenar um futuro referendo e nomear um novo governo interino.


O novo governo

Dia 7 de Março, o novo governo nomeado pelo militares jura. O novo governo guiará o País até as próximas eleições. O consenso da população está num nível aceitável.

A presença de figuras não muito comprometidas com o antigo regime reúne o consenso da população, apesar da presença de Mohamed Hussein Tantawi, Ministro da Defesa e chefe do Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF), que ao longo de 15 anos serviu Mubarak e o seu regime.


O referendo

Sábado, 19 de Março, os Egípcios votam a favor do referendo sobre as alterações à Constituição, que prevê essencialmente a proibição da reeleição do presidente mais do que um certo número de mandatos e outras mudanças ao estilo "democrático".

Longas filas na frente das urnas, nunca antes tinha acontecido na história do Egito.

Ganha o SIM e perdem as razões do NÃO, estas últimas apoiadas pelos manifestantes que defendem a necessidade de reescrever a Constituição, em vez de algumas modificações precipitadas.


Novos protestos: Tantawi como Mubarak

A nomeação de Tantawi provoca novos protestos em Tahrir Square.

Há episódios de violência com no centro as forças militares que tentam controlar a população, irritada por causa da lentidão excessiva do novo governo na incriminação de Mubarak e dos outros ex chefes do antigo regime;  no centro das atenções também Tantawi, considerado demasiado perto de Mubarak, e a excessiva proximidade entre militares e policia, esta última sempre pronta a ajudar o ex Presidente.

Os protestos continuam ao longo de semanas, com epicentro na praça Tahrir, até a passada Sexta-feira, dia 08 de Abril, quando o exército entra na praça para dispersar os manifestantes.

Resultado: 71 feridos, e, parece, duas vítimas.


Os últimos desenvolvimentos

Não é fácil  compreender o que está a acontecer no caótico mundo pós-Mubarak, mas o facto é que, sob a pressão dos manifestantes, o novo governo prendeu há poucos dias Mubarak e dois filhos dele.

Alaa e Gamal, estes os nomes dos filhos, estão atualmente na prisão do Cairo enquanto Mubarak sofreu dois ataques cardíacos.
Hoje (às 12:00 horas) dois helicópteros militares aterraram perto do hospital de Sharm e descolaram para o Cairo, provavelmente com Mubarak a bordo.


O futuro do Egipto

Também aqui não é fácil distinguir o que acontece e qual direcção política será mais bem sucedida no futuro, mas algo aconteceu e isso é significativo: o Dossier Gaza, e todas as decisões relativas à fronteira, foi transferido para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, deixando assim de ficar nas mãos das intelligence.

Alguns sinais apontam para uma maior distancia entre o País e a política israeloamericana dos últimos anos e ao mesmo tempo, uma maior proximidade com as bandeiras palestinianas da praça Tahrir.

O novo Ministro das Relações Exteriores condenou os ataques aéreos israelitas na Faixa de Gaza e argumentou que o cerco de Gaza é contrário ao princípios humanitários internacionais.

Também disse que o Egpito deveria repensar a própria política externa depois da revolução.

Sinais, tal como dito.

Conclusão

Ainda há muito a ser feito e as coisas provavelmente não serão resolvidas com apenas um governo: a tradição de prisão, tortura e julgamentos sumários morre só de forma lenta e será preciso tempo para ter uma mudança.
 
E talvez tudo isso não irá comportar o nascimento dum verdadeiro estado livre (pois nem existe a tal coisa dum estado livre, esta é uma contradição em termos).

Por enquanto, mas com altos e baixos, parece que o centro de gravidade política egípcia está a deslocar-se para atender as exigências da população. E isso, em principio, é contrário aos interesses israeloamericanos no Médio Oriente.

Vamos ver se as promessas forem cumpridas, ou se será encontrado um Obama egípcio...



Fonte: Público, Informazione Scorretta

1 comentário:

  1. Os médias não dão espaços para este tipo de notícia. Fazem-nos crer que tudo está as mil maravilhas por lá.

    Eles vão mudar, ou vão deixar do jeito que está?

    Esta é a dúvida.

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