11 abril 2011

Export Land Model

Export Land Model. O quê?

Vou até a bomba de gasolina, carrego no display (ah pois, aqui é tudo automático, gente fina estes Europeus), seleciono 40 Euros de gasolina Super 95.

Chegada aos 25 litros, a bomba pára.
Entupiu-se? Não, um litro custa 1,60 Euros, por isso 40 Euros representam 25 litros de gasolina. Só isso.

A vontade é de dar um pontapé à bomba, ir até a empregada da caixa, apertar-lhe o pescoço, perguntar se acha que eu vou assaltar os bancos para viver, se não acha isso um autêntico roubo, etc. etc.

Depois penso. A empregada provavelmente ganha 500 Euros ou pouco mais, e depois costuma ser simpática.
E o preço da gasolina é baixo.

Baixo???
Sim, baixo, muito baixo.



É difícil dar um valor à gasolina, mas com certeza o total real é muitas vezes superior ao preço da bomba. Nem sei se é possível estabelecer um preço justo.

O que nós costumamos fazer é encher o depósito do carro com o sangue das pessoas. As outras pessoas, as que tiveram o azar de nascer num País pobre. Pobre mas produtor de petróleo, o máximo da ironia.


O porquê das revoltas

Porque deflagraram as revoltas na Tunísia, no Egipto, na Líbia, no Bahrein, na Arábia Saudita, na Argélia?

Resposta estúpida: porque os povos querem liberdade e democracia.

Resposta normal: porque alguém decidiu ser chegada a hora de mudar de regime. Alguém externo aos vários Países, óbvio. E estes "externos" são facilmente identificáveis: Estados Unidos em primeiro lugar, Europa depois, sempre no reboque de Washington.

Mas porque alguém pode desejar uma revolta em Países que, em definitiva, continuam a fazer o que os patrões estrangeiros mandam?
Aqui a resposta é mais complicada. Mas é importante entender, pois é possível também perceber porque as revoltas funcionam em alguns Países e não em outros.

E aqui entra em jogo o Export Land Model.


Abdul, profissão: consumidor de petróleo

Imaginem: o leitor é chefe dum País árabe, amigo dos Estados Unidos. O País produz petróleo, a maioria do qual é exportado. Numa certa altura percebe que o petróleo produzido não é suficiente para a procura, nem externa nem interna.

Interna? Pois é.

Porque os Países mudam. De forma lenta mas inexorável.

O antigo carro de Abdul
Abdul vive no País governado pelo nosso leitor.
Hoje Abdul comprou um carro, talvez o único vendido no País do leitor. Mas Abdul gostou do carro, então trabalha mais para conseguir um segundo carro, destinado ao filho.
Assim, em breve, o País do leitor terá dois carros a circular. E cada carro precisa de gasolina.

Para produzir a gasolina necessária para fazer circular os dois carros são precisos dois barris diários de petróleo (um barril por cada carro? Mas que raio de refinaria tem o leitor?).

Problema: o País do leitor produz 5 barris diários (o leitor poderia esforçar-se um pouco mais, não é?). 3 são exportados, 2 são para o consumo interno.

Mas Abdul um dia terá netos, cada um dos quais terá o seu automóvel.  Quantos netos filhos terá Abdul? Quatro.

E aqui a coisa complica-se.
1 carro de Abdul, 1 carro do filho de Abdul, mais 4 carros dos netos de Abdul: em total 6 carros.
E a produção é sempre de 5 barris.
Eis que o País do leitor já não é exportador de petróleo mas importador.

Este é exactamente o problema do Export Land Model.

Pois o nosso Mundo funciona à maravilha (!!!) até quando houver Países que exportam petróleo para que nos Países ricos haja gasolina suficiente.
Mas quando os Países ameaçam tornar-se por sua vez consumidores? Quando até podem competir no mercado internacional para obter o ouro negro?

Isso não pode acontecer. Nem pensar.
Alguns Países têm que ficar pobres. Lamentamos, mas é assim.


Revoltas sim, revoltas não

Eis porque a revolução no Egipto foi bem sucedida.
O Egipto é um pequeno produtor, mas até hoje conseguiu exportar. Amanhã já não.

Eis porque a revolução na Líbia será bem sucedida. O País é um grande produtor e tem que continuar a exportar, não nacionalizar os recursos (como queria Khadafi).

Eis porque as revoltas na Arábia Saudita e no Barhein não tiveram hipóteses: as famílias árabes que detêm os poços têm fortíssimas ligações com as corporações ocidentais, não há risco de que o Export Land Model até aqui adoptado não funcione. Por enquanto.

O quê? Não estão convencidos?
Ora essa.
Observem o seguinte gráfico.


Bonito, eh? Bom, nem muito em verdade. Mas reparem:
- a área cinzenta representa a produção do Egipto
- a área verde a exportação
- a linha preta o consumo interno

E que aconteceu quando a linha preta alcançou o topo da área cinzenta? Quando o consumo ficou equivalente ao consumo interno, deitando por baixo as exportações?
Revolução! Liberdade! Etc. Etc.

Na Arábia Saudita?

Na Arábia o consumo interno encontra-se em fase de crescimento, mas ainda não prejudica de forma importante as exportações.

Resultado: Democracia, Liberdade? Nem pensar, era só que faltava.

Outro País onde as revoltas não têm hipóteses: a Nigéria.


Aqui as cores são diferentes, mas o conceito é idêntico.
A linha azul representa a produção, a vermelha o consumo interno.

Sendo o consumo o interno irrisório e estável, qualquer revolução não tem esperança.

E a Líbia?
A Líbia é um caso particular, pois o Export Land Model não pode ser aplicado, simplesmente porque quase não existe um consumo interno.
Para compreender a Líbia precisamos de outro gráfico, este:


Este sim que é um gráfico bonito, cheio de cores, de vida!
Representa o andamento das exportações de petróleo no Mundo, desde 1986 até 2009 (inclusive).

Ehi, é impressão minha ou as exportações, todas as exportações, estão em queda?
Pois é, estão em queda.

Isso significa que nacionalizar os poços de petróleo, ideia do bom Khadafi, pode ser visto de forma pouco simpática para os Países que precisam desesperadamente de petróleo. Pois os poços têm que ficar livres, isso é, nas mãos das poucas companhias petrolíferas, democraticamente falando.


E o gás?

Mas a Líbia não produz apenas petróleo: há o gás também.
E "gás " significa outro gráfico:


Produção, consumo,  importação e exportação de gás no Reino Unido, desde 1970 até 2008 (inclusive).
A linha vermelha representa as exportações que, desde 2004, cessaram. Vice-versa, as importações (linha azul claro) desde 2005 começaram a aumentar.

O Reino Unido precisa de gás.
A Líbia tem gás.

O Reino Unido quer o gás da Líbia.
A Líbia quer nacionalizar o próprio gás.

A Nato intervém: pois alguns Países têm que ficar pobres.


Ipse dixit.

Fonte: Petrolio

2 comentários:

  1. Bom dia Max,

    este artigo é muito muito interessante. Desconhecia essa realidade em relação ao gás.

    Portanto,(e batendo na mesma tecla) agenda é a mesma: a Corporocracia possuir mais um país para gerir os seus recursos à vontade.

    Já oiço tanta vez a mesma história, que nem percebo porque ainda há gente que acredita nos media de mainstream...enfim.

    Nós agora assistimos a estas situações no petróleo, gás etc.; na área da energia, mas os problemas estão mais graves. Como já disseste à tempos, e bem, o objectivo deles é controlar o povo através da gestão/escassez (principalmente) de energia e alimentação. Temos que colocar os olhos no que se está a passar no México - os agricultores estão a revoltar-se contra certas empresas Americanas por patentearem o código genético de certas qualidades de milho.

    O plano deles vai avançando...e nós vamos vendo...

    Grande abraço Max,
    -- --
    R. Saraiva

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  2. Olá Saraiva!

    Eu tinha lido esta coisa das corporações há muito tempo, mesmo antes de abrir o blog, e na altura não tinha ligado muito.

    Depois comecei a ter mais atenção. No supermercado, por exemplo: a produto X tem a marca Y, mas a marca Y em verdade pertence à Z, que já produz o produto W.

    Ou as "marcas brancas": quase sempre (mas não sempre) são produtos de marcas famosas, só que a apresentação é diferentes.

    E então pergunto: porque quando vendido com outra denominação o preço é mais baixo? Alguém está a gozar connosco?
    A resposta é "Sim", gozam connosco.

    Num outro plano, no plano global, o fenómeno está a repetir-se com o apoio dos media.

    Até começa ser difícil ter uma ideia acerca dos factos e das pessoas.

    Eu sempre conheci este Khadafi como um louco, pouco simpático e sanguinário também. Depois vejo o que se passa nos media e começam as dúvidas: será mesmo assim?

    Eu acho que sim, então a pergunta é: será que os nossos são melhores?

    Aqui as dúvidas começam a ser pesadas mesmo e a resposta não pode ser um "sim" tão convencido.

    O México?
    Sim, concordo. Algo se passou, se passa e irá passar-se naquele País. Há mais além da droga e da mão de obra barata.
    A gripe H1 começou no México, é bom não esquecer.

    Abraço!!!

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