27 abril 2011

O que os especialistas não dizem


Uma pessoa como eu, que nada percebe acerca do assunto, fica sempre na dúvida: mas será que as energias alternativas não podem substituir as clássicas (e poluentes) como o petróleo ou o nuclear?

Os especialistas dizem que não, que não é possível. E, sendo especialistas, temos que acreditar: caso contrário, que especialistas seriam?

Todavia penso acerca de Países como Portugal ou o Brasil: quanto Sol há disponível? Quanto vento? Quanto mar? Será que tudo o que era possível fazer foi feito? Neste caso a resposta é: não, não foi feito.

Os custos

O tema aqui não é ser ecologista a qualquer custo, pois há outros factores envolvidos: o preço do petróleo, por exemplo (e a consequente recaída nas economias nacionais), os riscos do nuclear (ou será que Fukushima não ensinou nada?), a disponibilidade da matéria prima (explorações petrolíferas cada vez mais arriscada, oferta limitada por causa de conflitos).

Mesmo não sendo "verde", é suficiente fazer duas contas para perceber que uma coisa é extrair um liquido preto das entranhas da terra, outra coisa é desfrutar a luz do Sol que naturalmente chega até a superfície do planeta.

Verdade: as energias alternativas custam e para ser rentáveis é precisa a ajuda do Estado. Por isso, explicam os especialistas, o fotovoltaico ou o eólico não podem competir com o custo do petróleo.

Eu tenho algumas dúvidas acerca disso. Como disse, nada percebo do assunto.
Mas quanto paga um Estado para adquiri o petróleo necessário à produção de energia? Quanto paga para combater a poluição do ar gerada pelo petróleo? Quanto paga para cuidar das pessoas envenenada pelo petróleo? Quanto paga em termos ambientais pelos prejuízos causado pelo petróleo?

Estes são custos que devem ser somados ao preço "oficial". E ao somar todas as variáveis, vemos que a vantagem do ouro negro reduze-se drasticamente. Até desaparecer.




El Hierro e o vento

O diário francês Le Monde dedica espaço a um caso de energias alternativas aplicadas e rentáveis. Onde? Nas Canarias, Espanha, na Ilha de El Hierro.

A Ilha de El Hierro (em espanhol "hierro" significa "ferro", em memória do passado vulcânico) é uma pequena ilha no arquipélago das Canárias, que é importante por ser a primeira ilha a produzir exclusivamente energia a partir de fontes renováveis.

Para os 10.700 habitantes da ilha, o vento é um companheiro de vida e aprenderam a domestica-lo.

Cinco turbinas eólicas com uma capacidade de 11,5 megawatts serão montadas na ponta nordeste da ilha. Parte da energia será convertida em energia elétrica e introduzida na rede pública, outra parte irá bombear água para um reservatório de 150 mil metros cúbicos.

A água será empurrada para uma outra bacia, 700 metros acima do nível do mar. Três quilômetros de tubos de ligação entre os tanques em ambos os sentidos. A água será usada quando o vento faltar e irá produzir 11,6 megawatts. Desta forma, o vento vai tornar-se uma fonte de abastecimento continua, com uma autonomia de quatro dias no total de dias, mesmo sem vento.

O projeto começou há 25 anos e ao longo do tempo lutou com o governo espanhol e a Comissão Europeia. A ilha é uma flor que nasceu no deserto de energias renováveis.

O princípio de transferência de energia por bombeamento não é revolucionário. O Marrocos já adoptou o mesmo sistema numa região e está prestes a usá-lo em duas outras regiões. A França também usou o mesmo princípio. No entanto, é a primeira vez que as actividades relacionadas com as bombas e as turbinas poderão assegurar a autonomia energética de uma comunidade.

El Hierro tem pensado grande.
A sua energia será suficiente para atender às necessidades energéticas dos 60.000 turistas que visitam a ilha a cada ano.

A energia elétrica excedente será utilizada em três unidades de dessalinização de água do mar, a qual será depois utilizada para a irrigação em outras partes da ilha.
As instalações ficarão operacionais em 2012 e impedirão a importação de petróleo pelo mar.

Todo o projeto custou 65 milhões de Euros, 35 milhões dos quais colocados à disposição pelo governo espanhol. Uma vez anulados os custos, a venda de eletricidade gerará 9 milhões de Euros por ano que serão reinvestidos na economia local. Javier Morales, vice-presidente do Conselho Territorial, também fala duma segunda fase, na qual os seis mil carros da ilha serão substituídos com carros elétricos.

Isso também requer 65 milhões de Euros. Ao vender a energia ao mesmo preço da gasolina, a despesa será amortizado em dez anos.

As pessoas são felizes não só porque tudo isso é rentável, mas também porque é uma forma de produzir energia limpa que trará uma grande publicidade para a ilha. A protecção da Natureza é uma verdadeira religião. Em 2000, El Hierro, foi declarada reserva da biosfera.

Para evitar que as turbinas do vento possam estragar a paisagem, foram colocadas em locais expostos ao vento e ao mesmo tempo não muito visíveis. Os canos de água estão parcialmente enterrado.

A terceira fase prevê instalações de fotovoltaicos e de sistemas de reciclagem dos resíduos. As cooperativas agrícolas, os restaurantes e as cantinas escolares já chegaram a um acordo. Além disso, no final da década, toda a comida local serão orgânica.

A quarta e última etapa exige que os jovens, após o ensino obrigatório, possam especializar-se em áreas como as energias renováveis.

A ilha, um destino favorito para mergulho, trekking e arqueologia, tornou-se um exemplo para as ilhas vizinhas, tais como Tenerife e Ikaria.

Sim, é uma pequena ilha de 10.000 almas. Tem custos. Que serão amortizados.
E uma vez amortizados? Manutenção e energia grátis. Os proventos reinvestidos.

Grátis.

Alguma vez o petróleo será grátis?


Ipse dixit.


Fonte: Le Monde 

4 comentários:

  1. Boas
    Na minha opinião adoptar este tipo de energias, não depende só nossa vontade, porque não temos a tecnologia necessária ainda para isso, por exemplo a Alemanha que está a aumentar a produção de energia Eólica, está a esbarrar na não capacidade da sua rede(smart grid) para a distribuição de energia deste tipo, isto é só uma das barreiras..
    Mas no entanto não quer dizer que se deva deixar de apostar, antes por o contrário. Portugal nos últimos anos até aumentou em grande percentagem a produção de electricidade renovável, o pior é que o consumo também aumentou, e assim é mais difícil.. Os Plasmas de 40 Polegadas não perdoam

    Saudações

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  2. Não vou afirmar, mas já há observações que; onde há energia eólica tem-se notado o desaparecimento das aves. Alguns dizem que é por causa do som que faz que molesta as aves... Sei lá!
    Ainda que, claro, o petróleo é um lastima.

    Abraços

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  3. Olá Carlos!

    Sim, há dificuldades. Além dos custos, que são enormes, há problemas técnicos.

    Todavia acho ser mais do que urgente focalizar todas as energias na procura de procura de soluções, e não acho que isto esteja a ser feito.
    A dependência do petróleo é letal, o panorama político militar global põe em forte risco o futuro de todos os Países, sem excepções.

    Pensamos apenas nas medidas para combater temas como deficit ou desemprego: e imaginemos que amanhã, por uma qualquer razão (um conflito local, por exemplo) o fornecimento de petróleo passe a estar em risco ou que o preço do barril possa subir até 150, 160 Dólares ou até mais.

    Perante situações como estas, não há medidas que funcionem, pois todas as nossas economias (o nosso bem estar) são baseadas maioritariamente num único recurso. O que é uma aberração.

    Abraço!

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  4. Olá Eduardo!

    Não sabia desta coisa das aves. E que tal tampas para o ouvido? Ok, se calhar não funciona...

    Em Portugal vi há pouco uma reportagem acerca dum novo sistema para a energia eólica: nada de pás, mas simples tubos que desfrutam uma lei física (não perguntem qual) para canalizar os fluxos de ar no interior dos mesmos tubos e accionar assim uma turbina.
    Parece uma solução baseada apenas na física e na mecânica, talvez possa ser uma solução.

    Vou ver se encontro algo na web.

    Abraço!

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