01 abril 2011

Próxima paragem: (hiper)inflação (Update!!!)

No artigo Quantitative Sushi, da passada Quarta-feira, dedicámos algumas linhas ao problema da hiperinflação qual resultado das operações conjuntas entre Banco Central Japonês (o braço) e Federal Reserve (o cérebro).

Hoje nova confirmação.
Observem o seguinte gráfico:



Confuso? Sim, um bocado. Vamos explica-lo.

Tecnicamente, o gráfico mostra as variações cumulativas das reservas em excesso dos bancos (linha preta) e dos assets (linha vermelha) da Federal Reserve desde o início do Quantitative Easing 2.
As barras azuis são o diferencial mensal entre estas duas medidas. Quando esta diferença se tornanegativa, significa que os bancos estão a injetar dinheiro na economia, o primeiro sinal dum aumento da velocidade do dinheiro.

Ficou mais claro? Nem por isso.



Então vamos traduzir em bom Português: os bancos americanos começaram a injetar dinheiro para empresas e consumidores, transformando as reservas em moeda viva. Exatamente o que é preciso para fazer detonar a bomba criada pela Fed e que tem um nome: hiperinflação monetária.


E o dinheiro circula

E como contraprova temos o gráfico da Federal Reserve:


A partir de Janeiro, a massa monetária em circulação subiu em flecha. 


A inflação das maçãs e a hiperinflação dos morangos

Lembramos ainda uma vez para os mais desatentos:

Hipótese 1:
Zé Pedro vai ao mercado e pergunta ao vendedor: Quanto custa esta bonita maçã?
Resposta do vendedor, dono de 1 maçã: 1 Euro!
O vendedor vizinho, também dono de 1 maçã: 90 cêntimos!
Outro vendedor, também dono de 1 maçã: 80 cêntimos!

Hipótese 2:
Zé Pedro vai ao mercado e pergunta: Quanto custa esta linda maçã?
Resposta do vendedor que tem a única maçã do mercado: 3 Euros.

No primeiro caso há muitas maçãs e o preço desce,.
Na segundo caso há apenas 1 maçã e o preço não desce, pelo contrário.
Este é o mecanismo da inflação.
E a hiperinflação?

Hipótese 3:
Zé Pedro vai ao mercado e pergunta ao vendedor: Quanto custa esta bonita maçã?
Resposta do vendedor: Olhe, meu amigo, tenho um monte de maçãs, tal como os outros vendedores,  nem consigo vende-las e estão a apodrecer. Leve uma caixa cheia por 50 cêntimos.

Esta é a hiperinflação. Há muitas maçãs, demasiadas, o mercado nem consegue despacha-las todas e os preços caem a pique. 

Com o dinheiro passa-se exactamente a mesma coisa: há pouco dinheiro em circulação? O valor do dinheiro aumenta.
Há muito dinheiro em circulação? O valor desce.

Por acaso aconteceu-me o mesmo no passado Sábado: o mercado estava perto do fecho e cheio de morangos, consegui uma inteira caixa pelo preço de 1 quilo. Depois tive que comer morangos ao longo da semana toda...esta é a típica "hiperinflação do morango".


Atenção!

O nobre D. Fernando realçou um pormenor, que tão pormenor afinal não é.
No exemplo das maçãs é possível perceber exactamente o contrário de quanto explicado.

Se olharmos o exemplo do ponto de vista do comprador (o que quer comprar as maçãs), o que está descrito não é um cenário de inflação ou hiperinflação, mas de deflação. O comprador, de facto, consegue encontrar as maçãs cada vez mais baratas.
O exemplo acima é uma faca com dois gumes. Ou legumes? Bah... 

Para colher o sentido correcto, temos de esquecer o ponto de vista do comprador e focalizar a atenção no valor das maçãs, que, lembramos, no exemplo representam o dinheiro: é o dinheiro (representado pelas maçãs) que perde cada vez mais valor (e esta é a inflação e hiperinflação), não as maçãs enquanto mercadoria.

Complicado? Sim, um pouco. Culpa minha, pois deveria ter escolhido outro exemplo. Mas enfim, não posso fazer tudo aqui, não é? E artigos, e sondagens, e respostas, e limpezas, e arrumar o blog, não  sou uma máquina, fogo...

O quê? Um exemplo melhor? Ok, vamos fazer.

Inflação:

Zé Pedro vai ao mercado e pergunta: Ohé, estúpido vendedor, quanto custa esta maçã?
E o vendedor: Olha meu caro, para ti é só 80 cêntimos..
Zé Pedro: 80 cêntimos??? Ora bem: no princípio do ano eu ganhava 60 cêntimos (baixinho como ordenado), mas depois com a inflação perdi poder de compra: os preços aumentaram e a maçã, que antes custava 60 cêntimos, passou a custar 80 cêntimos. Moral: agora nem uma maçã posso comprar, acha bem?
O vendedor: E eu que tenho a ver com isso?

Porque, de facto, o vendedor nada pode fazer. Ele também pagou mais ao agricultor, o qual teve que enfrentar as despesas do adubo, do fertilizante, da água: todos itens que aumentaram.

Esta é a inflação. E a hiperinflação?
Com a hiperinflação as coisas mudam um pouco:

E o vendedor: Olha meu caro, para ti é só 800 cêntimos (que na minha casa chama-se 8 Euros).
Zé Pedro: 800 cêntimos??? Isso é: 8 Euros? Ora bem: no princípio do ano eu ganhava 60 cêntimos (baixinho como ordenado), mas depois com a inflação perdi poder de compra: os preços aumentaram e a maçã, que antes custava 60 cêntimos, passou a custar 800 cêntimos. Moral: agora nem a casca duma maçã posso comprar, acha bem?
O vendedor: E eu que tenho a ver com isso?

Porque, de facto, o vendedor continua a não poder fazer nada.

Mas sobra uma pergunta: porque a maçã custa cada vez mais? Porque o dinheiro perde valor? Parecem duas perguntas distintas, mas afinal é a mesma coisa.

Resposta: porque ao aumentar a quantidade dum item, o mesmo item perde valor.
Exemplo:

Zé Pedro vai ao mercado e pergunta: Ohé, estúpido vendedor, quanto custa esta maçã?
E o vendedor: Olha meu caro, para ti é só 8 cêntimos..
Zé Pedro: 8 cêntimos??? Ora bem: no princípio do ano eu ganhava 60 cêntimos (baixinho como ordenado), mas depois com a inflação perdi poder de compra: os preços aumentaram e a maçã, que antes custava 60 cêntimos, passou a custar 8 cêntimos. Moral: agora posso comprar muitas maçãs...espera estúpido vendedor, algo não bate certo...porquê as maças custam menos?
O vendedor: Olha meu caro, é assim: Eu comecei a vender uma maçã por 60 cêntimos. Mas era o único que tinha maçãs para vender. Depois chegou Zé Batoteiro, que tem um campo enorme de maçãs. Então o cliente pode escolher. Depois chegou Armindo o Ladrão, outro com um quintal de maçãs. Então o cliente tem ainda mais escolhas. E eu, para conseguir vender alguma coisa, tive que baixar os preços.

Esta é a inflação das maçãs. Quanto mais maçãs houver, quanto menor é o custo delas.
Com o dinheiro é a mesma coisa: mais dinheiro em circulação, menor o custo (o valor) dele.


O Yen mergulha

Outra contraprova:


Este é o valor da moeda japonesa, o Yen. O valor subiu logo após o terramoto do 11 de Março: muitos capitais entraram no Japão para a reconstrução que, lembramos, é sempre fonte de grandes receitas.

Mas a seguir o Banco Central do Japão invadiu o mercado com o Quantitative Sushi, isso é, um mar de Yen. Resultado: o valor do Yen precipitou (quota 1.1837).

O que aconteceu no Japão irá acontecer nos Estados Unidos.
E na Europa? Também. Aliás, a inflação do Velho Continente já começou.
E no resto do Mundo, tipo o Brasil? Muito provável que os efeitos sejam percetíveis em todos os mercados.

Continuamos a observar. 

"Espera, espera! Não explicaste uma coisa: o que ganha o cidadão com a hiperinflação?"

Ah, é verdade. 
Ganhar? Não ganha nada, aliás perde: o dinheiro que tem no bolso vale cada vez menos; o ordenado do fim do mês vale cada vez menos. 
É esta a parte hilariante!


Ipse dixit.


Fontes: Rischio Calcolato, Zero Hedge, Economic Research Federal Reserve Bank of St. Louis (pfd) 

2 comentários:

  1. Estaremos a caminho de uma Weimar 2.0 mas desta vez 'a escala planetaria (ocidente)?

    O que se esta a passar no Japao tem potencial para virar a fragil economia as avessas. Esperemos que nao.

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  2. Olá Xenofonte!

    "Ocidente", isso mesmo, "Ocidente".
    Acho que no resto do Mundo o fenómeno inflacionista será mínimo e controlado.

    O projecto de transferir as rédeas económicas para o Oriente parece proceder bem. E Weimer 2.0 pode ser o golpe de graça.

    Cedo ou tarde iremos acordar. Acho que sim. Tarde, mas acho que sim.

    Abraço!

    ResponderEliminar

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