02 maio 2011

Internet e lágrimas



All those moments will be lost in time 
like tears in the rain 
(Blade Runner, 1982)


Paolo Barnard
Informação Incorrecta já desfrutou os escritos de Paolo Barnard para alguns dos próprios artigos. E continuará a fazê-lo, pois Barnard é um dos poucos jornalistas que escreve de forma clara, concisa e, sobretudo, com nomes e factos bem circunstanciados.

Mas mesmo nestes dias, Barnard fechou o seu homónimo blog. A razão? Derrota.
Barnard assume-se como um derrotado porque, ao longo destes anos todos, não conseguiu mudar as coisas enquanto ao mesmo tempo internet tornava-se algo de diferente.

Escrevi para o Barnard, tal como julgo fizeram outros milhares de pessoas, e espero que possa mudar de ideias.
Mas acho que nalguns pontos as opiniões de Barnard estão certas. E ao raciocinar acerca do assunto, é verdade que as considerações não podem ser tão positivas.




Caos

O que é hoje internet?
É um aglomerado não homogéneo onde é possível encontrar tudo e mais algumas coisas. O que é uma forma elegante para dizer que é um caos. Mas o caos é bom ou mau?

Resposta: depende.
O caos pode ser uma excelente ocasião para o nascimento de algo: do caos pode surgir tudo.

Mas há quem faça do caos uma arma para implementar os próprios propósitos. Perguntem à CIA em caso de dúvidas.

Na internet há dezenas de milhões de sites ou blog que tratam dos mais variados assuntos. Querem encontrar alguma coisa acerca dos vermes da China do Norte? Na Internet com certeza o argumento já foi tratado.

Neste aspecto, internet é uma enorme riqueza. Mas este é também o seu grande limite, pois todos podem escrever o que desejarem.

Quem, como eu, costuma navegar na Web à procura, terá reparado que a normalidade é encontrar a mesma notícia repetidas vezes sem limites, sempre da mesma forma, até com as mesmas palavras. Isso cria um curioso efeito, pelo qual um boato pode tornar-se uma verdade simplesmente porque repetido centenas, milhares, milhões de vezes.

Numa certa altura, o curioso deixa de procurar, pois por quanto procure, acabará por encontrar sempre a mesma versão. É a morte das fontes fidedignas.


Caos ordenado

Doutro lado, afirmar que internet é apenas anarquia não é correcto. Internet é um caos, verdade, mas organizado. Pode parecer um paradoxo, mas ao pensar nisso descobrimos que é verdade. Há uma hierarquia reconhecida e há uma ordem também.

Os media mainstream,  por exemplo, em nada são confusos. Pelo contrário, são muito bem ordenados. E controlados. De facto, constituem um nível de informação digital que é reconhecido como "oficial" e de confiança; abaixo, há outro nível, o da informação alternativa, um mundo esquisito, onde cada pessoa pode abrir um blog, começar a escrever o que lhe passar pela cabeça e divulgar isso como verdade.

Neste estado de caos, quem conseguir ter um mínimo de ordem acaba por ganhar. Por isso internet está a tornar-se uma arma de destruição maciça.

Exagerado? Então pensem nas recentes revoluções da África do Norte: como nasceram? Como se propagaram? Palavras como "Facebook" ou "Rede Social" dizem algo? Dizem, dizem.
Este é um perfeito exemplo de como o caos possa ser desfrutado para obter resultados que ficam no oposto de palavras como "liberdade".
E Wikileaks? Pois, Wikileaks...

Não estou a propor uma regulamentação de internet, parece-me óbvio. Sempre encarei a web como uma forma de liberdade e desta forma teria que continuar a existir.
Todavia "liberdade" não significa "falta de organização", desde que com base voluntária.

E aqui encontramos, no meu entender, o verdadeiro problema da internet de hoje: poucos, quase ninguém, querem organizar-se.

O caso da já citada informação alternativa: quantos sites ou blogues existem? Até é difícil imaginar o número. Mas quantos são organizados? Quantos são unidos para constituir uma força que possa ser reconhecida como confiável e ter um peso nas nossas sociedades?


Lágrimas e espelhos

Doutro lado, os blogues ou as páginas pessoais são os espelhos das mesmas sociedades, dos cidadãos.
Então fica simples perceber que a falta de iniciativa, a abulia que é um dos traços principais das nossas vidas, já tomou conta da Web também: mesmo quem dedica parte do próprio tempo à contra-informação, não consegue ir além disso. E, que fique claro, entre estas pessoas há também quem está a escrever, pois não sou uma excepção.

A minha impressão é que internet represente actualmente demais para as nossas capacidades. É um pouco como pôr um bebé em frente dum computador: o bebé pode apreciar o objecto, as cores, os sons; mas afinal não sabe desfrutar as potencialidades do meio.
Nós somos os bebés, internet é o nosso brinquedo.

É por isso que ainda podemos escrever livremente: porque as palavras ficam como palavras e nada mais.

E todos aqueles momentos ficarão perdidos no tempo
como lágrimas na chuva
 
dizia Rutger Hauer em Blade Runner. A ideia é a mesma: em vez de lágrimas temos palavras, que passam sem deixar consequências.

Sim, verdade: há tentativas de controlar internet.
Mas tentamos ser sérios: se a web constituísse uma real ameaça, acham que seria ainda possível utiliza-la? Não teria sido fechada ou rigorosamente controlada em nome da "segurança nacional"? Acham este um cenário de ficção científica? Algo de tecnicamente irrealizável? Nunca alguém se atreveria até este ponto?


Impossível?

Pensem nisso:
  • há poucos meses conseguiram convencer-vos a receber uma equívoca vacina contra uma gripe construida em laboratório; 
  • na África do Norte milhões de pessoas executam as "sugestões" informáticas enviadas pela CIA, enquanto ignoramos os verdadeiros rebeldes que são massacrados diariamente na Síria; 
  • somos convencidos a pagar dezenas de milhares de Euros para poder adquirir uma tecnologia velha de mais de um século e que continuamos a chamar de "o meu novo carro";
  • ingerimos comida com corantes, conservantes e aditivos porque foi dito que "não faz mal", e que, aliás, "faz bem à saúde";
  • nas nossas cidades respiramos uma mistura de oxigénio, dióxido de carbono, monóxido de carbono, vapores de água, carvão em fuligem, enxofre, vapores do combustível, ácido sulfúrico e nano-partículas e ainda resmungamos quando chove e um pouco de poluição desaparece (e mais, fomos também convencidos que com o mágico aditivo AdBlue da Volkswagen o nosso carro poluirá menos: assim pagamos quase 30 Euros ao litro um subproduto da urina! LOLOLOL)     

Perante tudo isso, que são apenas poucos exemplos, acham que teriam problemas em condicionar internet? Se internet é viva e vegeta é apenas porque não se rouba o brinquedo ao bebé.

Tentar uma maior organização significaria arriscar ver introduzias "medidas de segurança" contra "ameaças terroristas ciberinformáticas".

Não tentar organização nenhuma significa continuar a observar as luzes e ouvir os sons, deixando que outros possam desfrutar do brinquedo.

Não é fácil, pois não.


Ipse dixit.

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