16 junho 2011

Morte dum País

O que se passa com a imprensa de regime é espantoso.

Pegamos nos principais diários de língua portuguesa: notícias acerca da situação na Grécia?

Porque o leitor pode não saber, mas ontem foi um dia para ser lembrado em Atenas e arredores.

Estadão:
Ex-jogador Edmundo é preso em um flat na capital paulista

Uma notícia importante, até é a notícia logo abaixo do título. Meus senhores, é Edmundo, não um Zé Ninguém qualquer.

Afeganistão é o país mais perigoso para mulheres, mostra estudo
Por isso as leitoras já sabem: nada de férias em Kabul neste Verão. Para os homens nenhum problema.

Xeque egípcio substitui Bin Laden no comando da Al-Qaeda
Com certeza.


O Globo:
Mesmas notícias. O artigo acerca do Afeganistão é substituído pelo motociclista morto com dois tiros ao longo duma briga, em São Paulo.
Os meus pêsames.

No outro lado do Atlântico.

O Diário de Notícias abre com a Escherichia coli (ainda???): segundo o jornal, nos supermercados da Lidl os hamburgers têm a bactéria letal.
Para criar um pouco mais de pânico não é especificado que tudo aconteceu na França, que ninguém morreu e que ainda estamos perante uma suspeita com tanto de investigação e não um facto provado.

A não perder o Director Geral de Saúde, Francisco George, que afirma: "Não hesito em comprar sapatos de marca portuguesa".
Com vídeo, obviamente.

Há ainda o sucessor de Bin Laden.

No Correio da Manhã, um dos mais lidos, não há espaço para a Grécia, pois a redação optou por evidenciar duas notícias de bem outra espessura:
1. nos Estados Unidos uma mulher chama polícia por lhe servirem o prato errado
2. tentam roubar cão-guia a deputado espanhol cego

Nem o sucessor de Bin Laden temos aqui.

No Expresso...Minha Nossa! Falam da Grécia!!! E até o artigo nem é mau...

Mas afinal, o que aconteceu?


O Caos


Informazione Scorretta e outros blogues italianos seguiram os acontecimentos em directo vídeo streaming.
E o de ontem foi um dia quente mesmo.

O parlamento tinha que fazer uma escolha: decidir entre União Europeia e FMI dum lado e cidadãos gregos do outro.
Isso é: decidir se aprovar os novos cortes, a nova vaga de privatizações e outras medidas impostas pelo Fundo Monetário Internacional.

Contra os desejos dos Gregos, óbvio. 

O protesto começou na Praça Syntagma, em Atenas, onde já no passado dia 5 de Junho centenas de milhares de cidadãos tinham manifestado.

Cedo foram erguidas redes metálicas para a proteção do Parlamento, enquanto os cidadãos gritavam "Ladrões". Situação delicada também em Tessalonica, onde o Ministro da Macedonia e da Tracia ficou  rodeado por centenas de manifestantes.

Os protestos de Atenas tornaram-se mais violentos, com uso de gás lacrimogéneo, molotov, pedras, tentativas de ultrapassar as redes de metal, confrontos físicos entre polícia e cidadãos.

O Primeiro Ministro, George Papandreu, ofereceu as próprias demissões em troca dum governo de unidade nacional.

O dia fechou-se por volta das 23 horas, com as notícias do mundo financeiro: rendimentos dos Títulos de Estado que pulverizam todos os recordes negativos, 28% a nova taxa de juro.

Ao longo da noite, o demissionário Papandreu tentou constituir um novo governo, mais amplo, mas até agora sem sucesso.

Hoje, o mesmo Papandreu irá pedir a confiança apresentando um executivo que tem o mesmo programa do governo que acabou de ruir. Mas tudo acontecerá à noite, na esperança que os cidadãos durmam.

E quando o barco afunda, os ratos fogem: Ektoras Nasiokas, deputado do Pasok, acabou de demitir-se hoje com uma intervenção televisiva.
Esta, num extremo resumo, a situação na Grécia, totalmente ignorada pelos media mainstream
E não é difícil perceber a razão: os acontecimentos de Atenas arriscam ser a ante-visão do que irá passar-se em outros Países do Velho Continente.
Estamos perante um País completamente falido, atirado para o caos, arruinado definitivamente pela "mágica receita" de Bruxelas e do Fundo Monetário Internacional.
É impressão minha ou há outros Países que a Dupla Maravilha (FMI e UE) está a "salvar"?
Nota: Informação Incorrecta vai seguir o desenvolvimento da situação grega, embora não sejam previstas novidades ao longo do dia de hoje. À noite, pelo contrário...


Ipse dixit.

8 comentários:

  1. Noticiar a situação grega pode ser muito prejudicial para nossos santos profetas da especulação econômica. Essa exposição poderia forçar baixas nas bolsas de seus países, e blablablá.

    Melhor ser um burro surdo, não é, caros sagrados economistas?

    :/

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  2. É por isso que Informação Incorrecta nos faz bem: mantém-nos perto da informação relevante - sem excessos, sem facções, mas com factos.

    Vamos aprendendo com os amigos gregos...é que daqui a um ano seremos nós (sim, porque Junho parece-me bem, tempo de praia e de as pessoas se alienarem (ainda mais)).

    Cumprimentos,
    -- --
    R. Saraiva

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  3. A Grécia é o futuro de Portugal... se esta MANADA acordar após serem marcados com o ferro "FMI/BCE Propriedade Privada"

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  4. Uma coisa que reparei, foi que em cada manifestação está presente um cachorro que já ganhou o apelido de 'Riot dog'

    A coisa também ficou feia no Canadá, uma multidão furiosa foi as ruas para protestar contra os banc... digo time de hóquei que perdeu.

    http://www.youtube.com/watch?v=YbriPKOnvAM

    http://www.youtube.com/watch?v=YllDi5IjJuk

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  5. http://www.youtube.com/watch?v=DwdcUVlAr-I

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  6. André19.6.11

    A inexistência de informação relativamente à Grécia na comunicação social portuguesa explica-se por dois factos, acabamos de sair de eleições, do qual saiu eleito, democraticamente, um governo de maioria, e com isto estamos todos numa situação de stand-by, não sabemos o que nos espera...e nem queremos muito falar disso para não despertar a atenção dos "investidores" (especuladortes) estrageiros, no fundo tentamos passar despercebidos, se é que isso é possível na actual situação. Ainda relativamente a esta situação, as eleições constituiram-se num embusto politico-partidário em dois sentidos, primeiro acalmou ou confundiu a opinião publico, num devaneio de uma salvação possível à direira; depois constitui-se numa forma dos partidos politicos ganharem algum tempo relativamente às opiniões externas, e especuladores...e desta forma tentanndo afastar o país da grécia e da irlanda, bem como neste momento da espanha, onde a agitação social ganha contornos bastante perigosos. A par disto à um segundo facto, para explicar a ausência de informação, não convém despertar a IRA dos portugueses, que neste momento parece estar adormecida, é que a realidade é que a sociedade portuguesa de um modo geral sente, de uma forma ou de outra, uma crise económica que já dura à 10 penosos anos...o que daqui também se compreende o espirito de sacrificio e de comodismos do português corrente.
    Por outro lado, as entidades europeias pretendem travar o máximo possivel os movimentos de "indignados", que parecem despertar em diversos países europeus: primeiro, por que se constitui uma ameaça directa ao sistema governativo-economico-europeu vigente, segundo por que se constitui a constatação de uma facticidade, que poderá levar à derrocada da UE, e seu consequente desmenbramento, terceiro a situação na grécia é gravíssima na medida que poderá levar o país helénico a mais um periodo de ausencia de sistema governativo,que já é um hábito na história tragico-grega; a situação em Espanha também é tão, ou mais grave, porque sobre este país ibérico pesa a ameaça real do desmenbramento do estado/reino espanhol (e neste sentido já há quem fale de uma unificação com portugal, para que com isto a espanha possa encontrar algum sentido enquanto união de estados), e ainda a constante constatação da falência imediata das entidades bancárias, e do estado...depois temos ainda a Bélgica, encontra-se na corda-bamba e dependente da evolução dos 3 países auxiliados pela ajuda externa (Portugal/Irlanda/Grécia), não tem governo à mais de um ano, e mesmo a entendida representativa de um rei, parece já não ser suficiente para manter o país (Flamencos e Francofonos) unido, resta-nos a Itália onde a guilhotina espectulativa das agencias de rattings parece quer concretizar mais uma ameaça... (cont.)

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  7. André19.6.11

    (cont.) AH, temos ainda a França que parece já não passar incólume a tudo isto, uma Alemanha que não sabe o que fazer com todos nós, que não sabe o que quer, e que unica certeza que tem é que sabe que manda, não nos podemos esquecer da Inglaterra, que parece passar despercebida com tudo isto, por um lado ameçada pela falencia dos EUA, e o perigoso pedido de ajuda Irlandês, continua com grandes problemas economicos, dos quais pretende desviar atenções, quer por um casamento real, quer apontando culpas aos países de Sul da Europa...o que podemos constatar é um fatídico destinos para a Europa; perante a inexistencia do augurío de prosperidade e solidariedade, mote da fundação da UE, aplica-se a lei: cada um por si, olho por olho, dente por dente...e a única certeza que vamos tendo é que estamos todos inter-ligados, e não sabemos como isto vai acabar. Porquê é que isto acontece? Para além da corrupção política, que parece ser uma inevitabilidade democrática de um sistema partido-crático e sua consequente irresponsabilidade, hà ainda um curioso facto, é que o projecto europeu, na sua ansia de unir estados europeus, esqueceu-se de um simples e curioso elemento, do qual hoje todos os governantes europeus se perguntam...é que a UE não veio com livros de instruções, e ninguem sabe onde está o botão RESTART...e tudo isto leva ao pânico que se generaliza na UE, a guilhotina do default sobre a grécia, é a guilhotina sobre Portugal, numa altura que já se fala de uma segunda ajuda à irlanda (segundo os diários irlandeses e ingleses); e certamente uma guilhotina sobre portugal é inevitavelmente uma guilhotina sobre a espanha, bélgica e itália...e com tudo isto estamos perante aquilo que não deve ser falado...a dita tempestade económica...que não é mais que o pânico generalizado. As próximas semanas serão determinantes...e se escaparmos nos próximos meses, talvez se reacenda daqui a um ou dois anos, qdo estiverem a discutir um possivel segundo auxilio à irlanda ou a portugal. Na minha opinião, e UE só tem duas soluções imediatas possiveis, ou o inicio da sua queda e desmembramento agonizante, a constituição da Federação Europeia, que desde sempre, mesmo aquando da sua fundação enquanto CCA e depois CEE, se constituiu no objectivo final dos seus fundadores.
    Abraço ;) (e dsclp o abuso de palavras)

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  8. André19.6.11

    esqueci-me ainda de lhe agradecer por uma coisa no seu artigo (lololol), obrigado pela informação relativamente à barreira de protecção junto do parlamento...tenho acompanhado os streamings dos manifestantes na praça Syntagma, e fazia-me imensa confusão como é que os gregos estavam tão ordeiramente posicionados (o que é completamente estranho) naquela barreira limite (invisivel aos olhos dos internautas) próximo da entrada do parlamento...e como é que os mesmos gregos ainda não se haviam lembrado de invadir o parlamento e expulsar os deputados...depois de ler o seu artigo percebi lololol

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