29 junho 2011

O treino das crianças


A Suprema Corte dos EUA decidiu que a lei da Califórnia que proíbe a venda e aluguer de vídeo-jogos violentos a menores de idade é "inconstitucional e viola a liberdade de expressão.  

Afirma o juiz Antonin Scalia:
Assim como os livros, os jogos e os filmes antes, os vídeo-jogos comunicam ideias e mensagens até sociais através de meios familiares. Isto é suficiente para conferir a protecção ao abrigo da Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos. 

O caso foi aberto em 2005, quando a Califórnia aprovou uma lei que previa multas de até 1.000 Dólares para quem vendia ou alugava vídeo-jogos rotulados como violentos para os menores de 18 anos. A lei já tinha sido rejeitada por um tribunal em 2007 e o então Governador, Arnold Schwarzenegger (Terminator contra os videojogos violentos: até a que ponto chegámos...), tinha apelado ao Tribunal Supremo. 

A autoridade máxima dos EUA sublinhou que também os livros infantis contêm cenas violentas, como nos contos Cinderela ou de Hansel e Gretel, onde filhos matam os raptores ao cozinha-los num forno. 


Segundo o Tribunal, todos os estudos que tentaram demonstrar a perigosidade dos vídeo-jogos violentos foram rejeitados por todos os tribunais e por uma boa razão: 

não conseguiram provar que os videogames violentos possam provocar um comportamento agressivo nos menores.

Calling all station

Estou? Planeta Terra? Há ainda alguém aqui?

Estou a pensar em extinguir-me. Porque estou fora do tempo, vivo num outro mundo, um mundo que já não existe. Sou um dinossauro.

E o eventual Leitor que esteja a ler este artigo é um dinossauro também. Deveria pensar na própria extinção.

No meu mundo arcaico, para perceber que um videojogo pode ser negativo, não é preciso que uma criança entre numa loja armada com uma metralhadora, elimine o dono e os clientes, e depois peça para aceder ao nível seguinte.
No mundo arcaico é uma questão de senso comum, que deve ser usado "antes" e não "depois".

Ao submeter o cérebro duma criatura em plena fase de aprendizagem a cenas violentas e repetidas, onde matar é a única maneira para obter sucesso ou até sobreviver, esperemos o quê? Que um dia peça para ser o novo Gandhi?


Na verdade estas são observações banais e inúteis, pois os juízes sabem isso e muito mais. E a demonstração está na comparação entre os videojogos modernos e os clássicos da literatura infantil: só uma pessoa com grandes problemas pode aceitar um tal paralelo.

Se o nosso desejo for encontrar as verdadeiras razões duma tal decisão, então temos que procurar em outros lugares.
 
O treino

Vagueamos num infinito labirinto de paredes brancas, com portas que dão acesso a outras salas brancas. E, de vez em quando, aparece alguém com uma bata e uma caçadeira.
Temos que mata-lo, antes que seja ele a disparar. Assim será possível continuar, deixando atrás um rasto de cadáveres.

Paisagens cinzentas, de devastação. Tanques e vermelho, muito vermelho, a cor do sangue. A nossa cidade foi destruída, a nossa casa não existe mais, a nossa família foi morta, nós vivemos apenas para a vingança.

O nosso bairro é um monte de lixo na periferia, os nossos dias correm entre lutas com as gangues rivais, roubos e fuga da polícia.

Estamos numa estação espacial, numa escuridão claustrofóbica, rodeados por monstros extraterrestres: a nossa única hipótese é matar, mata-los todos até o último.


Estes são todos videojogos que é possível encontrar em qualquer hipermercado.
Aqui ninguém que voltar atrás e obrigar as crianças a jogar com o hula-hop: o tempo passa, a sociedade evolui e nós temos que evoluir com ela. Mas a questão é mesmo esta: os videogames violentos podem ser considerados uma evolução?

Segundo a Corte Suprema dos Estados Unidos a resposta é "sim": os videogames são hoje o que foi Capuchinho Vermelho no passado.

Mas a dúvida fica: são bons? São maus? Até a que ponto afectam os mais jovens?

Porque este é o ponto: um adulto tem a capacidade para operar uma clara separação entre virtual e real. Mas uma criança?

Neste aspecto, a nossa atitude enquanto espécie é curiosa.
Todos os animais escolhem proteger as próprias crias. Nós não. Com os videojogos, nós preferimos expor as crias a um mundo irreal onde domina a violência.

É possível objectar que afinal este pode ser outra forma de aprendizagem: até um certo ponto, constitui uma maneira virtual de apresentar os perigos do mundo real. Zombies e monstros espaciais, neste caso seriam apenas representações dos "maus" que existem na vida do dia a dia.

Não é bem assim. Nada conheço em termos de psicologia ou desenvolvimento infantil: mas acho não ser precisa uma licenciatura para entender que não é esta a forma adequada. Porque o que os videojogos fazem, na realidade, é realçar dois aspectos: a agressividade e o medo.

Curiosamente (?), num mundo cada vez mais competitivo como o nosso, a agressividade é um elemento destinado a ganhar espaço, cada vez mais. É normal que assim seja, pois este é um dos fundamentos da nossa sociedade: o crescimento continuo implica um conflito permanente, em contraposição à paz, que é sinonimo de calma.

O "bonito" não funciona, pois nós gostamos de contemplar o que é bom. E "contemplação" é outra vez sinonimo de calma. Não funciona.

O que funciona é a desolação, o feio, algo que estimule a criança, obrigada assim a mexer-se à procura duma condição melhor.

Para fazer isso, a criança tem que aprender apenas um conceito básico: a vida e os objectivos dela são mais importantes do que todas as outras vidas juntas.
Então é só matar.

E o medo?
Isso também faz parte do treino.
Por enquanto são zombies e extraterrestres maus. Uma vez crescidos, serão pandemias, acidentes nucleares, bactérias assassinas.

O que a Suprema Corte dos Estados Unidos está a dizer é apenas o seguinte: continuem a criar os futuros perfeitos cidadãos.

Como não concordar?


Ipse dixit.

Fontes: Stampa Libera, Il Cambiamento

6 comentários:

  1. Concordo que deve ter uma limitação de idade; aqui no Brasil temos classificação etária para filmes, determinados só podem passar na TV após certo horário.

    Agora, o videogame é só um acessório, como um DVD player. Ouso dizer que é quase uma concepção artística; é como um filme, onde você é o protagonista. Sou meio suspeito para falar de videojogos, pois sou fã (meu PS2+SNES tá em plena atividade kkk), mas acho que uma limitação etária, não somente em videojogos, mas como em filmes, é justa (mesmo que eu tenha certeza que é inútil, no Piratebay vc baixa o que quiser).
    Temos filmes polêmicos, como Hannibal, ou Lethal Weapon, por exemplo. Quadrinhos, como a Marvel, DC ou Vertigo, também. Eu quando criança brinquei muito de super-heróis: ora era o Batman, ora o Wolverine. Na minha opinião, essas obras exercem a mesma influências que jogos violentos. "Porque este é o ponto: um adulto tem a capacidade para operar uma clara separação entre virtual e real." Exatamente. E isso envolve muito mais que jogos.

    Grande abraço.

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  2. Para ilustrar, palavras do monge budista Trinley Dorje:

    "Eu vejo os games como uma terapia emocional, um nível mundano de terapia emocional para mim. Todos temos emoções, sejamos praticantes do budismo ou não, todos temos emoções, emoções felizes, emoções tristes, emoções de desagrado e precisamos descobrir uma maneira de lidar com elas quando aparecem. (...) A agressão que sai nos videogames saciam qualquer desejo que eu tenha para expressar este sentimento. Para mim, isso é muito útil porque eu faço isso e não preciso acertar a cabeça de ninguém."

    fonte: http://articles.timesofindia.indiatimes.com/2009-09-20/all-that-matters/28091259_1_chinese-incursions-chinese-government-neighbourly-relationship

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  3. Só quem não conhece os Marados dos Americanos é que acha este acórdão estranho... É lógico que para eles os jogos não são problema... pois se os próprios Pais levam a pequenada para carreiras de tiro para utilizarem e fazerem fogo com armas de guerra e não só... qual o problema de uns joguitos com pessoal aos tiros e a cortar pedaços uns aos outros... Eles apenas fazem o que os progenitores normalmente fazem: Educam as novas gerações para o que lhes espera o futuro e no caso do Américas o futuro é sempre GUERRAS... e nada melhor que já ir devidamente avariado dos pirolitos para a guerra... e para tal há que começar a educar de pequenino!

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  4. No Brasil alguns jogos foram proíbidos por julgarem inadequados a sociedade (Bully, Counter-Strike).

    Tanto o cinema quanto os jogos oferecem violência das mais variadas formas. Notícias de tragédias vendem muito, não raramente é assunto diário em qualquer conversação.

    Afinal, essa violência explícita é a demanda popular por sangue, ou é uma cultura difundida por aqueles que arquitetam a sociedade? Que abrangem cada vez mais a parcela infantil, seja através da violência ou pornografia.

    Joguei diversos jogos violentos quando criança, e nunca reproduzi em quem quer que seja aquilo que eu jogava. Sempre gostei de jogos de tiro, geralmente ligados a IIGM, embora prefiro os de estratégia em tempo real, e nem por isso tenho vontade de sair atirando em pessoas ou animais.

    Muitos jogos servem como 'válvula de escape', liberando a fúria em hordas de zombies, civis, ou qualquer inimigo do exército americano.

    O único jogo que me deixava violento era o Super Mario, descarregava minha frustração no pobre controle a cada derrota consecutiva, e não eram poucas.

    Existem jogos curiosos, como Resident Evil, onde um vírus infecta a população tranformando-os em zombies, outros como Fallout exploram um cenário apocalíptico pós guerra nuclear.

    Perante tudo isso, uma coisa é certa, a criança tende a imitar comportamentos aos quais ela é exposta.

    Abraços!

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  5. http://www.youtube.com/watch?v=Y_1HbclRYIA&feature=player_embedded

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  6. maria3.7.11

    Ora, ora... Me admira tu ficares admirado Max. Não sabes que o principal objetivo da educação é a naturalização da violência, da agressividade, da competitividade e da mentalidade egoísta e destrutiva? E um objetivo plenamente alcançado em nosso mundo "civilizado". Não fora assim, e achas que as pessoas achariam tão natural martirizar os animais para obter deles "produtos"? Por acaso achariam natural matar por opção, por deleite, seja bicho, seja gente, fazer sofrer, deixar morrer a uns, fazer viver a outras formas de vida, tudo em resposta a uma suposta capacidade ou autoridade de julgar bem e mal, certo e errado como se as chaves da verdade fossem assim uma coisinha bem simples?
    Não meu caro, esse mundinho que apavora a alguns mal educados entre nós é simplesmente resultado de uma muito bem sucedida EDUCAÇÂO, orquestrada por poderosos que sabem muito bem o que querem, ou seja, formar gerações de massa de manobra estúpida.

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